William Saroyan: “Um dia na tarde do mundo”

Arquivado em (Livros) por Karoline Barbosa em 07-08-2018

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William Saroyan: “Um dia na tarde do mundo”. Artenova. Rio de Janeiro 1977. 178 pgs.

 O livro entrou na lista da Tertúlia Literária, por conta de uma breve resenha que caiu nas minhas mãos. Vi que estava disponível à distância de um click na internet, adquiri, li e o recomendei à nossa audiência de pensadores. Não vou dizer intelectuais da terceira idade, porque a cultura nada sabe de idades, trabalha com outros parâmetros.

Como sempre que leio um livro, fiz anotações num papel solto -é o que utilizo como marcador, esteticamente criticável, mas de enorme utilidade. Logo de cara assinalei  a abertura do texto: “Um dia no entardecer do mundo, mortal tristeza tomará de assalto o país do seu espírito. Você fugirá, então, sentindo esse toque gelado e a sombra da morte.  Com um pouco de sorte, porém, tal presença apenas irá tornar mais profunda a musicalidade da vida e a inconsútil natureza do amor”. Pensei tratar-se de algum poema, e fui buscar o autor. Não o encontrei; conclui que era do mesmo Saroyan, e entendi que lá estava a modo de overture, um prelúdio do que espera ao leitor.

O protagonista é um imigrante armênio, como o próprio Saroyan. Ou talvez seja ele mesmo, seu alter ego que também escreve; neste caso, roteiros de teatro. O mundo dos imigrantes armênios fez me evocar aquele filme de Elia Kazan, outro armênio americanizado, Terra do Sonho Distante, que tem por título original América, América! Enfim, variações sobre o mesmo tema, e pano de fundo desta obra literária que transcorre com diálogos ágeis, diretos e tocantes, como se nos encontrássemos no teatro. Sem descrições, tudo é revelado através de diálogos em mano a mano dos protagonistas. Porque é o ser humano, em suas variadíssimas versões, o argumento do livro e das peças de teatro que Yeb Muscat, o  protagonista, escreve: “Como você diz que essa peça não tem enredo? Tem enredo, sim; gente. O enredo é sempre gente. Não existe outro tipo de enredo”.

O livro me surpreendeu. Na verdade, não foi o livro -afinal fui eu quem escolheu a pauta- mas sim os comentários, riquíssimos, acontecidos na tertúlia literária. Escutei elogios a esse homem sensível, prático. Firme nas suas convicções. Tem ideias claras, diretas. Não hesita, nem negocia. É pegar o largar. “Discutir o que? Ele não gosta do título, eu gosto. Quero apenas minha peça de volta”.

Demostra um amor peculiar e delicado com a filha, um carinho todo especial (algo que me passou desapercebido, foi um fotograma que apareceu-me através do líquido revelador da plateia feminina na tertúlia).  “Rosey nunca fora fácil -porque era uma dama, uma jovem, uma mulher, a filha de sua mãe, uma outra espécie, pertencente a outra nomenclatura, o membro de uma raça diferente -essa raça adorável, irresistível, inexplicável e complexa”. Amor que se transforma em indulgência com Laura, a mulher, uma eterna adolescente, “pura futilidade, desvairada, sem foco nenhum. ‘Vou colar seu telegrama no espelho do camarim, como fazem as estrelas….Você vai me dar notícias suas sempre-sempre?’ . Laura jamais soubera dizer adeus, não sabia se despedir de pessoa alguma. Ficaria sentada no taxi por toda eternidade protelando a hora de ir-se. Ele fechou a porta do carro, o motorista deu partida. Ela voltou no assento, acenou várias vezes, enviou beijinhos”. Leia o restante deste artigo »

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12 Heróis: Liderança em versão épica.

Arquivado em (Filmes) por Karoline Barbosa em 31-07-2018

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12 Strong. Diretor: Nicolai Fuglsig. Chris Hemsworth, Navid Negahban, Michael Shannon, Michael Peña. USA 2018. 130 min.

