Manuel Antonio de Almeida: Memorias de um Sargento de Milícias

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 10-06-2019

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Manuel Antonio de Almeida: Memorias de um Sargento de Milícias. Ed Objetivo. São Paulo, 1998. 203 págs.

Animado pelos comentários de um amigo, professor de literatura, aventurei-me na leitura deste clássico. Consegui um exemplar que, pelo feitio e pela editora, entendi tratar-se de um edição para preparar o vestibular. Lembrei-me então do comentário de outro amigo, grande leitor e de vasta cultura, que dizia ser um desserviço mandar ler os clássicos  a toque de caixa, com vistas a passar num exame, ou para preencher o programa docente. Conforme avançava pelas páginas entendi ainda melhor essa afirmação. Pois a força de um clássico, não é apenas o que se conta, mas o modo como se conta; e isso tem de ser degustado, saboreado, não apenas engolido com vistas a uma nutrição muito questionável.

As memórias do tal sargento, que propriamente nunca chegou a ser tal, evocam de fato a novela picaresca espanhola -como bem se adverte no prólogo- com a diferença que esta data do século XV-XVI , e a obra que nos ocupa situa-se no século XIX. Os dizeres são outros, e o argumento -todo ele- ancora-se na forma descritiva que é o ponto alto do livro. Os fatos são corriqueiros; a substância corre por conta da forma.

A descrição da personagem é precisa e sugestiva, já desde a terna infância: “Era além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas”. E assim continua até o final: “És um vira-mundo; andas feito um valdevinos sem eira nem beira nem ramo de figueira, sem ofício nem benefício, sendo pesado a todos nesta vida (…) O agregado, refinado vadio, era uma verdadeira parasita que se prendia à árvore familiar, que lhe participava da seiva sem ajudá-la a dar os frutos” Leia o restante deste artigo »

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O Gênio e o Louco: Um dicionário de paisagens da alma e das possibilidades humanas.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 29-05-2019

The Professor and the Madman. Diretor: Farhad Safinia. Mel GibsonSean Penn, Eddie Marsan, Jennifer Ehle, Natalie Dormer, Jeremy Irvine. 2019. 124 min.

 

A indicação, desta vez, veio de um amigo, muito exigente, não assiste qualquer coisa. Imagino que gosta dos meus comentários porque as sugestões dele são quase um desafio: estou esperando para ver o que você tem a dizer deste filme. Ainda bem que, pelo seu gosto apurado,  não me faz muitas, porque eu não daria conta do recado. Limitou-se a dizer que era uma obra de arte, com grande conteúdo. O resto -pensei- deve ser comigo.

A trama apoia-se numa história real. E como todas as histórias, quando bem contadas -como o cinema de classe sabe fazer- cativam. Mesmo sem saber o porquê. Neste caso, um jovem diretor iraniano, com a tradição que nessas latitudes tem de contar histórias, seja também uma explicação.

Enquanto rascunhava mentalmente estas linhas, falei do filme com algumas pessoas. Durante uma reunião, um colega médico -volto a ele daqui a pouco- perguntou-me qual era a síntese do filme. Não soube lhe dizer; confessei apenas que tinha sido uma experiência estética e cultural, um mergulho antropológico e que senti-me identificado. “Para ser franco- acrescentei- estou alinhavando o comentário, e ainda não tenho claro o título do ensaio”.

O filme relata a largada para confeccionar o Dicionário de Oxford, numa tentativa colossal de compilar todas as palavras dos autores de língua inglesa;  sua gênese, emprego, e citações ao longo dos séculos. E para tal, não basta um pequeno time de expertos; é preciso convocar os súbditos do Império Britânico, que se estende por mais de um quarto da superfície do planeta. Estamos já avançada a segunda metade do século XIX, no meio da era Vitoriana, quando Oxford dispara este apelo “urbi et orbe” para todos os anglofalantes. Leia o restante deste artigo »

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Roger Scruton: “Pensadores da Nova Esquerda”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 19-05-2019

Roger Scruton: “Pensadores da Nova Esquerda”. É Realizações. S. Paulo 2014. 335 pags.

Já na apresentação nos advertem que Scruton sintetiza o trabalho dos intelectuais que analisa: um moroso farejar do intelecto ao redor de um santuário inatingível. Em sua obstinada luta para negar a realidade, um farejar verdadeiramente diabólico

De fato, este é o assunto. O leitor se lança na leitura do livro buscando encontrar a síntese da construção mental desses pensadores, mas o que realmente encontra é um duelo de alto nível, uma verdadeira disputatio (nos termos clássicos e medievais da palavra) onde Scruton põe a limpo todas as diferenças e dissenções que tem com cada um deles. Algo que, na prática, fica muito longe e distante, dificilmente acessível, ao leitor comum, mesmo com conhecimento do tema. São filigranas -certamente necessárias quando se argumenta com pensadores deste naipe- que escapam ao raciocínio comum. Não é, ao meu modo de ver, um livro de divulgação mas de consulta. Mesmo assim, vale um rápido passeio pelo livro -confesso que às vezes em diagonal, porque o tema requereria mais estudo do que leitura.

