Escritores da Liberdade: a coragem de ensinar

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 21-11-2007

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Os filmes de professores contam, quase sempre, a mesma história. Os desafios que alguém, apaixonado pela educação, tem de enfrentar com a rebeldia dos alunos, a indiferença hipócrita do sistema e a passividade da sociedade. As histórias, embora semelhantes são também, justo é reconhecê-lo, reconfortantes, um facho de luz e um ponto de esperança sobre a mediocridade que nos envolve. 

Desta vez é a uma magnífica Hilary Swank que decide aposentar a luvas de Box da Menina de Ouro, para transformar-se num monumento de mulher. Erin Gruwell é uma professora que veste tailleur elegantíssimo, e faz questão de usar um colar de pérolas para dar aulas num colégio que é obrigado a aceitar um programa de integração social. Latinos, negros, e orientais, agrupados nas correspondentes gangs, sem nenhuma vontade de ser educados e ansiosos por brigas são a platéia que lhe corresponde. A sala 203, o quartel geral de Erin, mais parece um campo de batalha, permeado de ressentimentos e ódios, do que uma classe. A professora novata tem a paixão ingênua do principiante. Arruma-se com cuidado, cada manhã, enquanto pergunta ao marido que a contempla surpreso: “Diga-me, pareço uma professora?”. E confessa abertamente, à chefe do departamento: “Quando se defende um garoto no tribunal penso que já perdemos a batalha. Temos que ganhá-la antes, aqui, na sala de aula”. Um olhar cético é a única resposta de quem já tem muitas horas de vôo e pensa que esse excesso de entusiasmo se irá apagando com o tempo. 

Mas a Sra. Gruwell não desiste. O mesmo sorriso que acompanha as inúmeras tentativas de aproximação dos alunos e conquista espaços, começa a incomodar os colegas professores que vêm na jovem sonhadora uma ameaça para o sistema instalado, e para a própria carreira. O colégio, que no passado teve avaliações ótimas, perdeu muitos pontos por que foi obrigado a incorporar o programa de integração social. Os bons alunos, assustados com as novas turmas –a ralé da sociedade- abandonam o colégio, as médias diminuem, piora a reputação do centro docente. Essa parece ser a única preocupação dos diretores e professores que se limitam a tolerar a escória, esperando que desistam para não piorar ainda mais a imagem do colégio e a própria. “Não se preocupe, tenha paciência que você ensinará no terceiro ano. Os alunos, com o tempo, param de aparecer”. Erin olha perplexa, não acredita no que ouve: “Talvez eles façam fila para entrar na minha aula”. Um sorriso no qual está implícita a consideração “coitada, ela é tão ingênua” acompanha o comentário que fecha a questão: “Você não pode obrigar a ninguém a querer ser educado. Contente-se com ensinar disciplina”. 

O mundo é dos que sonham, e somente através dos sonhos é possível fazer nossa parte para melhorá-lo. Os sonhos de Erin tropeçam com a esperteza dos traquejados, das velhas raposas que são já aposentados na alma e para quem o aluno é um incômodo do qual é necessário livrar-se o quanto antes. O filme, que pela sua temática já teria força suficiente, se agiganta pela semelhança, assustadoramente análoga, com a realidade que vivemos hoje na educação. É uma verdadeira bofetada que faz refletir a todos os que, de um modo ou outro, estamos envolvidos com a formação de pessoas. 

É bem sabido que qualquer projeto educacional deve contemplar um conteúdo de conhecimentos a ser ensinado, umas habilidades a serem desenvolvidos, e umas atitudes que devem ser promovidas. Medir conteúdos é relativamente simples, mediante as provas de modalidades variadas; o mesmo acontece com as habilidades, embora essas medidas nem sempre são atendidas na formação já que a vida se encarregará de avaliá-las. Restam as atitudes que por serem difíceis de medir – até porque não é possível medi-las como se medem os conhecimentos- deixamos de avaliá-las. E como todo o que não se avalia não é possível cobrar, acaba-se passando batido e, por um esquecimento voluntário, são sumariamente eliminadas dos objetivos educacionais. 

