AVATAR: Estética em 3D, liderança e valores em 4D.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 17-02-2010

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    Com um globo de ouro na mão, esperando a festa do Oscar como grande favorito, e tendo batido recorde de público e de arrecadação, é possível acrescentar algo diferente ao muito já falado sobre Avatar? Essa deve ser a pergunte do leitor – se é que alguém se aventura a ler estas linhas a não ser por cortesia com um aprendiz de crítico- e a minha própria pergunta. Felizmente, o cinema acode em nossa ajuda enquanto evoco as palavras de Massimo Troisi, naquele filme encantador “O Carteiro e o Poeta”. Neruda recrimina o jovem carteiro de ter plagiado seus versos para compor uma poesia à mulher que ama. O carteiro se defende: “A poesia, Don Pablo, não é de quem a faz, mas de quem precisa dela”. Não é possível dizer de modo mais simples, algo tão profundo; e liquidar definitivamente o tema dos direitos autorais da arte, ou melhor, dos inúmeros significados que a arte encerra, e que cada um toma como mais lhe convém. As múltiples “exegeses” que têm sido elaboradas a propósito de Avatar são um exemplo da versatilidade da arte. Sinto-me, pois, no direito, de acrescentar mais uma à longa lista. Não será a melhor, nem a definitiva; será, apenas, aquela porção de poesia da qual eu preciso nestes momentos.

    Uma experiência estética em três dimensões. Eis o comentário com o qual todos nos temos deparado, como um refrão que acompanha o filme. Algo quase análogo ao lema anexo nos filmes 007: ao serviço da sua Majestade; ou, melhor ainda, na mesma apresentação do agente britânico: “Bond, James Bond”. Sem ir mais longe, revejo agora a lista de filmes que uma colega de turma, – amante do cinema e com clara inclinação para filmes intelectuais-, envia sempre no final do ano. Lá está Avatar presente, sem que falte uma anotação, entre parêntesis, que quase parece um pedido de desculpas: “como experiência visual”. Os óculos 3D que nos permitem ver além da tela plana e revelam a natureza plástica do mundo azul de James Cameron (outra frase comum) permitem, de fato, um repouso estético confortante. É bonito, é realmente belo, estimula à contemplação. Dizem os educadores que o humanismo começa pela contemplação da natureza, por ser capaz de olhar e admirar-se, sem presa, com sossego. Essa atitude nos faz mergulhar na condição de criatura – surge a pergunta chave: quem fez tudo isto? Não fui eu, e não parece depender de mim! E cria em nos a disposição para olhar do lado, para ver os outros homens.

    O caos que respiramos, presidido pela ditadura do egoísmo – aquele clássico: sálve-se quem puder, vou é cuidar da minha vida- deve ser também devido, ao menos em parte, à falta de tempo para freqüentar a natureza, para contemplá-la. Esquecemos dela, por falta de visitá-la; esquecemos, depois, dos outros seres humanos que requerem mais atenção do que a cândida natureza, pois são interativos e, alem do mais, tem opiniões diferentes das nossas. Convergimos para nós mesmos, para as nossas vísceras, secreções e sensações (sobre as quais, dito seja de passagem, também não temos controle). E assim nos desumanizamos. Apalpamos essa carência –afinal, nosso sistema operacional não foi formatado para isso- e saímos no desespero procurando livros de auto-ajuda, cursos de humanização, terapia de apóio. E até vamos ao cinema, para sentir experiências estéticas. Em 3 D, de preferência. Será esse o sucesso de Avatar? Um sonho de quase 3 horas, que nos alivia da miséria diária à qual somos obrigados a voltar, uma vez devolvidos os óculos 3D? Uma variante do “ópio do povo”, como denominava Karl Marx ao sentimento religioso? Cheguei a divertir-me imaginando o que o velho Marx diria de Avatar. Mas é injusto mexer com quem não pode defender-se; até porque haverá quem, na constelação de opiniões sobre o filme, tenha interpretado o mundo de Pandora como a perfeita síntese histórica da humanidade, sem classes, sem luta, em perfeita harmonia.

    O que não faltam são opiniões, interpretações, leituras e releituras da obra de Cameron. Um desagravo à ecologia, dizem alguns, necessário nestes tempos onde o homem destrói a natureza, provoca crimes ambientais e a natureza se vinga com catástrofes e se cobra as vítimas como tributo pela ofensa. Também escutei algum crítico de cinema que evocava a conquista do velho oeste, com os caubóis liquidando tribos inteiras de índios. Houve quem arriscou uma opinião antropológica e disse que James Cameron é um misantropo que, definitivamente, desespera da condição humana. Aquela mesma humanidade que ele faz naufragar em Titanic e que agora mostra irracional e enraivecida, obcecada em acabar com a ameaça que representa a simplicidade ingênua dos habitantes de Pandora.

