Perfis da Espanha: Andanças culturais a propósito de um Congresso Internacional – Parte 4 de 4

Arquivado em (Artigos) por Pablo González Blasco em 09-12-2010

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13 – 15 de Outubro: Outras andanças espanholas.

Em Salamanca fazia frio naquela noite. O hotel, situado próximo do centro velho, facilitou a tentação de ir jantar na Praça Maior, verdadeira jóia arquitetônica. A hora era avançada, as ruas poucos transitadas, mas os monumentos iluminados –sempre efeitos luminosos muito bem conseguidos- nos deram as boas vindas, de modo aconchegante. Na Praça Maior, numa taverna, acabamos o dia na frente de uma tábua de Ibéricos (qualidade muito superior, os produtos ibéricos de Salamanca) acompanhados de uma garrafa de Ribeira del Duero, um ótimo vinho da região.

Na manhã seguinte regressamos à Praça Maior e, percorremos todos os medalhões que estão situados junto das arcadas, o que nos proporcionou uma viagem de mais de uma hora pela história de Espanha. Lá se encontram os reis – da casa de Áustria, de Bourbon-, os conquistadores e generais –Cortés, Pizarro, El Gran Capitán- os intelectuais –Unamuno, Santa Teresa- e muitas outras figuras que ilustraram nosso passeio histórico que acabou com um café na própria praça.

Dirigimo-nos até a Universidade, uma das três primeiras universidades européias fundada no século XIII. Contemplamos a famosa fachada da Universidade, que albergou intelectuais importantíssimos da cultura espanhola, como Miguel de Unamuno (que foi reitor) e Fray Luis de León, cuja estátua está de frente à fachada. Foi Fray Luis quem, depois de permanecer um bom período preso pela inquisição, quando liberado regressou ao claustro acadêmico para reiniciar suas aulas. Todos os alunos esperavam comentários e crítica sobre a sua prisão, mas o insigne professor iniciou a sua aula com a célebre frase: “Como dizíamos ontem….” e continuou como se nada tivesse acontecido nem interrompido sua tarefa docente.
Do outro lado da Universidade se encontra a Catedral de Salamanca, na verdade, as duas Catedrais: a velha, de estilo românico, e a nova, do século XVI, em estilo gótico, que se juntam num pátio, formando um cenário encantador.

A Casa de las Conchas, outro emblema da cidade, construída a finais do século XV, na época de Isabel a Católica, em estilo gótico, plateresco, e com elementos mudéjares. Hoje funciona como biblioteca. No pátio interior, tendo como fundo a Igreja dos Jesuítas, a Clerecía, é difícil superar a tentação de fazer uma foto em perspectiva quando situados nos balcões superiores.

Nossa viagem desse dia, 13 de Outubro, tinha como destino Oviedo, capital de Astúrias, de modo que não foi possível demorar-se mais em Salamanca, e saímos rumo a Leon, antiga capital do reino que tinha o mesmo nome.

Em León, nos dirigimos diretamente até a Catedral, almoçamos na frente dela, e nos deliciamos contemplando o estilo gótico francês, ainda sóbrio de formas, e imponente nos seus vitrais. Quando tivemos oportunidade de entrar depois, comprovamos o que muitos espanhóis comentam: são os vitrais da Catedral de León dos mais bonitos de toda Espanha. Se o estilo gótico é superado em audácia por outras catedrais, a iluminação conseguida com os vitrais é fora de série. E com esta magnífica visão multicolorida saímos rumo a Oviedo.

O caminho até a capital de Astúrias se pode realizar por autopistas ou por estradas vizinhais. Escolhemos estas últimas porque nos proporcionariam melhores vistas da paisagem. A subida do porto de montanha de Pajares cruza as montanhas que separam Asturias de meseta castelhana, e a paisagem –rude, seca- muda completamente fazendo-se verde, úmida, e as casas e vilas salpicam as colinas que nos anunciam uma nova cultura: a Asturiana.

Chegamos a Oviedo, nos instalamos no hotel e saímos em direção a um restaurante –uma sidreria- para jantar um menu típico asturiano. A sidrería em questão chamava-se Terra Astur, e lá nos deliciamos vendo escanciar a sidra (jogar do alto), e não somente vendo mas experimentando, acompanhada de queijos da região, e da famosa fabada asturiana (uma espécie da feijoada daquela região. Foi uma noite memorável.