Deve ser uma americanada, do começo ao fim. Isso pensei de bate pronto quando me deparei com o título, e li em diagonal o argumento. Mas tropecei com o nome do Diretor, um Dinamarquês de 46 anos, e a dúvida surgiu. Felizmente. O que terá a contar um escandinavo sobre as revanches do 11 de Setembro? O protagonista -americano, mas com os créditos de Thor, em várias versões- também se encaixava no mundo viking. Mas o Afeganistão, talibãs, Al Qaeda, e toda essa série interminável de variações sobre o mesmo tema que rendem espasmos patrióticos ianques, não pareciam sintonizar com uma história de deuses e homens ao gosto nórdico.

Com estas questões em mente acomodei-me para ver a feitura do diretor viking. As torres gêmeas afundando, o militar que volta às pressas para a base, e o recado dos superiores: agora o comando é nosso, nada de brincadeiras, este inimigo é de caráter nacional, e global. O time do jovem capitão Mitch Nelson lhe é retirado, os homens se revoltam, querem ele. “Mas esse sujeito não tem experiência bélica, é um teórico” -gritam os generais. Os seus replicam: “Ele é nosso líder, o único capaz de comandar esta missão que tem sabor suicida”. Hesitação, o alto comando cede ao pedido dos soldados -dos 11 que integrariam a primeira missão contra os terroristas após o desastre. O capitão é chamado de volta. Detalham o objetivo da patrulha e lhe advertem: “Você sabe que as chances de todos voltarem vivos são….”. Nelson interrompe categórico: “Cem por cento. Todos vamos voltar”. Surpresa do general que sorri perante tamanha arrogância, e do espectador que, agora sim, acomoda-se na poltrona. Isto é diferente. Tem eco de narrativa épica.

Um comando de 12 homens -uma história que aconteceu realmente, mas foi levada na surdina, pelo sigilo que implicava- destinados a destruir os ninhos de terroristas numa cidade do Afeganistão.  Logo após o 11 de Setembro, com o sangue ainda sem coagular. Chegam as primeiras lições: entender a cultura, pisar o território, que é muito mais do que conhecer o mapa, mesmo com recursos de satélites precisos. Nem tudo o que vive e se move em solo afegano é Talibã. Há histórias pregressas, brigas quase seculares de tribos e culturas que agora se encontram juntas lutando contra um inimigo terrível e comum. O que não quer dizer que se entendam entre eles; aliás, carregam mágoas e ódios antigos. E no meio dessa mistura, aquele grupo de americanos comandado por um homem sem experiência de guerra tem de navegar para chegar a bom porto. Leia o restante deste artigo »

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(Español) Arturo Pérez-Reverte: “Falcó”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 25-07-2018

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Jaques Maritain: “Humanismo Integral”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 14-07-2018

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Jaques Maritain: “Humanismo Integral”. (Español:  Palabra. Madrid. 1999. 371 pgs). (Português: Cultor de Livros. São Paulo. 2018. 310 pgs)

 Leio a versão espanhola desta obra clássica de Maritain. Estava na minha estante há bastante tempo esperando o momento adequado. Pouco depois fico sabendo que acaba de ser publicado recentemente no Brasil: esse é o motivo da dupla referência nos dados do livro anotados acima. Escrevo em português, o que significa tradução livre, com a permissão dos profissionais que devem ter feito uma versão mais adequada da obra do filósofo francês. Mas como se trata de transmitir o recado -o que o livro me ensinou e o que me fez pensar- parece-me que funciona.

Já no prefácio, anota-se uma interessante reflexão de Maritain. “Quem sou eu? Um professor? Penso que não: ensino por necessidade. Um escritor? Talvez. Um filósofo? Isso espero. Mas também sou uma espécie de romântico da justiça que imagina, após cada combate, que ela e a verdade triunfarão entre os homes. E também um zahori (um adivinho, um vedor) com a cabeça grudada na terra para escutar o ruído das fontes ocultas e das germinações invisíveis”. É uma ótima contextualização para as páginas subsequentes, pois é isso que ele se propõe: levantar questões latentes, fazer pensar, empurrar ao compromisso pessoal.

