O Discurso do Rei: O Bom Gosto feito Cinema

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 24-02-2011

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The King’s Speech. Diretor: Tom Hooper. Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Timothy Spall. 118 min.

     Estamos às portas do Oscar. Rascunho estas linhas no contrarrelógio para antecipar-me ao desfile do tapete vermelho. Não porque queira arriscar nenhum palpite, pois afinal o meu voto –que ninguém leva em consideração na academia de Hollywood- já está concedido. Eu também não ligo grande coisa para a academia, de modo que estamos quites. A motivação que me induz a escrever é outra, ou melhor, várias.

     A primeira é -como tantas vezes fiz notar nos meus comentários cinematográficos- de índole familiar. Encontrei com um dos meus irmãos no começo de Janeiro. O Discurso do Rei estreou na Europa um mês antes do que no Brasil. “É do melhor que vi nos últimos anos”. Foram suas palavras, sem maiores explicações. Nem descrição de cenas, nem de diálogos, nem do desempenho dos atores. Talvez por isto, a frase me impactou. No âmbito familiar, condecorar um filme como definitivo –’o melhor dos últimos tempos’ é uma frase muito forte- sempre impôs respeito. E o gesto com que ele pronunciou a sentença, assemelhava-se ao do meu pai quando falava de Casablanca, ou minha mãe lembrando A Felicidade não se compra; ou mesmo o meu avô, quando discorria sobre Gary Cooper ou Betty Davis. Não adiantava perguntar por quê. O jeito era ver o filme e tirar as próprias consequências. E foi isso que fiz, numa sessão particular, com alguns amigos. Até agora não sei o que mais me marcou: se o filme, as reações de satisfação que pude observar nos que me acompanhavam, ou um maravilhoso bom sabor de boca que perdurou até a segunda vez que o vi, já no Brasil.

     Esta segunda sessão foi no ambiente profissional, inserida no projeto Cultura para Todos, inaugurando uma série de encontros que conviemos em denominar: Grandes Momentos do Cinema. Pude então degustar as cenas com tranquilidade, apreciá-las sem pressa, ponderar os detalhes; os mesmos que buscamos numa obra de arte que, de cara, nos agrada imensamente. A arte nos compraz, não sabemos por quê; e, imbuídos desse clima de bem estar, vamos desentocar os motivos desse efeito confortante, para o corpo e para o espirito. Com o cinema acontece o mesmo. E garimpando detalhes e motivos, decidi recompilar minhas impressões, às pressas, para chegar antes do Oscar e não deixar que as notícias das premiações, que nos cercarão na próxima semana, embacem esse amor à primeira vista –coup de foudre, raio fulminante- que provocou este filme magnífico.


     Este espaço onde escrevemos, pretende ser um fórum de discussão dos valores que nos chegam através do cinema, valores que provocam reflexão e construção pessoal para a vida, iluminada pela arte. Mas é também um canto de amor ao bom cinema. Por isso, devemos celebrar que, vez por outra, nos surpreendam com um filme como este. Um exemplo de bom gosto, do começo ao fim. De superação. De ajuda e confiança De lealdade e compromisso. Mas também um exemplo de bom cinema, de Cinema com maiúscula. Tive dúvidas –que, por sinal, continuam- de se conviria comentar o filme, através dos filtros que usualmente aplico: valores, liderança, dimensão de virtudes humanas. Tudo isso está lá, sem dúvida. Mas o que é preciso destacar é a qualidade do filme, uma produção que permite resgatar a esperança de que o bom cinema não morreu.

     Apliquei a estratégia várias vezes neste curto tempo desde a estreia, recomendando-o a alguns dos meus pacientes e amigos. Muitos deles são pessoas de idade, que tem saudades do cinema clássico e dizem que hoje não se faz mais nada que preste. “Pode ir tranquilo, e sairá do cinema reconfortado, com a sensação de ter aproveitado o tempo, e com a esperança de que sim, é possível produzir bom Cinema”. Fellini, já nos estertores da sua vida; gritava que o romantismo não tinha morrido. O bom cinema continua vivo. Este filme é um exemplo.

     Uma história real, muito elegante, muito britânica. Á morte do rei Jorge V, corresponde a David, o filho mais velho, Príncipe de Gales, assumir o trono. Mas uma mulher se coloca entre o novo rei e o Império Britânico, complicando a sucessão natural. Wallis Simpson, uma americana divorciada, já tinha conquistado o coração do jovem herdeiro que agora se transforma em rei. Tal casamento não poderá ser aceito pela constituição britânica. Eduardo VIII, entendendo que não conseguiria cumprir os seus deveres como soberano sem ter do seu lado a mulher que ama, abdica do trono a favor do seu irmão mais novo, Albert, que se torna o novo rei: Jorge VI, pai da atual rainha Elizabeth II. David, destronado e casado com Wallis, passará a ostentar até sua morte o título de Duque de Windsor.

