Diamante de Sangue: O amor que resgata a esperança

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 12-01-2008

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diamante_sangue_3As pessoas mudam, podem melhorar. Isso nos abre à esperança em tempos de desencanto. A decepção com o ser humano – afinal, as frustrações com as instituições são fruto das infidelidades das pessoas que as formam – parece estar na ordem do dia. Ler o jornal e sair incólume é, freqüentemente, um desafio que deve ser conquistado diariamente. Precisamos de estoques de otimismo maiores que as reservas de petróleo que vão sendo descobertas no território nacional. 

Nunca gostei de Leonardo Di Caprio. Ou melhor, sempre o considerei um garoto caprichoso, desde que ficou emburrado quando não lhe entregaram o Oscar por Titanic, dez anos atrás. Chateou-se mesmo, e nem compareceu à festa. Padecia daquele complexo tão freqüente nos adolescentes que pisam a calçada da fama de ser o umbigo do mundo. E o mundo nem ligou para ele. Daí o meu pé atrás e a minha resistência para assistir os filmes que contém o seu nome nos créditos.

Mas, voltando ao início, as pessoas mudam. Leonardo e eu. Da minha parte, decidi dar uma chance. Quem sabe os anos gastos em educar jovens -essa tarefa de professor que, como a do médico, é muito mais do que um emprego- tenham cultivado em mim a paciência necessária para saber esperar pela mudança das pessoas e para trabalhar a própria. A idéia do não-emprego não é minha, mas de um professor, Josef Ratzinger, hoje Bento XVI, que além do mais ousa escrever sobre a esperança que nos salva. Eu, que junto os dois não-empregos –o de médico e de professor- e por tanto não tenho como mudar de vocação, justamente por não ser emprego, sou por tanto obrigado a esperar. Esperar no sentido de deixar o tempo passar – o wait dos ingleses, e esperar ativamente, com expectativa positiva, – o hope. O idioma anglo-saxão nos oferece com freqüência esta riqueza de detalhes para fazer de uma única palavra latina, um fatorial com sentidos diferentes que se complementam. Tanto assim, que os professores de medicina ensinamos os alunos que, muitas vezes, a maior sabedoria para cuidar de um paciente é observá-lo atentamente, com carinho –como faria a mãe dele- e poder entender o que realmente lhe afeta. E batizamos essa atitude com uma expressão também inglesa, extremamente plástica: watchful waiting, uma espera repleta de atenção, que espera, almeja e está pronta para intervir em benefício do doente. 

De esperança e de espera nos fala Diamantes de Sangue. Leonardo de Caprio se redime como ator, fabrica um papel sob medida que tempera em inglês com sotaque das colônias africanas, e redime a própria personagem, que também vai mudando ao longo do filme. Mais do que provocar a mudança, deixa-se mudar; é o amor que destila o seu interlocutor, Solomon Vandy, o catalisador da mudança. Solomon é um campeão do watchful waiting, e por isso sabe cuidar de cada um na medida certa. 

A guerra em Serra Leoa acrescenta às matanças africanas que tem preenchido as telas dos cinemas nestes últimos anos, a figura dos meninos soldados. Separados das famílias, aliciados na arte da guerra, desequilibrados pela violência, drogas e álcool, as crianças convertem-se em máquinas de morte. Não se lembram de nada, desgarrados das suas raízes familiares, são pequenos robôs programados para matar. Dya Vandy, o filho de Solomon é uma destas crianças e, chegado o momento, enfrenta Archer (Di Caprio) e o próprio pai. O garoto aponta a arma para o pai. Solomon, que conhece o filho –aquele que foi e que agora não é mais- aposta na redenção pelo amor, e o filme nos brinda uma das cenas mais impactantes que tenho visto nos últimos anos.

De um lado o garoto apontando a arma, disposto a disparar. De outro, o pai que se aproxima dele, e despeja toneladas de amor e de esperança. “Você é Dya, da orgulhosa tribo Mende. Tua mãe te ama muito, e te espera com tua irmã e o bebê, cozinhado bananas. As vacas esperam por você, e o cachorro Babu que somente gosta de você. Sei que te obrigaram a fazer coisas ruins, mas você é um bom menino. Eu sou teu pai, te amo, e você vai voltar para casa comigo e voltar a ser meu filho”. As lágrimas do menino juntam-se com as do pai, enquanto vão sendo lembradas as coisas e pessoas entranháveis, capazes de resgatar a identidade machucada do garoto. O pai arrisca tudo –porque ama de verdade- e reconquista o filho que estava perdido. 