    Opiniões não se discutem, e como estas deve haver mais algumas dúzias de apreciações. Eu também tropecei com as minhas próprias, enquanto assistia Avatar. E lá, embalado pelo mundo azul, e pelo vôo majestoso das águias pré-históricas, as lembranças das aulas de filosofia que tive no colégio se apinhavam na minha mente, sem ordem. Todos são puros e bons em Pandora, como o bom selvagem de Rousseau. E, logo depois, o filósofo cuja foto estava na página seguinte do livro: Thomas Hobbes. “O homem é um lobo para o homem” – dizia. Como os humanos que querem aniquilar os bons selvagens. Será que Avatar é uma versão cósmica do “Contrato Social”? Não creio que tenha apontado tão longe, pensei. Mas mesmo entre os lobos, tem quem preste, alguém que sabe sonhar, que vai além da humanidade massificada – o homem massa que Ortega critica, um maria-vai-com-as-outras, carente de identidade própria. Agora é Titanic, o naufrágio, o que acode à minha mente. Vejo as pessoas fugindo, tentando comprar a preço de ouro uma vaga no bote salva-vidas, enquanto os sonhadores –o quarteto de músicos- tocam um minueto. “Senhores, foi um privilégio tocar com vocês nesta noite”. É a melhor cena desse filme onde pouco se aproveita.

    E depois, nessa encantadora mistura de lembranças, conhecimentos, sensações parece-me ver Hernán Cortés, agrupando as tribos indígenas oprimidas pelos astecas, emprestando-lhes a liderança da qual careciam, para fazer deles um exército único e conquistar a cidade sagrada, Tenochtitlán. Cortés representava para os astecas Quetzalcoatl, a serpente emplumada, que segundo a lenda deveria regressar um dia. Aqui não temos serpentes, mas um espécime selvagem da ave- uma combinação de águia com pterodáctilo- que poucos conseguiram cavalgar. Cortés, com 450 homens, 16 cavalos e milhares de índios unificados sob a sua bandeira, arrebata a cidade do México das mãos de Montezuma. Impossível não ter isso presente durante as batalhas dos Na’vi contra os humanos malvados. As descrições que li, anos atrás, na maravilhosa biografia de Cortés escrita por Salvador de Madariaga, cobravam vida junto com os fotogramas do filme.

    A experiência estética para a qual tinha me preparado –um relax não faz mal a ninguém, pensei- enveredava neste ponto por uma trilha diferente. Filósofos que não tinham sido convidados –nem usavam óculos 3D- personagens da história, tomavam parte na animada conversa que decorria na minha mente. E alguma outra coisa emergindo, cada vez que contemplava a obstinação de Jake Sully querendo voltar uma vez e outra para o sonho cibernético, e dar vida ao seu Avatar. De repente caiu a ficha: ai está, é a liderança de um paraplégico. Ele é quem comando o espetáculo. Um novo Cortés, também sem recursos próprios, mas que se permite sonhar. E os sonhos o transfiguram, o tornam invencível, como David frente a Golias, superando suas deficiências, para liderar os que, tendo boa vontade, não sabiam como enfrentar o inimigo. Essa é a força que me conquistou a mim também, carimbou a minha alma e, mais uma vez, o que começou como puro lazer decantou em reflexão, plasmou-se nestas linhas. A liderança de um incapacitado, o poder transformador da consciência de missão, a absoluta necessidade que um líder tem de permitir-se sonhar.

    O sonho, a loucura, sem ela o que é o homem mais do que uma besta sadia, um cadáver adiado que procria? São os versos que Fernando Pessoa dedica na sua Mensagem ao Rei D. Sebastião. E a figura do visionário monarca português desaparecendo entre os seus inimigos na batalha de Alcácer-Quibir, mistura-se com o esforço, suor e sangue, de Jake Sully que insiste em fazer do seu sonho, a realidade que construirá um mundo melhor. O paraplégico que tinha sido incorporado ao projeto por tabela –por possuir uma genética apta para a transferência- aprende a amar o seu papel, descobre dentro dele a força que dá vida aos sonhos, surge como um gigante no comando da liderança. É a força do amor por aquilo que se faz, como também Tom Cruise aprendeu a amar a vida dos Samurais, e não sabe mais viver sem ela. A batalha final de “O Ultimo Samurai” –liderança além da morte- veio tumultuar ainda mais as minhas reflexões que, nessa altura, estavam muito além do 3D e da experiência estética. Surpreendi-me numa outra dimensão, talvez uma quarta? Seja como for é uma dimensão interior, que corre parelha à alma.

    Liderança: eis a bola da vez. Cursos de liderança, técnicas de comando; liderança pessoal, na equipe, corporativa. Um variado cardápio que nos é oferecido nas vitrines dos shoppings da liderança. O sorriso do manequim –o líder bem sucedido, enfiado num terno Armani, provavelmente comprado a prazos- nos olha de perfil, e nos convida a ser um triunfador. Na sua mão brilham as variadas opções de cursos para, sem grandes esforços, transformar-se num líder moderno. Lá estão as técnicas, as discussões, aulas e seminários – em inglês, naturalmente – incrementados com apetitosas apresentações em Power Point, e as recomendações bibliográficas dos gurus de hoje –também em inglês- pessoas que souberam ver o que ninguém viu antes deles existirem. O que seria de nós sem os gurus? Como é que conseguimos sobreviver até agora? Como é possível que hajam existido heróis, santos, figuras relevantes que chegaram lá sem fazer um curso de liderança? A pergunta fica sem resposta porque já deu o horário e o nosso manequim afrouxa a gravata, prepara-se para o happy hour, e além do mais, essas questões complicadas não constam no seu conteúdo programático.