Vale dizer que o livro recolhe seis lições ditadas na Universidade Internacional de verão em Santander, em 1934. Maritain quis construir com esta obra um novo projeto de ação política e social para os cristãos do século XX, que rompesse com o paradigma da Cristandade medieval como modelo, buscando uma união entre cristianismo e sociedade. Na Idade Média a dimensão transcendente era vivida, mas nem sempre de modo consciente ou reflexivo. Um modo ingênuo -talvez no piloto automático- que é preciso atualizar. Quer dizer, o modelo de S. Luis Rei da França, ou mesmo do cristianíssimo imperador da Espanha -Carlos V, Felipe II- não são os adequados para o mundo que o cristão ocupa hoje. É preciso atualizar o modelo, encontrar um Humanismo moderno e integral. Essa é a proposta. Leia o restante deste artigo »

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Alice Munro: “Felicidade Demais”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 05-07-2018

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Alice Munro: “Felicidade Demais”. Companhia das Letras. São Paulo. 2010. 341 pgs.

Desta vez a partitura da nossa tertúlia literária foi uma coletânea de contos de uma escritora canadense, que ganha o prêmio Nobel (2013) com 82 anos. Esse contexto já nos oferece motivo para reflexão: a data de validade das pessoas não é aquela imposta pelo mundo corporativo, quando descarta pela idade aqueles que não dão esperança de alta produção. Cervantes escreve a primeira parte de D. Quixote com quase 60 anos, Alice Munro leva o Nobel com mais de oitenta. Não há motivos -na nossa plateia seleta, de terceira idade- para aposentar-se na alma, e ficar de pijama fazendo palavras cruzadas. Trata-se, isso sim, de encontrar novas funções adaptadas às limitações que os anos impõem.

Munro fala de mulheres, todos os contos estão embrulhados em perspectiva feminina. Escreve muito bem – a tradução lhe faz justiça-, e descreve ainda melhor, atenta aos detalhes, desenhando as personagens.  Assim, a postura corporal: “Ela é uma mulher seca de olhar ansioso com um cabelo que parece um esfregão cinza-chumbo e uma discreta inclinação que poder ter nascido de tanto abraçar o seu instrumento (violoncelo), ou simplesmente do costume de ser uma ouvinte prestativa e uma interlocutora solícita”. A figura elegante, sem afetação: “Sua imensa e generosa sobriedade impessoal tirava daquelas roupas toda alegria invasiva, toda ofensa”. E o caráter frívolo e iletrado: “O problema é que ela não tinha onde se agarrar. Não sabia o que era vitoriano, ou romântico, ou pré-colombiano. Tinha estado no Japão, Barbados, vários outros países de Europa, mas jamais poderia localizá-los num mapa. Não saberia dizer se a Revolução Francesa veio antes da Primeira Guerra Mundial”.

Descreve com maestria a sintonia entre as mulheres: “Quando se conhecem e simpatizam particularmente uma com a outra sentem necessidade de estabelecer quais são as informações relevantes os grandes acontecimentos públicos ou secretos, e depois vão preenchendo as lacunas entre eles. Quando sentem esse calor e essa avidez é totalmente impossível ficam entediadas uma da outra. Darão risada de qualquer detalhe ou bobagem que estão contando, ou com a revelação de um egoísmo assombroso, uma frustração, crueldades, puras maldades”. De fato, um panorama pictórico da alma feminina. Leia o restante deste artigo »

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(Español) José Luis Olaizola: “A la conquista de los apaches”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 28-06-2018

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A ordem dos fatores altera o produto. Reflexões sobre educação médica e cuidados paliativos

