David Gilmour: “O Clube do Filme”. Intrínseca. Rio de Janeiro, 2009. 234 pgs.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 16-02-2010

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21547890_41Um escritor, culto, conhecedor de cinema e com traços de anti-herói se defronta com o filho adolescente, que é um verdadeiro desastre no colégio. Surge a proposta: se não queres ir à escola, tudo bem; sempre que te mantenhas longe das drogas, e assistas três filmes por semana comigo. Um belo desafio, que não sabe onde vai dar.  Será que sou capaz de formar meu filho -pergunta-se o autor- prepará-lo para a vida? Eu mesmo, que estou desempregado formalmente –um bico aqui, outro lá-, com roteiros de documentários, programas de TV decadentes, escrevendo o que ninguém lê? Será que sou capaz? Assim começa o clube do filme, que da origem ao livro.
    O livro é o diário do clube do filme, onde as sessões de cinema no mano-a-mano se mesclam com diálogos, reflexões, tentativas de tirar o jovem do fundo do poço: nos estudos, nas decepções amorosas, na perspectiva do mundo e da vida que tem por diante. Os filmes detonam reflexão, se não de imediato, sim em forma de bomba relógio. Tem pegada. Todos eles. Talvez mais do que os filmes, é a paixão do pai pelo cinema –afinal, ele coloca os filmes dele, os que lhe tocaram, aqueles que guarda na memória e no coração- e os bastidores de cada filme, dos diretores e atores, que conhece como todo cinéfilo, e faz questão de contar a modo de aperitivo para o filho. “Eu volto aos filmes antigos não apenas para revê-los, mas também com a esperança de reviver as sensações de quando os vi pela primeira vez (Isso não se aplica apenas aos filmes, mas a tudo na vida)”.    
     Um livro peculiar que mostra, mais uma vez, que é possível utilizar o cinema para educar as pessoas. Não de um modo formal, em conteúdos, mas certamente abre caminho para abordar as atitudes, que são a base de qualquer educação. As questões que o cinema levanta – um modo plástico de entender a vida- teriam ficado ocultas a não ser por este curioso e arriscado modo de ensinar. O leitor poderá ter diferenças –talvez muitas- com os critérios educacionais do autor, discordará dos valores que se ventilam. Mas, vai aqui o meu conselho: faça uma abstração da normativa moral e fique com o método. E aplique-o: se surpreenderá vendo a quantidade de assuntos que surgem no vácuo de um filme, de uma cena. É o que os educadores denominam curriculum oculto: algo ao qual não prestamos atenção, porque não sabemos como lidar com ele. Está na hora de começar.

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David Gilmour: “O Clube do Filme”. Intrínseca. Rio de Janeiro, 2009. 234 pgs., 4.0 out of 5 based on 1 rating