“Bella: O poder de fogo da família”

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 09-12-2008

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Bella (2006). Diretor: Alejando Gómez Monteverde.
Atores: Eduardo Verástegui. Tammy Blanchard, Manny Perez. 91 min

bella_2Quando me pedem a opinião sobre um filme que ainda não assisti, já sei que mais cedo ou mais tarde acabarei assistindo. É questão de tempo e oportunidade. Não consigo resistir; aliás, para ser franco, nem tento fazê-lo. Afinal, quem ergue a bandeira de que o cinema educa deve manter-se atento às novidades. 

Assim ocorreu com “Bella”. Houve perguntas e também comentários que incluíam o ator, Eduardo Verástegui, um cantor e ator mexicano que sofreu um processo de conversão espiritual e milita entre os “Pro Life”. Parece que há uma entrevista com ele, divulgada pela EWTN, a emissora da Madre Angélica, essa surpreendente freira de clausura do Alabama, que no dizer de alguns teria créditos para ser a santa padroeira dos CEOs . De fato, tive oportunidade de ler uma biografia de Mother Angélica, quando acabei me tornando seu fã incondicional – dessa mulher que alia capacidade de gestão e empreendedorismo incomuns, sob o amálgama de gigantesca personalidade espiritual. A santidade, o senso comum e a voz de comando lhe saem pelos poros. 

Isso, e saber que “Bella”, surpreendentemente, conquistou o prêmio do Festival de Toronto, fizeram-me pensar que seria um filme ortodoxo, que ofereceria soluções moralmente corretas e opções “pró vida” para a polêmica questão do aborto. Foi com essa expectativa que me sentei para contemplar os 90 minutos de filme. Mas enganei-me rotundamente. 

“Bella” é um filme sobre a família, sobre o poder de cura da família, e as feridas que não acabam de sarar quando se carece de um verdadeiro lar. Apalpa-se o realismo, a dificuldade, a miséria humana. Sente-se a dor, a dos personagens e a nossa, que entram em ressonância durante o filme. Junto com a dor, a dúvida, a ingratidão que torna tudo mais difícil, e o destino que parece querer nos afundar de vez. O sofrimento tem um nome: chama-se Nina. E a compreensão – que ouve com paciência e busca saídas – encarna-se em outro protagonista: José, homem igualmente curtido pela dor. Mas no meio de tudo isso, a família, o lugar onde somos compreendidos, onde se tenta entender o que não tem lógica, porque nos ouvem pelo coração, que acolhe as razões que a razão não consegue entender, como dizia Pascal.

Mês passado regressei de uma viagem a uma universidade da Colômbia, onde conversei com um velho amigo, médico pediatra, pai de doze filhos, professor de um instituto que promove a educação familiar e aconselha tanto as famílias que têm problemas como as que não têm… ainda. “É como medicina preventiva” – disse-me o amigo, que tem longa experiência no trato com a dor, sobretudo de uma classe de dor para a qual dificilmente temos respostas a dar: a dor das crianças. Certa vez contou-me como viu adolescentes, quase-crianças, morrerem nas terríveis guerrilhas do narcotráfico de seu pais. Falamos sobre muitas coisas, inclusive o sofrimento. Em dado momento, com um sorriso próprio de quem está revelando um segredo, afirmou: “Nós, médicos, tratamos a dor com analgésicos, damos morfina. Mas o que funciona de verdade contra a dor é a família”. Olhei-o surpreso, mas continuou: “Na família, encontramos o sentido da dor, o que propicia, paradoxalmente, a sua cicatrização”. Sem família não há cura para a dor que nos oprime”. Ora, as cenas de “Bella” me evocavam o tempo todo esses comentários de meu amigo.

Parece-me que foi Tolstoi, em “Ana Karenina”, quem disse que as famílias felizes se parecem todas entre si, enquanto as infelizes o são cada uma a seu modo. Este pensamento, juntamente com outras recentes vivências pessoais, também me vieram à mente enquanto assistia “Bella”. Meus últimos meses foram marcados por perdas importantes. Amigos perderam parentes. Eu mesmo perdi um familiar querido. Onde estão essas “famílias felizes” a que se refere Tolstoi? Serão felizes as que não têm problemas nem sofrem perdas? Do que depende, afinal, a felicidade? Será que a felicidade – a que conseguimos tocar – é apenas a ponta de um imenso iceberg, de toda uma unidade de sentimentos, vida, missão e postura diante da vida, diante do sofrimento e até da morte?