Arquivado em (Medicina) por Pablo González Blasco em 22-06-2018

«Curar algumas vezes, aliviar com frequência, confortar sempre». Essa clássica afirmação, que resume a função do médico, apresenta-se numa ordem que encerra um equívoco educacional importante. O que se pode esperar quando a ordem recomendada para a atuação do médico é curar, aliviar e, em último caso, confortar? O lógico é pensar que se avança do mais importante para o detalhe. Quando não se consegue curar é preciso aliviar; e quando o alívio não é possível, resta providenciar conforto. Proceder nessa sequência fatalmente apresenta o alívio e o conforto como um prêmio de consolação para o médico que se deparou com uma doença incurável, dolorosa, terminal. O produto resultante desse processo equívoco — o médico — apresenta deficiências importantes. O autor faz uma extensa reflexão sobre a formação humana e técnica do médico. Inicia-se com as advertências que chegam do paciente, aborda o tema do erro médico, para adentrar-se no terreno necessário do sofrimento e da morte, cenários que o médico deve palmilhar na sua formação porque farão parte da sua atuação profissional. Adverte, a seguir, como assumir a postura correta nesse cenário requer uma antropologia médica de caráter prático, impregnada de valores filosóficos e perpassada pela ética. A reflexão desemboca sobre a medicina como ciência e arte que, também, facilita a prática dos cuidados paliativos com a competência requerida. A modo de conclusão, o autor propõe um giro hipocrático-copernicano na educação médica, para evitar esse equívoco que rende importantes deficiências formativas. Enquanto confortar é algo que deve ser feito sempre, pela altíssima prevalência, o curar apresenta uma prevalência muito menor. O processo da educação médica deve contemplar essa proporção para produzir melhores médicos. Médicos que sempre sabem confortar e que, segundo os casos e as moléstias com as que se deparam, também sabem curar quando é possível. Quer dizer, a ordem dos fatores altera o produto. A introdução dos cuidados paliativos de modo formal no curriculum médico facilitará alterar a ordem desses fatores.

 

Clique aqui para ler o artigo completo.

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Alberto Manguel: “Una Historia de la Lectura”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 20-06-2018

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Alberto Manguel: “Una Historia de la Lectura”. Alianza Editorial. Madrid. 1998. 397 pgs.

 

Tinham me falado deste livro com grande entusiasmo. Demorei anos em tirá-lo da prateleira. Não é um manual de como ler um livro, mas sim uma avalanche de informações, sensações, percepções de um autor que transpira erudição. Não é um livro fácil de ler, até porque é difícil entender a atitude requerida para situar-se diante dele. Não é ficção nem romance; mas também não corresponde a um livro de análise literária. Aproximar-se-ia de uma memória pouco ordenada das leituras do autor o que, convenhamos, nem sempre é fácil de acompanhar em sintonia.

“Os leitores de livro, uma família à qual estava me incorporando. Lemos para entender, ou para começar a entender. Não temos outro remédio a não ser ler. Ler é, quase como respirar, uma função essencial”. Assim inicia Manguel seu relato biográfico, que transita por Israel, Argentina e finalmente Canadá onde reside. Vale dizer que o original deste livro foi escrito em inglês, o que me surpreendeu num argentino de família judaica.

Os registros e descrições do livro são variados e multicolores. Fala-se da leitura precoce, na infância, advertindo que o recebido nessa primeira idade e está relacionado com a vida, proporciona uma perspectiva vital. Segue-se um capítulo sobre a leitura em silêncio e descobrimos que nem sempre foi assim. Narra-se a surpresa de Sto. Agostinho quando vê o seu mestre Ambrosio ler: “seus olhos percorriam as páginas e o seu coração penetrava o sentido, mas sua voz e sua língua descansavam”.

Agostinho, grande leitor e fecundíssimo escritor, aparece várias vezes na história da leitura. Desde o momento da sua conversão –tolle, lege– (a voz infantil que lhe impele a ler), até um suposto diálogo que Petrarca imagina ter com ele, advertindo-lhe sobre um uso proveitoso da leitura: “Se fazes uma séria de anotações no local oportuno, poderás gozar facilmente do fruto das tuas leituras…. Que anotações te referes? ….. Quando leias um livro e tropeces com um fragmento que te comova ou deleite, não confies no poder da tua inteligência, mas força-te a aprendê-lo de memória, e medita o seu conteúdo. Assinala com nitidez as passagens úteis, para ajudar a tua memória, pois do contrário sairão voando”. Gostei de passagem, e confirmei a minha própria metodologia quando leio qualquer livro: um ponto na margem, o número da página anotada num papel (nunca uso marcador de livros, mas papel em branco por este motivo) e um trabalho extra no final para tomar nota do que me chamou a atenção. Leia o restante deste artigo »

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Alfonso López Quintás: “La palabra manipulada”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 04-06-2018

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Alfonso López Quintás: “La palabra manipulada”. Rialp. 2015. 117 pgs.