     A história, não me era desconhecida. No vácuo do filme, lembrei-me dos comentários do meu avô sobre o Duque de Windsor, que “renunciou a ser rei da Inglaterra para casar com uma mulher americana”. Não eram dadas mais explicações às crianças, nem se descia a detalhes que o filme deixa entrever. Mas recordo que havia respeito na minha casa pelo duque de Windsor, quase admiração, e que nunca houve palavras de crítica ou sarcasmos, a diferença de outras pessoas famosas, da realeza ou não, protagonistas de escândalos frequentes. Certa vez cheguei a perguntar para o meu pai, ou talvez para o meu avô, quem teria inventado o terno “Príncipe de Gales” que, sendo adolescente, eu considerava o máximo expoente do bem vestir masculino. “Não sei –responderam- mas vai ver que foi o duque de Windsor, quando era herdeiro do trono britânico. É bem possível porque é o homem mais elegante do planeta”. Aquilo me marcou. Naturalmente comprei-me um terno príncipe de Gales, e vi com satisfação como no filme David aparece algumas vezes com um terno semelhante. Meu avô e meu pai tinham razão. Este lado da historia, com o agradável sabor das lembranças familiares, corre paralelo ao filme. David fica com Wallis –que parece que o colocou na linha, pelo que posso deduzir do respeito que se tinha pelo casal na minha casa- e Albert, Jorge VI, ficou com o trono, e com a sua gagueira. E essa é a história que o filme conta.

     Vivemos tempos onde a vida dos homens públicos é escancarada, e nutre-se na sociedade um gosto macabro para encontrar os podres das pessoas famosas, e ventilar suas misérias. É um esporte estimulado pela cultura do big brother que, vazio de si mesmo, parasita a vida dos outros para encontrar ainda algum estímulo para viver, quer dizer, para tocar a vida. Vivos e mortos, se famosos, são passados pelo crivo da curiosidade, do voyeurismo doentio, dos paparazzi, das hipóteses gestadas nas colunas sociais. É o mesmo que acontece em alguns congestionamentos do trânsito provocados pela curiosidade doentia, onde todo cidadão que passa pelo lugar do desastre, sente-se impelido a apreciar os estragos causados no carro –e no corpo- de terceiros. Vive-se da vida dos outros, dos erros e desgraças alheias, porque talvez a vida própria careça de sustância e não se tenha a coragem de reconhecer e enfrentar as próprias misérias. Tudo isso, claro está, maquiado de práticas investigativas, necessidade de estar informado até a saciedade, sentir que se está por dentro de tudo, multiconectado em toda e qualquer variedade de redes sociais, ou nos assim chamados canais de relacionamento. Já dizia um pensador brasileiro que a novidade é o bálsamo das vidas vazias; e se a novidade são os infortúnios alheios, pode se ter uma ideia da lamentável qualidade dessas vidas epidérmicas sobre as quais se aplica o tal bálsamo para alimentá-las.

     Diante deste panorama, este filme é uma lufada de ar fresco, de esperança. A elegância, o bom gosto, e a naturalidade com que se incluem os detalhes familiares, as dúvidas e as crises dessas pessoas que são convocadas –mesmo contra a sua vontade- a reger os destinos de um Império, são também um ponto alto da produção. É possível sentar-se do começo ao fim diante da tela, com a garantia de assistir uma atuação impecável dos atores –um teatro filmado da melhor qualidade- e acabar com um excelente sabor de boca. Duas horas, de suculento bom paladar, com material de primeira, sem ter de se alimentar, como as aves de rapina, da carniça alheia. Penso que a monarquia britânica –tão desprestigiada- terá agradecido o filme. A figura da rainha – a esposa de Jorge VI, que muitos de nós chegamos a conhecer como a Rainha Mãe- é uma personagem que mereceria todo um tratado. Se por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher, neste caso essa mulher é um monumento. Mas, devo confessar que o que me intriga –e penso que não terei resposta- é conhecer a opinião da Rainha Elizabeth acerca deste filme que é, afinal, sobre o pai dela. Dizem que não assistiu, mas eu não acredito. As mulheres, mesmo as rainhas, têm suas artimanhas para conseguir o que desejam. E o prato aqui é apetitoso.