    Pior do que admitir a mediocridade na qual se vive, é disfarçá-la com a maquiagem confortável do super-executivo moderno que se prepara para ser um triunfador. Tudo está previsto, no seu plano de carreira que possui, para ninguém duvidar, um coaching apropriado. A estratégia da vitória está traçada. Somente faltam…. os sonhos, e a capacidade de sofrer por eles. Produzem-se por atacado o que denominam líderes. Isso me faz lembrar e muito, a política de alguns bancos, onde os empregados, quase todos, são “vice-presidentes”, mesmo que trabalhem na boca do caixa. Basta colocar a palavra chave no cartão de visita para que o ego fique satisfeito, e a mediocridade seja homologada. São lideres sem sonhos, ou pior, com medo de sonhar, porque vai ver que não conseguem realizar seus próprios sonhos. Daí melhor não tê-los, e partir para a técnica. São as armas modernas, os robôs bélicos que invadem Pandora – ninguém nunca nos parou, como o Titanic, que nem Deus conseguiria afundar.

    A verdadeira liderança é sofrida, arrisca a vida, porque a vida sem missão não tem sabor. Jake Sully sabe disso e, na sua indigência, sabe que o caminho não tem volta e joga tudo numa cartada só. Queima as naves, como Cortés, para que não haja possibilidade de caminho de volta – aquele elegante eufemismo que denominam “transição de carreira”, quando o bicho pega, e disfarçam a desistência com uma saída pseudo-honrosa. A verdadeira liderança não admite botes salva-vidas, como no Titanic, onde a gente consegue se esgueirar caso o cenário pegue fogo. Afinal, liderança sim, mas ninguém é de ferro cochicham entre eles, com vergonha. Liderança e missão se confundem, liderança é a vida mesma, a capacidade de comprometer-se. Como dizia Unamuno na sua Vida de D. Quixote e Sancho, é saber casar-se com uma idéia e ter família com ela, não apenas enamorar-se sensualmente das idéias, tomando-as como amantes de uma noite. Liderança é ter envergadura para permitir-se sonhar sem medo, sabendo que os sonhos –como acontece com Jake- permitirão superar nossas deficiências e limitações, na busca real da excelência. Um líder sem sonhos é uma caricatura que contribui a desgastar o termo que, nesta altura, já está bastante desbotado.

    Essas são, em tumulto de idéias, minhas descobertas em Avatar. Respeito as opiniões dos outros, as interpretações naturalistas, tingidas de espiritualidade do Bon sauvage de Rousseau. Eu não sou verde, nem ambientalista, nem nirvanesco, nem vegetariano. Gosto de picanha, do bom vinho, do presunto cru. Gosto das coisas boas que o homem fabrica, e odeio todas as versões do fast-food, com sabor de plástico, como a alma de muitos. Detesto as “praças de alimentação”, onde as pessoas se nutrem, mas não falam, porque não tem assunto e quando o tem, o barulho é tanto que se desiste com facilidade. Gosto da cantina com toalha xadrez, e de gastar tempo falando à volta da mesa, pensando e sonhando porque me sinto convocado a colaborar para fazer desse mundo nosso um lugar melhor para todos. Ai começa a liderança eficaz: em permitir-se sonhar sem medo. E para isso, não bastam os óculos 3D; precisamos de uma nova dimensão, interior, que arranca da alma. As lentes que nos permitem visualizar essa grandeza não estão disponíveis nos cursos de liderança, nem são emprestáveis na entrada do cinema. Está na hora de cada um pensar como vai fabricar a sua. Com esforço, a golpe de sonhos. Haverá sangue e lágrimas, e também um bom vinho e uma conversa sublime. Como em Titanic: “De fato, foi um prazer sonhar com vocês nesta noite”

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AVATAR: Estética em 3D, liderança e valores em 4D., 4.2 out of 5 based on 13 ratings
  • nelson morais

    muito bom gostei
    Abç

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  • nelson morais

    muito bom gostei
    Abç

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  • Vilberto

    Estou progressivamente explorando o seu Blog, e me inteirando de suas idéias, pois lhe conheci no Fórum de Ética Médica do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina neste ano. Você lembra de mim, apesar de não ter me dirigido à você, estava de chapéu preto, e conversei com o Roberto ex-presidente do CFM, minutos antes de sua belíssima apresentação. Me desculpe por não lhe ter cumprimentado naquela ocasião…me faltou o humanismo naquele momento…estava focado em lisongear o trabalho do Roberto no CFM, pois sou fã dele, e agora, sou seu fã também…Parabéns pelas reflexões acima;me fizeram pensar bastante e refletir muito também. Abraço! Vilberto

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