 Impossível fazer um resumo deste pequeno livro -pouco mais de 100 páginas- devido à sua densidade conceitual. Leio o original em espanhol e, embora faça estes comentários em português, não me consta que tenha sido traduzido.

O livro funciona quase como um índice das inúmeras obras publicadas do autor, que abordam o sugestivo tema da manipulação. E como tal, são citadas a modo de referência, para os que queiram se aprofundar nos diversos aspectos.  Pode-se, sim, anotar alguns dos pensamentos a modo de trailer que convide a ler, ou melhor, a meditar o livro: porque não é um livro para ser lido descontraidamente. Cada parágrafo, denso em ideias, exige uma reflexão digestiva dos conceitos.

Logo de cara, o autor adverte que o domínio e controle sobre os seres pessoais leva-se a cabo, com astúcia, mediante as técnicas de manipulação. E manipular é tratar uma pessoa ou grupo de pessoas como se fossem objetos, de modo a conseguir um domínio fácil sobre elas. Reduzir pessoas a coisas é a essência do sadismo que, contra o que habitualmente se pensa, não é apenas ser cruel, mas rebaixar a condição e dignidade da pessoa. Despojar a pessoa da sua dignidade é também atingível através do que López Quintás denomina a ternura erótica: se reduz o relacionamento a simples atração sexual, eliminando-se a dimensão de amizade, a projeção comunitária do amor, a fecundidade amorosa.

Quem manipula? Eis a pergunta obrigatória. E a resposta simples e direta: manipula aquele que quer vencer sem nos convencer para que aceitemos o que nos oferece sem expor nenhuma razão da sua proposta. O manipulador exerce uma influência “obliqua”, manhosa. Diz o autor: “Não te enganaram; te manipularam, que é uma forma subtil de enganar”. Leia o restante deste artigo »

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CASABLANCA

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 28-05-2018

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(Casablanca). Diretor: Michael Curtiz. Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Reins.USA. l943. l02 min.

A sessão mensal do Cinema para Todos pedia um clássico. E um clássico é muitas vezes aquele filme do qual todos falam, muitos citam diálogos e até alguma cena consagrada…..mas nunca viram o filme inteiro. Era preciso preencher essa lacuna cultural. Colocamos Casablanca na tela, a pipoca por perto, e deixamos rodar.

Quem não conhece Casablanca? Em conversas de cinema, mesmo entre os pouco versados, é passagem obrigatória. E os afiados na arte fílmica citam de cor os diálogos, e até colocam na boca de Bogart palavras que nunca chegou a pronunciar. Os clássicos têm isso; manipulação indiscriminada, direitos autorais vencidos. São como patrimônio da humanidade. “As times goes by” -o tema musical que ninguém toca como Sam- envolve em papel de presente o celuloide, tornando-o apetitoso. A voz arranhada de Sam golpeia as lembranças de Bogart que tem cheiro de Paris; os dedos arrancam das notas a melodia, e dos espectadores todo um universo de saudades na tentativa de congelar momentos passados de tempos melhores. Os tempos de cada um, as recordações boas que todos guardamos no coração.

Por isso, falar de Casablanca é sentir-se à vontade em tema que todos conhecem. Não há o perigo de “contar o filme” quando passeamos pelas cenas, recreando-nos mais uma vez, em tudo o que nos é grato. Quando se assiste a primeira vez, presta-se atenção no argumento. Na segunda, são os diálogos -riquíssimos, deliciosamente sutis- os que chamam a atenção. Na primeira passada fugiram à nossa observação, pois a agilidade das cenas é grande, e o conteúdo denso. Mas é depois, nas sucessivas apreciações, quando reparamos que cada cena, cada quadro, é simplesmente redondo, acabado. Passamos a ver o filme como um conjunto de miniaturas preciosas, onde vamos nos detendo, ganhando intimidade com ele, como um álbum de família. É o momento da sintonia, de entrar em ressonância com o filme, vivê-lo junto com as personagens numa aventura que é desabrochar de emoções ocultas.

