Giacomo Rizzolatti & Corrado Sinigaglia: “Las neuronas espejo. Los mecanismos de la empatía emocional”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 28-02-2011

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Giacomo Rizzolatti & Corrado Sinigaglia: “Las neuronas espejo. Los mecanismos de la empatía emocional” Paidós, Barcelona, 2006. 216 pgs.

     Sem dúvida, o sugestivo título, ou melhor, subtítulo –bases da empatia emocional- fará com que muitos se aventurem na leitura desta obra. Foi o meu caso. Deve se advertir que os primeiros capítulos são de difícil leitura –mesmo para os que somos médicos- porque descrevem bases neurofisiológicas que o autor considera necessárias para adentrar-se, posteriormente, em temas que tem uma relevância maior no comportamento humano e no relacionamento interpessoal. Uma leitura rápida, em diagonal, dos primeiros capítulos pode ser suficiente para entender o recado que o autor da nos dois capítulos finais, que são os de maior interesse geral.

 

Capítulo 1 – Uma nova visão do sistema motor, responsável não apenas por movimentos, mas por verdadeiros atos.

     Os atos dos outros, assim como as suas intenções, depende de alguma maneira do nosso patrimônio motor. Pode-se chegar a tudo isso com raciocínios, mas aqui se postula uma competência motora, sem necessidade de apelar para reflexão e raciocínio. A possibilidade de captar as reações emotivas do outros, assim como as intenções que envolvem sua ação tem um fundamento motor espelho que nos permite de algum modo compartilhar tudo isso. As áreas afetadas quando captamos isso dos outros são as mesmas que se ativam em quem sofre, por exemplo, dor ou nojo.

     Como traduzir todo o input sensorial –pensamentos e sensações- em movimento? O autor demostra que as áreas motoras cerebrais são muito mais complexas e interligadas do que tradicionalmente se vem representando no córtex motor. O movimento, que é ação e ato, entranha uma complexidade maior, e uma integração global, que faz com que seja mais do que simples movimento. Possui, por tanto, uma complexidade análoga à zona sensitiva. A região motora não é um simples executor de ordens geradas em outras áreas

     Não é apenas o estímulo sensorial o que dispara a área motora, mas também os estímulos de ordem superior cognitivo, tais como o exemplo, a percepção e reconhecimento dos atos alheios, a imitação e as formas de comunicação verbal ou por gestos; tudo isso remete ao sistema motor e encontra nele o substrato neural primário.

Capitulo 2- O cérebro que atua

     Estudos neurofisiológicos captam ativações em diferentes neurônios quando, por exemplo, se realiza o mesmo movimento, mas com intenções diferentes: por exemplo, mover o braço, ou mover para agarrar alguma coisa, ou mover para se coçar. De algum modo o sistema motor carrega a intenção do movimento.

     O sistema motor não se pode limitar a simples tarefas executivas ou de controle. E, também, o “vocabulário” contido nas áreas de integração pré-motora supõem uma integração continua entre percepção e ação que, mesmo tendo um papel pragmático, possuem um papel decisivo na constituição do significado dos objetos que, de algum modo, facilitam as denominadas funções cognitivas superiores.

Capitulo 3- O espaço que nos rodeia.

     Descrição pormenorizada e árdua –mesmo para quem é medico- dos sistemas neurológicos de localização espacial, incluído os estímulos visuais e tácteis. Provavelmente, salvo interesse específico, deverá ler-se de corrido. Mas o resumo que acumula dá continuidade aos capítulos técnicos anteriores: o espaço com o qual interagimos não é um dado estático, mas depende da nossa interação com ele, através, novamente, de sistemas integrados sensoriais, que vão além da clássica localização topográfica neuro-anatômica. O espaço é sobretudo um espaço para a ação eficaz, os objetos são polos de atos virtuais, hipóteses de ação. Uma visão pragmática do espaço que nos rodeia, e que o autor divide entre o espaço pessoal (alcançável ) e o extra-pessoal ou longínquo. De algum modo o nosso cérebro capta o espaço que nos rodeia como possibilidade de ação, como variável de intenções e gestos. É claramente uma visão “personalista” do espaço (denominação nossa, não do autor).

Capitulo 4- Atuar e Compreender.

     Introduz-se o conceito de neurônios espelho, que são ativados quando realizam determinada ação ou quando observam outra pessoa realizar uma ação semelhante. E, importante: não respondem apenas a movimentos de outrem, mas a ações. Não é a mesma coisa estender o braço, que fazê-lo para agarrar um objeto. O neurônio objeto que se ativa quando se agarra algo, não o faz quando observa outro simplesmente estender o braço, mas quando de fato o faz para agarrar um objeto.