Pude testemunhar nesses meses o que são famílias unidas e presididas pela dor, e ao mesmo tempo felizes, muito felizes. O tema é profundo e o filme consegue abordá-lo com acerto. A dor vem, queiramos ou não, e a reação – talvez “ação”, que é “proativa”, como se diz ultimamente – depende da estrutura familiar que se tem por base. Razão assiste a meu amigo colombiano: “diante da dor, o que funciona é a família”. 

bellaSerão famílias especiais, essas, que conseguem manter a esperança e até a alegria diante da dor? Serão, seus membros, pessoas fora do comum, tão centrados na transcendência que o sofrimento sequer lhes abala? Evidentemente não. São, simplesmente, seres que buscam na família os recursos para se recuperarem, para se apoiarem mutuamente e se refazerem. Sabem extrair da família a fortaleza de que necessitam para digerir a dor e crescer com ela. Alguém apontava em acertada metáfora que tais famílias são como cartas de baralho: sozinhas, não param em pé, mas apoiando-se umas às outras se consegue montar um castelo. “Teus familiares não esperam encontrar em ti alguém extraordinário. Querem apenas contar contigo para poderem se apoiar em e ti, e tu neles.” A frase não é minha, mas de Miriam Weinstein, autora do livro que acabo de ler: “O surpreendente poder das refeições em família – como elas nos fazem mais inteligentes, fortes, saudáveis e felizes”. Um encanto de livro, que mais do que as refeições em família, versa sobre a própria família. A autora realiza uma extensa pesquisa e demonstra o tremendo poder de fogo – de formação educacional – das refeições em família. Por exemplo: entre os adolescentes que jantam com a família cinco ou mais vezes por semana, a incidência de drogas e alcoolismo diminui sensivelmente, acima dos 40%, resultado mais expressivo que o referente ao nível de notas escolares, ou até mesmo à freqüência a grupos religiosos. Recolhe também uma pesquisa realizada em Harvard segundo a qual, na fase de alfabetização, as crianças que alcançam melhor aproveitamento são as que almoçam mais vezes com a família, porque acabam adquirindo um vocabulário muito mais amplo que as demais. Não porque tenham lido mais que as outras, mas porque ouvem os adultos conversarem à mesa. E com não pequena surpresa, a pesquisadora vem a descobrir que há lares onde não há sala de jantar, outros sequer mesa para refeições em família. Não admira que justamente nesses lares verificou-se maior incidência de anorexias e transtornos alimentares.

Vivemos na era do fast-food, do self-service, do delivery, em que parece não haver tempo para detalhes como almoçar em família e conversar. A refeição virou apenas “alimentação”, “nutrição”, e não por acaso, em nossos centros comerciais, a área reservada aos restaurantes costuma se chamar “praça de alimentação”. Pode-se comer de tudo, bastante, rapidamente, mas dificilmente se pode conversar, “perder” tempo, praticar a liturgia das refeições que nos educa no esperar, no escutar, no conviver, nos verdadeiros ritmos da alma. No dizer de Weinstein, parafraseando Epicuro: “Antes de pensar no que comer, bom seria pensar com quem vamos comer. Comer sozinhos é próprio de leões e de lobos”. 

A autora acerta em cheio, porque o valor que está em jogo não é apenas o estilo fast-food das refeições, mas a própria família. Hoje, há quem queira obter o título de “família” para justificar qualquer tipo de relacionamento. É como quem quer comprar uma comenda ou um título nobiliário. Alguns se assustam com essas perspectivas aberrantes. Eu, porém, confesso que não perco o sono, pois acho que o horizonte acabará se desanuviando. Será como a purificação do ouro. O fogo se encarregará de separar da escória o que tem valor. A dor chegará algum dia, inevitavelmente, e sob sua luz ficará evidente quem é de verdade família e quem comprou esse “título” para usá-lo como enfeite.

Weinstein – que se apóia na tradição judaica – encerra seu estudo com a história de um sábio Rabino do século XVII. Sempre que os judeus eram ameaçados, este bom homem ia até o bosque, acendia uma fogueira, fazia uma prece, e Deus lhe atendia. Morreu o mestre, e um de seus discípulos seguiu o seu exemplo nos momentos de crise. Ele não sabia como acender o fogo, mas lembrava-se da prece. O milagre acontecia igualmente. Morreu também este, e seu sucessor também se esqueceu da oração. Mas, mesmo assim, ia ao bosque e dizia: “Não sei como acender o fogo, nem mesmo lembro-me da prece, mas pelo menos sei para onde devo ir em momentos como esses”. 

Nestes tempos em que tantos desaprenderam a rezar e a acender fogueiras, nós, que pelo menos nos sentimos “família”, sabemos para onde ir nos momentos de dor: ao nosso lar! É na família onde tudo tem conserto, onde nos sobrepomos à dor, onde reconquistamos a esperança de viver.

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  • Regina Shintani

    Interessante essa linha de análise! Diferente das outras que tenho lido a respeito do filme…!

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