Adverte Scruton que o termo Esquerda, deriva da Assembleia dos Estados Gerais de 1789 quando na França, a nobreza sentou-se à direita do rei, e o Terceiro Estado à sua esquerda. E, a seguir, aponta: “O intelectual de esquerda é tipicamente um jacobino. Acredita que o mundo é deficiente em sabedoria e justiça, e que a falha reside não na natureza humana, mas nos sistemas de poder estabelecidos. Não há um simples pensador de esquerda que esteja disposto a responsabilizar-se pelas crueldades perpetradas em nome do seu ideal, embora todos sejam inflexíveis em afirmar que as crueldades de todo o ancien regime devem ser imputadas àqueles que o defenderiam”.

Logo a seguir, já no primeiro capítulo, explica algo que comprovamos diariamente, desde as manchetes dos jornais, até as discussões nas redes sociais -que por vezes atingem um nível lamentável, de baixo calão. “Não estamos negociando com um sistema de crenças sustentadas racionalmente. As proposições importantes do pensamento de esquerda são precisamente aquelas que não podem ser questionadas. São crenças colocadas além das ciências, num reino de absoluta autoridade, que jamais poderá ser acessado pelos não iniciados. A doutrina torna-se inseparável da ação revolucionária. Práxis é o equivalente marxista da fé”. Insistir nos argumentos como muitos ainda querem fazer, é um espasmo inútil, uma tentativa de apologia fadada ao fracasso. O sistema operacional desses gurus de esquerda é outro. Leia o restante deste artigo »

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(Español) Juan Manuel de Prada:  “El Castillo de Diamante”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 12-05-2019

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G. K. Chesterton: “ O homem que foi Quinta Feira”. (Um pesadelo). 

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 05-05-2019

G. K. Chesterton: “ O homem que foi Quinta Feira”. (Um pesadelo). 

Círculo do Livro. São Paulo. 1973. 196 págs..

Ler Chesterton sempre traz surpresas. Foi esse o pensamento que veio à minha mente logo no início da nossa reunião mensal de pensadores na Tertúlia Literária. Surpresas porque, sendo o livro o mesmo, os comentários dos assistentes pareciam indicar terem lido livros diferentes. Como alguém apontou sabiamente, este é um livro que se pode ler em diferentes camadas, em planos diversos. Este -pensei- e muitos outros livros, não só do escritor inglês, mas da diversidade literária que temos à nossa disposição. Bem dizia Fernando Pessoa, que o que vemos não é o que vemos, mas o que somos.

Literatura infanto juvenil, disse alguém; uma novela de detectives, repleta de humor. Houve até quem deu risada sozinho, por conta da conhecida ironia do autor. “Estas mulheres modernas consentiam em regalar um homem com a inusitada cortesia jamais recebida por ele de uma mulher comum: a de escutá-lo enquanto está falando”. Ou este outro momento: “Uma praça que parece tão exótica, e nunca se saberá se é seu aspecto estrangeiro que seduz os estrangeiros ou se são os estrangeiros que lhe dão semelhante aspecto”.

Ironia e paradoxos, que é a praia de Chesterton, uma modalidade de disputa clássica entre os britânicos cultos. “Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poeta. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca  enxovalhada e de chapéu também branco, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista…..mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa?”. Leia o restante deste artigo »

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Friedrich Durrenmatt: “A Suspeita”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 22-04-2019

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Friedrich Durrenmatt: “A Suspeita”. Círculo do Livro. 1975. 157 págs.

Quando publiquei um comentário sobre a obra clássica de teatro deste mesmo autor, A Visita da Velha Senhora, além de uma amável resposta, ganhei este livro de uma colega: “É prosa, mas o miolo ético é o mesmo. Vás gostar”. Coloquei na estante, esperando o momento. Porque os livros tem o seu momento, a ocasião que sintoniza com nosso estado de ânimo, com as disposições e com as muitas coisas que baralhamos na cabeça. Quem tem o hábito de ler, sabe disso.

Há livros que se adquirem para ler de bate pronto; outros tem de esperar, alguns se interrompem para depois retomar sua leitura, outros nos olham desde a estante, e até parece que nos interrogam para saber quando chegará o seu momento. Nem sempre sabemos responder, os planos de leitura que fazemos com o acervo de que dispomos são frequentemente mudados. Mas, isso sim, olhamos para todos eles com carinho entranhável, deixando-os amadurecer -talvez amadurecer nós mesmos, como diria Borges- até que surge a faísca, o arco voltaico que faz com que o retiremos da prateleira e o coloquemos em baixo do braço. Não, não é amor a primeira vista, mas amor maduro que embrulha eles -os livros- e nós nas circunstâncias que nesse momento nos rodeiam.