Todos conhecem Casablanca, mas poucos sabem explicar o magnetismo que encerra. Lembro de um fato esclarecedor. Foi no início da década dos 80, quando o Vídeo Cassete aparecia no mercado brasileiro, e os cinéfilos corriam à procura dos clássicos, daqueles que não passavam na TV, ou pelo menos em horário compatível com o dos cidadãos comuns, que acordam cedo e trabalham ganhando o leite das crianças. Naquela época a pirataria de fitas de vídeo era a praxe, sem selos de qualidade e toda essa regulamentação que vivemos hoje.

Vamos ao fato. O local: um vídeo clube nos Jardins. Os protagonistas: um rapaz jovem, novo cliente, fascinado pelas descobertas dos clássicos da sétima arte e leigo no assunto; uma moça, gerente do clube; um outro cliente que, passivo, observa o diálogo entre os dois primeiros. “Formidável este Casablanca que você me recomendou” – diz o rapaz, enquanto devolve a fita. “Naturalmente -exclama a moça- trata-se de um clássico. Pena que tenha esse final. Deveriam ter dado um jeitinho…”. “É mesmo: se não fosse esse final…” – acrescenta o jovem. O terceiro personagem entra em cena: “Minha filha, não seja superficial. O filme é famoso pelo final que tem. Você não repara que um final diferente lhe tiraria toda a força? Murcharia tudo, querida!” Perplexidade. O que murchou foi a conversa, que se encerrou ali mesmo.

Assisti Casablanca muitas vezes. As suficientes para perder a conta e conhecer de cor a maioria dos diálogos. O desfecho final, na clássica cena do aeroporto, é magistral. O magnetismo de que falávamos cativou os cineastas e os amantes do cinema que gostam, vez por outra, de saborear cada um dos fotogramas, envolvidos na neblina do aeroporto. A sequência temperada com duas lágrimas escorrendo na sombra do chapéu de Ilsa, inclinado com charme.  E tudo isto, sem saberem explicar o porquê. São os valores que o filme destila os que lhe conferem toda a força e encanto. Como o vinho, melhor a cada ano que passa.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, Rick e Ilsa, acompanham o desenrolar do cinema neste século, atrás das cortinas do escritório de Rick. Um cinema que cada vez mais carece de valores, órfão de romantismo. Ou talvez, como na janela de “La Belle Aurore”, quando Paris é invadido, olham-nos com receio, surpreendidos destes novos invasores que chamam de cinema a qualquer metro de celuloide impresso. Algo grave está para acontecer, pensam. E como toda resposta: “Beije-me, beije-me como se fosse a última vez”. A taça de Champagne cai. A tinta do bilhete escorre com a chuva na estação de Paris. Definitivamente, é preciso rever Casablanca, de vez em sempre, para que o coração do cinema não perca o seu marca passo.

Ingrid Bergman, com 28 anos, sempre elegante, com postura e classe, sóbria nos modos, cheia de dramatismo quando necessário. Bogart vive o papel com credibilidade porque é ele mesmo, como sempre. Cínico, indiferente, com metódico desprezo por tudo e por todos. Cercado de um ar “não partidário”, como recurso para encobrir os sentimentos nobres de fundo. Comenta-se nos bastidores que o final de filme foi escolhido por ele: não surpreende. É bem o seu estilo, auto desprezo, querendo ser frio, mas não consegue ocultar que tem coração e grande.

Não poderiam ser outros os atores deste clássico embora -sempre conversa de bastidores- inicialmente, nomes diferentes pairavam entre os candidatos. Hoje seria difícil imaginar quem encaixaria melhor. Michael Curtiz, húngaro de nascimento, passaria a posteridade mesmo que tivesse dirigido apenas Casablanca. As personagens secundárias estão maravilhosamente cuidadas, e aqui vai mais um mérito para o diretor deste filme antológico. Os valores de fundo atuam como arcabouço para toda a tecelagem das cenas. São estes valores, os que o público, sem perceber, vai descobrindo cada vez que assiste, entrando em ressonância, identificando-se com eles.