No dia seguinte, partimos para Covadonga, um Santuário situado nas montanhas da Astúrias, onde começou a reconquista. Foi lá, nas montanhas de Covadonga onde D. Pelayo, rei visigodo, no ano 722 conseguiu derrotar por primeira vez as tropas árabes que, tendo invadido a península em 711, ocuparam-na em pouco tempo chegando até o norte da Espanha. O túmulo de D. Pelayo se conserva na Santa Cova, dedicada à Nossa Senhora de Covadonga, a quem se atribui também a vitória contra os árabes que estavam em superioridade numérica e tática. Visitamos e assistimos a Missa na Basílica de Covadonga situada num cenário maravilhoso, cercada de montanhas. Do lado da basílica, uma grande estátua de Pelayo lembra o feito que, na opinião de alguns historiadores, foi a origem da nação espanhola.

Saímos de Covadonga passamos na cidade mais próxima, Cangas de Onis, onde compramos alguns queijos da região que, acompanhados de vinho, foram nosso almoço especial desse dia, antes de iniciar o retorno que teria como destino Burgos e, à noite, Valladolid, aonde tínhamos reservado hotel.

Não descemos do norte da Espanha pelas autovias, mas sim pelas estradas secundárias, o que nos permitiu contemplar a paisagem única do Parque Nacional dos Picos de Europa, as montanhas que separam Astúrias de Leon, numa passagem diferente da que utilizamos na hora de subir até Astúrias. Iniciamos a viagem por uma estrada que contornava as montanhas, verdadeiro desfiladeiro entre os cumes, com o rio Sella no fundo do vale acompanhando nosso percurso. Paramos o carro várias vezes para fotografar a extasiante paisagem e, em certa ocasião, vimos algumas cabras na montanha, do outro lado do rio, em seu hábitat natural. Vivemos momentos inesquecíveis, rodeados pela natureza rochosa e selvagem do maciço central da Cordilheira Cantábrica, que separa Asturias da região central da península. Um percurso necessário a ser incorporado em quem se aventura por essas latitudes.

No final da tarde, chegamos a Burgos, e nos dirigimos à Catedral que já estava fechada e não pudemos visitá-la. Mesmo assim, contemplamos por fora a beleza do que talvez seja o gótico mais estilizado das catedrais espanholas. Um verdadeiro cartão postal destas andanças. Teríamos permanecido em Burgos, caso tivéssemos reservado o hotel nessa cidade, o que deve ser feito numa próxima ocasião. Desta vez, tivemos de sair rumo a Valladolid onde nos esperava a reserva do hotel.

Chegamos a Valladolid já de noite e, após instalar-nos no hotel, fomos jantar numa taverna próxima, jantar que acompanhamos com uma garrafa de vinho de Ribeira del Duero, original da região, e que goza de ampla fama como todo vinho de Valladolid.

Na manhã seguinte, visitamos alguns pontos do centro da cidade antiga de Valladolid –nosso hotel estava situado num barro fora do centro- tomamos um café na Praça Maior, que também possui o estilo clássico das praças castelhanas, e compramos uns doces típicos numa confeiteira famosa.

Saímos para Madrid, aonde chegamos no início da tarde, e ainda tivemos tempo de almoçar com calma, antes de ir até o aeroporto para devolver o carro alugado e esperar o horário do nosso vôo.

São estes alguns traços rápidos, rascunhos da memória, destas andanças espanholas a propósito de um congresso. São, talvez, um índice a modo de menu, para outras viagens próximas onde será preciso dar seguimento aos desdobramentos que este índice nos sugere. Mas ficam aqui estas anotações para que, relendo-as os que tivemos a sorte de participar das andanças, possamos revivê-las na nossa mente e no coração, obtendo assim o bom sabor de boca que acompanha os diálogos com a história, a nutrição da cultura humanística da qual tanto precisamos para nosso quotidiano viver. Ortega estava certo; por vezes, é preciso ler menos e viajar mais, com espírito aberto, em diálogo com as paisagens e as culturas que o mundo te apresenta.

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