Etty Hillesum. “Una vida conmocionada” – Record, 1981, 260 pgs.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 04-01-2010

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A Tertúlia Literária mensal, brinda-me a oportunidade de voltar sobre um livro especial, que me impactou no seu dia. Trata-se do Diário de Etty Hillesum, uma intelectual judia holandesa, no período de 1941-1943. A autora acabou sendo deportada para os campos de concentração onde morreu.

O diário é uma avalanche de sentimentos, percepções, sonhos, desejos, procura sincera de Deus, misturada com uma vida nem sempre exemplar. Chama a atenção este estilo místico-humano, certamente sincero, de alguém que não tinha uma religiosidade explícita, que se envolvia com amantes, mas que parecia buscar com paixão um sentido para a sua vida. “A finalidade da meditação deve ser converter-se por dentro numa grande planície, sem matos que impeçam a visão. Tudo isso para que cresça algo de Deus dentro de nós mesmos”.

Uma vida que considera sempre maravilhosa, e na qual entende ser sua função a de servir e doar-se aos outros, e que não tem o direito de escapar daquilo que o seu povo sofreu. “Não se pode dominar tudo com o cérebro, também é preciso deixar fluir um pouco a fonte dos sentimentos e da intuição. O conhecimento é poder, eu sei. Talvez por isso ambicione sabedoria, por esse desejo de me impor. Não o sei ao certo. Senhor, dá-me antes sabedoria do que conhecimento; aquele conhecimento que leva a sabedoria e que faz com que pessoas como eu sejamos felizes”.

Vale lembrar que é uma judia quem escreve, e que entreve qual será o seu fim. Mesmo assim não culpa o sistema, nem a vida, nem mesmo a crueldade dos outros. Somo cada um de nós os que temos de encontrar o modo de fazer o mundo melhor, transformando-nos nós mesmos: “Não vejo outra solução a não ser adentrar-se em nós mesmos e exterminar toda esta corrupção. Não creio que possamos melhorar em algo o mundo exterior, enquanto não melhoremos primeiro nosso interior. Esta me parece a grande lição desta guerra. Que tenhamos aprendido a buscar o mal dentro de nós, e não em nenhuma outra parte (…). Não sinto saudades; estou em casa. Isso o aprendi naqueles dias. Estamos em casa. Sob o céu estamos em casa. Estamos em casa em cada lugar do mundo, sempre que nos levemos a nós mesmos por inteiro”

Reflexão interior, busca de aprimoramento, ao invés de queixar-se e espalhar as reclamações aos quatro ventos. Essa foi uma das grandes conclusões do nosso debate filosófico, na tertúlia literária. A segunda conclusão, segue-se como facilitadora da primeira: para refletir, além de calar e cultivar o silêncio, é preciso escrever. “Não sou capaz de superar isto sozinha? Todo o mundo tem de saber o que acontece, é certo; mas também é preciso tratar bem aos outros e não os carregar constantemente com coisas que podem se suportar perfeitamente na solidão. Faz alguns dias pensei: o pior para mim será quando me tirem o papel e o lápis e não possa conseguir nem um pouco de clareza, que é para mim o mais importante”. Daí arranca a necessidade vital de escrever um diário: refletir, entender e entender-se a uno mesmo. Escrever, vencendo a preguiça, ao invés de quere contar sensações o tempo todo, que acabam onerando os outros, e nada resolvem. Como alguém comentou: São precisos mais diários e menos post no facebook, que dispensam de qualquer reflexão, pelo fato de tornarem-se públicos. Nada fica, é como água sobre as pedras.

E quando se reflete e se agradece a vida, mesmo repleta de contrariedades e durezas, é possível atuar como ponte e união com os outros homens. “Os caminhos reais de união, de pessoa a pessoa, existem neste mundo brutalmente desordenado, só interiormente. Exteriormente estamos fragmentados e os caminhos que vão de um ao outro estão sepultados sob os escombros, o que torna difícil encontrá-lo. Somente no interior é possível um contato ininterrupto e uma convivência conjunta”.

Uma união e compreensão que reclama a presença de Deus, como fonte de amor. “O único gesto decente que nos resta hoje em dia: ajoelhar-nos diante de Deus”. É por tanto natural a referência a Santo Agostinho, aquele campeão do amor, o temperamento mais erótico que já existiu no dizer de Ortega, que afirmava amor meus et pondus meus, meu amor é o meu peso, a minha medida, o norte que me guia. “Vou ler de novo Santo Agostinho. É tão severo e fervoroso. Tão apaixonado e cheio de entrega nas suas cartas de amor a Deus. Na realidade estas são as únicas cartas de amor que a gente deveria escrever: cartas de amor a Deus. Seria soberba demais afirmar que tenho amor demais dentro de mim como para dá-lo apenas a uma pessoa”

Há certas semelhanças com o estilo de Edith Stein, embora Hillesum explore mais o psicologismo do que a filosofia ou a teologia. Um livro que pode ser útil para entender as profundidades que alberga o ser humano, e as tremendas capacidades de melhora e de conversão que nele se encerram. Tudo isso, visto e escrito de um modo tremendamente feminino.

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