O diretor do Colégio Wilson sabe que os alunos estão envolvidos em brigas e tiroteios noturnos, onde houve vítimas. Mas deixa claro que “nossa política é não discutir nada disso na sala de aula”. Isto é: vamos nos preocupar dos conteúdos, vamos dar o programa que é extenso, e não vamos perder tempo com detalhes, e com problemas pessoais. Estamos aqui –parece dizer- para ensinar e não para resolver os problemas de cada um destes alunos complicados. A semelhança com o dia a dia, nos colégios e, pior, na Universidade é enorme. Os professores são responsáveis por um programa, por uma grade acadêmica, geralmente apertada, duas ou três talhas maiores do que o tempo que se dispõe para vesti-la. E ninguém quer ceder tempo para discutir “detalhes”, isto é, para conhecer o aluno, saber dos seus problemas pessoais, dos seus sonhos, bloqueios e medos. Afinal isso que o faça outro professor: minha matéria é sumamente importante. Vamos despachar a matéria, fazer de conta que ensinamos, eles fazem de conta que aprendem. E, nesta comédia, onde os atores têm mestrados e doutorados ninguém é preparado para a vida real. Doutorado, afinal, vem de doceo, ensinar em latim; de nada serve ter doutorado se não se ensina o que realmente importa. Mas parece que as comissões de pós-graduação esqueceram-se das etimologias latinas porque estão extremamente ocupadas avaliando os projetos que chegam às dúzias. 

Erin sonha, tem paixão por educar, e encontra os caminhos reais para se aproximar dos alunos. Quase trinta adolescentes que nunca ouviram falar do nazismo, mas experimentaram, todos, brigas com armas de fogo, e perderam amigos e familiares na guerra que corre solta nas ruas. Erin tenta entendê-los, colocar-se nos seus sapatos e andar várias luas com eles, como diz o provérbio indígena. Quem são eles? Qual é a sua história? Está dada a bandeirada de saída para os diários destes Escritores da Liberdade, que traz a tona histórias de vida, sofrimentos e medos, vivências enormes –não detalhes, como dizem os acadêmicos- que devem ser entendidas, trabalhadas, compreendidas, para depois encaminhá-las pela trilha da educação. 

É preciso ter a coragem de falar com o aluno do que realmente importa. E o que importa não vem determinado pelo programa do professor, mas pelas inquietações reais do aluno. É preciso ter a coragem de escutar, de envolver-se com os questionamentos do estudante. Aqui se encerra, sem dúvida, o grande desafio das mudanças na educação. É muito mais fácil ter a lição pronta, do que estar disponível para aquilo que o aluno vem questionar. Isto último requer criatividade, excelência docente – que não se mede pelos títulos de pós-graduação-, valentia e compromisso. Educar é também arte e, como tal, implica em ser criativo, arriscar, inovar. Mas nem todos estão dispostos, e muitos menos estão preparados para esse desafio. Afinal, ser professor é essencialmente ter vocação docente: algo muito diferente de um emprego, ou mesmo de uma brilhante carreira de investigação e publicações. Já dizia Ortega que a Universidade deve ser a projeção institucional do estudante. A Universidade não é para os professores, nem para os pesquisadores. A Universidade é para os estudantes. Se faltar ensino, o colégio, a Universidade, qualquer centro docente, não passa de um circo de figurantes que se consome em brigas de poder e vaidades feridas, e se transforma num aborto de projeto educacional. 