Passeemos de novo pelas cenas. Estamos no quarto de Rick. Ilsa exige, revolver em mão, as carta de trânsito. “Dispare, me fará um favor”. É Rick falando. Ilsa titubeia, cede e cai nos braços de Rick. “Já não sei mais o que é direito. Você terá de pensar por nós dois. Por todos nós”. O público identifica-se com Ilsa que hesita. Está falando o sentimento.

Agora estamos no aeroporto. Rick pede ao inspetor Renault que preencha as cartas de trânsito. Ilsa vira-se surpresa: “Eu não entendo. Ontem à noite…” Rick fala com convicção: “Ontem à noite pensei muito e decidi que você vai com Lazlo nesse avião. Se fica talvez não se arrependa hoje, nem amanhã, mas algum dia acabaria fazendo-o e pelo  resto da sua vida”. É a lealdade, o sentido do dever, a nobreza do coração de Rick que deixa ir a mulher que admira, que respeita – sim, que ama!!- por sabê-la esposa de outro. Decisão impregnada de lealdade e bom senso que Bogart assina, sem dar-se importância, de modo característico: “Não quero parecer nobre; mas não é preciso muito para ver que os problemas de três pessoas não passam de um punhado de feijão neste mundo nosso”. Em tradução livre, é mais ou menos isso.

O sentimento se debate e o espectador com ele. Ilsa pede uma explicação que satisfaça o coração: “Mas…e nós?” E Rick: “Nos teremos sempre Paris”. Isto é, teremos sempre a lembrança do nosso ideal, de um amor nobre, claro, sem subterfúgios, livre de culpa. Ilsa vai-se consolada. E o espectador segura o coração -juiz cego- e assente para o que sabe ser correto.

É essa experiência de atravessar o dilema guiado apenas pelo coração, hesitando nos sentimentos de Ilsa até perder a noção da verdade -“não sei mais o que é direito; você terá de pensar por nós dois”- para depois ser confirmado na opção certa por Rick, uma vez e outra, o que me faz rever Casablanca sem enjoar. Rick, que pensou por eles dois, por nós todos, nos oferece a solução certa. O cínico, o indiferente, aquele que não sabíamos em que time jogava, mostra-nos que joga no nosso; ou melhor, que nós jogamos no dele, porque ele é indiscutivelmente o líder. Sentimos, com o inspetor Renault, que “é o começo de uma grande amizade”, com Rick, naturalmente.

A cena do aeroporto, que passei inúmeras vezes nas minhas aulas e conferências para ilustrar a necessidade da reflexão -alguém tem que pensar, e nos ajudar a pensar- teve muitos desdobramentos. Lembro de uma aluna, há muitos anos, que me disse: “O difícil, professor, é subir no avião. Ninguém pode subir por nós. E muitas vezes, sabemos que é o certo, mas custa, custa demais”. Quando apresentei a tese doutoral -sobre cinema e educação médica, que continha na capa uma foto de Casablanca- lembro que essa mesma aluna, me deu de presente um pequeno pôster com a cena do aeroporto. Não sei o que foi feito da aluna, perdi a pista, mas o pôster está lá na parede do nosso terraço.

Quem sabe revendo sempre Casablanca, os homens -os que fazem e os que assistem cinema- aprendam a degustar os valores impressos no filme. Repararíamos -entre muitos outros recados- que deixar-se levar apenas pelo sentimento é solução pouco madura, injusta com os semelhantes. Que o final feliz, o da vida de cada um, entranha decisões custosas que, como no filme, se lembram com carinho especial. E que deixar-se levar pelo que apetece, colocar a lealdade e o compromisso no arquivo morto, é saída fácil. Podemos até gostar “hoje, amanhã, mas algum dia…”

Se apesar de tudo, os homens do cinema são impermeáveis aos ideais nobres -razoes deste teor não convencem quem procura apenas lucro- revendo Casablanca aprenderão, no mínimo, a produzir um cinema de classe. Esse cinema que o público precisa, que o engrandece arrancando-o da mediocridade. Um cinema dedicado a ele, ao público, como somente Ilsa e Rick sabiam fazê-lo. Here’s looking at you kid, quer dizer, “pensando sempre em você”.

 

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