Não lembro quais foram as que cercaram este breve romance do escritor suíço. Talvez a fácil portabilidade do livro, pequeno, numa semana que previa viagens de Uber e algumas esperas. Penso que confessar isso com franqueza, não desmerece a obra; na verdade, faz parte do momento, pois escolher o livro certo na ocasião errada rende péssimos dividendos. Leia o restante deste artigo »

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A Mula- Do Arrependimento e do Perdão: A Sabedoria que decanta com os anos.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 14-04-2019

The Mule. Diretor: Clint Eastwood. Clint Eastwood, Taissa Farmiga, Bradley Cooper, Michael Peña, Laurence Fishburne, Dianne Wiest, Andy Garcia, Alison Eastwood. 2018. 116 min.

A estas alturas não é nenhuma novidade confessar que admiro Clint Eastwood. Sou fã de carteirinha. Quando alguém se atreve a pensar que já acabou a carreira -eu nunca pensei, acho que só para no túmulo- nos surpreende com um novo filme. A maioria dos últimos na direção (Sully, 15:17 Trem para Paris, Além da Vida, Invictus), embora não  consegue se afastar completamente das telas (Gran Torino, As Curvas da Vida) ou mesmo em papeis sem créditos, como o grande mestre Hitchcock (Snipper Americano).  Chegou a dizer que estava muito velho para os papeis, o mesmo motivo que levou Woody Allen a abrir mão do protagonismo naquela fita encantadora,  Meia Noite em Paris.

Mas agora, Ator e Diretor  juntam-se para uma atuação que  transcende o celuloide. Com 88 anos o velho cowboy da Califórnia , trôpego mas sem perder o charme, reaparece para confessar os erros da vida. Cultivador de lírios, rodeado de flores e de cargas de cocaína que lhe caem no colo, Clint enfrenta um papel que, antes ou depois, todos temos que aprender a desempenhar. Reconhecer os equívocos, pedir perdão, ter a humildade de suplicar o indulto e colocar as prioridades esquecidas no lugar adequado. Convoca um um elenco de luxo -Andy Garcia, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Dianne Wiest- como testemunhas e, no primeiro plano, a filha dele, Alison Eastwood, nascida da primeira mulher após 15 anos, enquanto nesse meio tempo ia montando outras famílias por ai.

Clint é Earl Stone, um nonagenário decadente que, após dilapidar os seus bens -a venda de flores pela internet atropela os velhos cultivadores- tropeça sem querer com um bico de entregas patrocinado por um cartel de drogas. Um velho convertido numa espécie de motoboy, amealha dinheiro polpudo por conta das corridas, começa a cair a ficha -não porque não tem o que comer, mas porque lhe sobre e pode ajudar  muitos- e recupera as prioridades. Um filho pródigo ao contrário, mas com os mesmos efeitos saudáveis do arrependimento. Leia o restante deste artigo »

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(Español) Pablo González Blasco – Educar no Humanismo

Arquivado em (Videos) por Pablo González Blasco em 10-04-2019

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Sebastian Barry: “Os Escritos Secretos”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 07-04-2019

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Sebastian Barry: “Os Escritos Secretos”. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2013. 348 págs.

A tertúlia literária traz sempre surpresas. Há algumas semanas, uma das assistentes ao nosso fórum de pensadores, presenteou-me com este livro. “Talvez possa servir para nossas discussões. Eu gostei muito”. Agradeci, guardei o livro e, pouco depois mergulhei na leitura dos escritos secretos.

Um cenário muito bem construído, uma anciã de quase 100 anos, resgatando a própria memória, enquanto esculpe sua história de vida. Escreve no papel, mas esculpe na alma -na própria e na do leitor- pois é na escrita onde se revela a verdade do vivido, embaçado pelo tempo e pelos sentimentos que agora, com o tempo, decantam com serenidade. “O terror e o sofrimento da minha história ocorreram porque, quando jovem, eu achava que os outros eram os autores da minha felicidade ou do meu infortúnio”.

Este fato, embora simples e conhecido, nunca será suficientemente ressaltado, porque o esquecemos com enorme frequência: escrever o que se passa conosco clarifica a realidade, facilita a compreensão. E isso tem uma aplicação de amplo espectro: desde os diários que confeccionavam nossas avós, até fazer uma lista dos problemas que nos afligem e que parece se dissolvem e perdem importância quando estampados no papel. Como dizia um amigo professor: quando falamos nos tornamos claros para os outros, mas na hora de escrever, nos fazemos claros para nos mesmos! Leia o restante deste artigo »

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(Español) Jesus Sanchez Adalid: “El Mozárabe”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 30-03-2019

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