Com freqüência releio trechos de um belíssimo livro que ganhei de uma colega, também professora de Medicina de Família em USA. Intitula-se “A coragem de ensinar” ( Parker J. Palmer: “The Courage to Teach”. Jossey-Bass. S.Francisco. 1998.), e o autor atreve-se a definir a vocação como “o lugar onde se encontram a profunda alegria pessoal com as verdadeiras necessidades do mundo”. Ser útil e trabalhar com alegria: duas características da vocação quando verdadeira. Num outro capitulo, o professor Palmer define as verdadeiras características da vocação docente. Quase todos os professores se perguntam o quê tem de ensinar, os conteúdos. Alguns param para pensar, como ensinar esses tópicos. Poucos refletem sobre quem são os alunos a quem devem ensinar. E quase ninguém se atreve a fazer a pergunta tremenda: “Quem ensina?”. E conclui: “Por que, queiramos ou não, acabamos ensinando o que somos”. É a força do exemplo que está implícito na verdadeira coragem de ensinar. 

Aumentam os atritos com os colegas docentes, já em guerra declarada com Erin Gruwell que ataca diretamente: “Por que eles vão perder seu tempo, se sabem que nós não acreditamos no que fazemos, e pensamos que isso não vai funcionar?” O aluno não é tonto: sabe quem é o professor que de verdade se interessa, que se compromete e acredita no que ensina. A ele, somente a ele, tributa o respeito e a veneração que merecem. Dos alunos vem o verdadeiro aval de qualidade de qualquer professor. 

Os colegas, consumidos pelos ciúmes que nem fazem questão de disfarçar, soltam o veneno: “Você pensa que mais ninguém tem competência nesta escola? Isso que você faz não é possível de reproduzir, é um estilo que funcionou agora, mas não temos garantias de que se possa repetir. Deixe que outros ensinem os seus alunos melhor do que você, sem inventar modas….” Erin não tem nada a perder; “Como você vai ensinar eles se nem sequer os conhece, não os ama. Nos os transformamos em família, eles encontraram o lar que não tinham na sala 203”.

O professor Palmer, que também tem muitas horas de vôo, adverte no seu magnífico livro que os professores, quando nos juntamos, somente falamos dos alunos, especialmente dos que nos trazem problemas. Nunca falamos de nos mesmos, não nos corrigimos, nem nos apoiamos. Falamos de terceiros, nunca de nós. Dos alunos, da grade, dos horários, das normas. Silenciamos nossos medos, nossas dificuldades, nossos sentimentos de fracasso que cobrimos com um perfume acadêmico com data vencida, démodé. Um perfeito caldo de cultura para as vaidades frustradas.

Erin Gruwell e seus Escritores da Liberdade publicaram seus diários, estabeleceram uma fundação para reproduzir o modelo e perpetuar o sucesso da coragem de ensinar. Isso é a prova de que não é apenas carisma de uma sonhadora, mas capacidade de comprometer-se, e de ter a valentia de admitir que para educar não se pode colocar a vida entre parênteses. É preciso educar na vida mesma, na realidade que nos circunda. E, nessa realidade, dar o melhor de nós. Esse é a verdadeira qualidade que se espera de um professor.

Escritores da Liberdade (Freedom Writers) Diretor: Richard LaGravenese. HilarySwank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April L.Hernandez. 123 min.

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  • Jfigueiro

    Caro Pablo:

    Fiquei muito feliz em rever seu belo trabalho.
    Parabens.
    Figueiró.

    Joao Augusto Figueiró

    Instituto Zero a Seis
    Av. Paulista, 2073 – Horsa I – sala 2112
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  • BRUNO

    um filme impressionante, belo, e mostra como uma pessoa pode mudar muito seu ambiente.
    a parte mais bela do filme que achei foi a parte 1h e 28min quando a escritora que refugiou anni frank esta falando “… mesmo uma simples secretária, uma dona de casa, um jovem, mesmo que com pequenas atitudes podem acender uma luzinha num quarto escuro…”

    obs: o que achei engraçado no filme foi que os personagens tinham aproximadamente 16 anos e os atores e atrizes deviam ter um 25.
    engraçado =)

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