     Esta história pontual de 70 anos atrás encerra ensinamentos preciosos, aplicáveis ao nosso quotidiano. Hoje está na moda o coaching, entendendo-se como tal a preceptoria que nos guia nas decisões profissionais para melhorar nosso desempenho e plano de carreira. Executivo que se preze, submete-se a um coaching no seu ofício. Mas, como tudo o que é moda, se produz o desgaste que sofrem os termos importados do repertório da ética e das virtudes quando se enxertam no mercado corporativo. Estremeço quando ouço falar de liderança, de missão, de visão e, e de coaching. A intenção é boa, mas a versão que se utiliza é descompromissada: atenta à conduta externa, preferentemente no âmbito profissional, sem atrever-se a penetrar nas raízes da pessoa que é onde realmente mora o perigo. Assim, temos um coaching de horário comercial, asséptico, que jamais se atreveria a invadir a privacidade –os defeitos de carácter que são patentes- do seu cliente. É uma preceptoria com anestesia que raramente atinge o miolo do problema. A postura de Lionel Logue, o coach do rei gago, não admite negociação: “My castle, my rules“. Quer dizer, é pegar ou largar, dito de um modo muito mais britânico e elegante.

     E as coisas funcionam. Aliás, é isso o que funciona sempre. Todos guardamos a lembrança de intervenções dolorosas, que vão ao fundo da questão, de quem alguma vez nos ajudou de verdade na vida a superar nossos defeitos, e nos empurrou atrás das metas e dos sonhos. Na hora doeu; muito. Mas hoje só temos a agradecer. O coaching não é invento moderno; já o praticavam os místicos do século XVI. Teresa de Ávila ou Íñigo de Loyola, por dar um exemplo, tem páginas antológicas sobre o coaching que, naturalmente, chamavam de outro modo: orientação espiritual que alavancava os exercícios de perfeição, nos desafios ascéticos. Askesis que, como bem lembra Ortega, foi termo que importaram do treino que os atletas gregos praticavam para conquistar a vitória olímpica. Quer dizer, que se apurarmos os termos, coaching para valer era o antigo: o dos místicos e o dos gregos. E parece-me que ambos dariam risada dessa versão light do coaching que hoje se exercita, incapaz de penetrar nos poros da alma, restrita muitas vezes a melhorar um visual externo ou adquirir algumas habilidades na gestão da agenda de trabalho.

     O Discurso do Rei, como não poderia deixar de ser, tem o seu ponto culminante: o momento em que Jorge VI anuncia o estado de guerra com Alemanha, em 1939. Envolvida no som das notas do segundo movimento da Sétima de Beethoven, Lionel Logue rege simultaneamente as palavras de Jorge VI e os compassos da sinfonia. Nos bastidores, como bom professor que sabe retirar-se a tempo para que o aluno intervenha. O coach que teve a coragem de ir fundo na sua missão, está lá, apoiando, promovendo, fazendo com que o discípulo dê o seu melhor. Nunca me pareceu mais apropriado este trecho da Sinfonia de Beethoven do que nessa cena inesquecível, uma lição para qualquer professor.

     Nestes últimos dias, além de recomendar o filme, andei perguntando a um ou outro colega se tinha assistido ao filme. Os que já o tinham visto responderam de modo muito parecido a como o meu irmão tinha feito: “Extraordinário, que filme!”. E um sorriso prazenteiro acompanhava invariavelmente ao lacônico comentário. Mais uma vez, pensei: vai ver que não é preciso dizer muita coisa do filme, talvez melhor não dizer nada. Basta com apenas reconhecer o mérito, tirar o chapéu e fazer uma inclinação de cabeça, com o estilo que se merece a velha monarquia. God save the King!

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  • Leila

    Pablo querido
    O DISCURSO DO REI é sem dúvida úm dos melhores filmes que já vi nos últimos anos…faço de suas palavras as minhas:
    “Eu também não ligo grande coisa para a academia, de modo que estamos quites…” e além da superação, liderança, e todos os valores humanos, destaco assim como vc, a qualidade do filme, a gde verdade que vc acrescenta:
    “… o bom cinema não morreu. ”
    Obrigada por tudo que vc escreveu …não sei se estamos certos, mas é um “FILMAÇO”!
    abs
    Leila Strazza (psicóloga)

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  • Mari Jo

    Parabéns, concordo plenamente com suas colocações. Realmente não há palavras para este filme, a não ser “extraordinário”, fazia um bom tempo que não ficava impressionada por um filme, alem de gosto de boca o ar chegou a me faltar em alguns trechos, sem duvida este não será esquecido tão cedo.

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  • Professor Marins

    Caro Pablo, parabéns pelo seu mais que lúcido comentário. Postei em meu facebook para que mais pessoas tenham a felicidade de ler o que escreveu. Abraços, Marins

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