Ouvi comentar a alguém que esta cena seria uma versão moderna e africana da história do filho pródigo. É verdade que em ambas as versões –tanto nesta como na bíblica- o pai toma a iniciativa, não mede esforços e afoga o filho desorientado numa cachoeira de amor. Mas também é verdade que o amor do pai não é golpe de mágica, improvisação no momento de crise. O resgate da memória –as bananas cozinhadas pela mãe, o cachorro que gosta dele- são os dividendos que o amor cultivado ao longo dos anos rende neste momento. São os depósitos de amor que, diariamente foram plantados, os que agora podem render frutos. 

Talvez por isso a cena seja impactante. Por que nos faz pensar nos depósitos que fazemos e nos dividendos que poderiam render. Pais, educadores, formadores, professores devemos nos perguntar, com coragem: o que estou investindo nas pessoas que de mim dependem? É amor, esperança, expectativa que ajuda a tirar deles o que de melhor tem, ou é apenas esmolas em forma de bônus, sejam eles carros novos, festas em Buffet infantil, ou excursões para Disney? Formamos as pessoas ou as compramos com brindes e perfumaria? Tremenda questão, que deixa qualquer um sério, quando não preocupado….porque os dividendos sempre virão: em forma de amor e dedicação, como um retorno do que se aprendeu como importante, ou em forma de brindes. Já alguém comentou que o egoísmo dos formadores –que é poupar amor e dedicação- costuma voltar na mesma moeda. E quando se oferecem esmolas ao invés de amor que constrói talvez o melhor a esperar seja um asilo….de 5 estrelas, como retorno do carro último modelo. O tempo dirá. 

Solomon Vandy é um investidor sábio que aplicou o capital certo no lugar adequado: no coração da sua família. Por isso é um otimista que espera o melhor daqueles que formou, e resgata o filho sem raízes, e o acolhe devolvendo-lhe a identidade. Quando se tem alguém do lado que nos lembra quem somos, temos mais é que agradecer, porque isso garante nossa identidade e com ela nosso futuro. Talvez seja esse o grande papel do educador: um despertador incansável. É como aquele grilo de Pinóquio, a consciência do menino de madeira. Como as pessoas não são de madeira, o grilo de que carecemos hoje, mais do que consciência seria um auxiliar da memória: da intelectual e, sobretudo, da afetiva. 

Quem conhece o mercado de aplicações do amor, não tem limites, nem há desafios que lhe façam encolher-se. Solomon carrega Archer, ferido; e está disposto e levá-lo até o final. Mas não é necessário. Archer não é mais o garoto caprichoso de Titanic, e agora a ficha dele também caiu. Foi conquistado pelo amor, pela amizade sem condições. “Pega o diamante, e leva o garoto para casa”. Solomon surpreende-se: “Pensei que você ia roubar-me o diamante”. E Archer sorri: “A verdade é que me ocorreu…” Quando o amor se impõe, não há barreiras que não consiga superar. E reconhece suas misérias, com uma sinceridade que não pode –nem quer- resistir às toneladas de honestidade que sobre ele foram despejadas. Comenta S. Covey nas suas aulas de liderança que é muito difícil estar junto de uma pessoa que se maneja por princípios e não sentir a influência positiva dessa integridade. E diante disso, as pessoas têm dois caminhos: ou saem de perto, caem fora, ou vestem a camisa. Tamanha integridade não se pode suportar de modo impassível. Uma boa dica para tentarmos fazer o mundo melhor, começando pelos que temos do nosso lado. 

Falávamos no início do Professor Ratzinger, que além de escrever sobre a esperança é talvez o maior conhecedor da obra de Santo Agostinho. “Ama e faz o que quiseres” – dizia Agostinho. Um belíssimo desafio, que implica conhecer o que seja na verdade o amor. Mas isso nos levaria longe. Ortega y Gasset aponta Agostinho como um dos homens que mais profundamente pensou sobre o amor, e que por esse motivo consegue liberar-se da interpretação vulgar que faz do amor um simples desejo ou apetite. Por isso afirma “Amor meus, pondus meus – isto é, o meu amor é o meu peso, minha densidade”. O amor é gravitação para o amado, inclinação para os outros, o peso específico de quem faz da sua vida um serviço de doação generosa. 

Esse mesmo era o amor que cantava Juan de Yepes –S. João da Cruz, de quem outro Papa, João Paulo II, muito entendia e soube imitar e conquistar o mundo com independência de credo ou etnia. “Onde não há amor –dizia o místico de Castela- coloca amor e obterás amor”. Um belíssimo conselho, verdadeiro desafio, esperança de mudança para os tempos que nos tocou viver.

Diamante de Sangue (Blood Diamond) . Diretor: Edward Zwick. Leonardo Di Caprio. Djimon Hounsou, Jennifer Connelly. 140m.

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