     Segue-se uma descrição pormenorizada, que entra em detalhes neurofisiológicos de difícil compreensão para o leitor comum, mesmo para os médicos. No final do capitulo se apontam as conclusões que o estudo dos neurônios espelho decanta. A ativação desses neurônios gera uma representação motora interna do ato observado, do qual depende a possibilidade de aprender através de imitação. E, com maior detalhe se afirma que os neurônios espelho estão na base, mesmo antes da imitação, do reconhecimento e da compreensão do significado dos eventos motores, dos atos observados a terceiros. Uma compreensão que não é consciência explícita, nem reflexiva, mas sim uma compreensão motora que entende os atos como tais. Essa compreensão, ativa no observador um padrão neural análogo ao encontrado quando se praticam esses atos como ações próprias, como sujeito. E, acontece, quando se observa toda a ação ou mesmo parte dela, porque de algum modo se “intui o padrão motor da ação”. É, pois, uma compreensão pragmática, não reflexiva.

Capitulo 5- Os neurônios espelho no homem.

     Consegue-se provar potenciais evocados em áreas análogas às identificadas no macaco, durante a observação de movimentos de outro. E também, através do PET, essas áreas são marcadas como ativadas nessa observação, a modo de “ressonância”. São mais aperfeiçoadas porque captam os atos, e a dimensão temporal dos mesmos. Uma compreensão que é um vocabulário de atos, sem mediação de reflexão conceitual ou linguística. A compreensão depende também do cabedal de vocabulário de atos análogos que o observador possui. Valha o exemplo: os movimentos de uma dançarina de ballet clássico provoca maior ativação naqueles que sabem os passos de ballet, do que naqueles que os desconhecem. É como se os atos motores tivessem uma memória própria que evoca com maior facilidade os potenciais ativados quando observam esses atos realizados por terceiros.

Capitulo 6- Imitação e linguagem.

     É evidente o papel dos neurônios espelho na imitação, quer dizer, na reprodução de um ato cujo patrimônio motor pertence já ao acervo do observador. (Será isso o que explica o contágio do ato de bocejar?) O autor dá sugestivos exemplos: o bebé que imita alguns gestos do pai, mesmo sem ter visto a sua própria cara (como, por exemplo, colocar para fora da boca a língua); ou os espectadores de futebol ou de Box que movem os pés e as mãos.

     A seguir o autor introduz a teoria de uma possível origem da linguagem nos gestos, algo que desenvolve amplamente ao longo deste capítulo, e que poderia denominar-se um sistema braquio- manual ou gestual para explicar a linguagem. Na opinião dele, os gestos –com as mãos e com a boca, na hora de emitir os sons- são prolegômenos necessários no aprendizado evolutivo da linguagem para comunicar-se. Antes de comunicar-se com significados verbais –conceitos- existe, segundo o autor uma comunicação de gestos, que se apoia naturalmente nos neurônios espelho.

Capitulo 7- Compartilhar as emoções

     O autor chega ao capítulo mais sugestivo, que dá o subtítulo ao livro: as bases da empatia emocional. Procede com uma descrição análoga à dos capítulos anteriores, de experiências que mostram como são ativadas áreas cerebrais relacionadas com emoções básicas, em concreto, com o sentimento de asco ou repulsa. E anota que essas áreas sofrem ativações semelhantes quando é o sujeito quem as experimenta, ou quando observa a reação de terceiros no momento de experimentar tais sensações. Novamente os neurônios espelho estão presentes na captação para perceber as emoções alheias –não mediante raciocínios e reflexão- mas de modo visual, mecânico, imediato.

     Este mecanismo parece válido para outas emoções como a dor, ou melhor, a reação que se observa à dor de outrem. O envolvimento visceral, e até víscero- motor tem as mesmas bases neurais quando sofrida a emoção ou, simplesmente, observada. Naturalmente, a compreensão das emoções alheias vai muito além deste mecanismo espelho neural, mas sem ele o entendimento das emoções alheias seria algo cognitivo, frio, desprovido de colorido emotivo (cor que é conferida justamente pelo mecanismo espelho). As bases neurais espelho permitem compartilhar as emoções alheias, de modo direto e pre-reflexivo, e cria-se um espaço de ação potencialmente compartilhado.

     Finalmente o autor aponta que esses “reflexos afetivos imediatos” que os neurônios espelho proporcionam, são modulados por elementos que interferem na relação que o sujeito observador tem com quem sofre as emoções: grau de parentesco, simpatia ou antipatia, se é alguém conhecido ou não, e o significado que essa pessoa tem para nossa vida e no mundo. Reduzir a empatia a simples conexões espelho seria simplificar um processo complicado; mas, por outra parte, não é prudente ignorar estas bases que proporcionam um substrato neural necessário para compartilhar as emoções –de um modo vital, nunca melhor dito- e que orienta a conduta para construir as relações interindividuais.

     Vale pensar – a título de exemplo tirado da nossa própria reflexão- a importância da cara que se põe no momento de acolher alguém. O sentimento de afeto, de paz, de bem estar, que se reflete na face de quem acolhe deve criar, se entendemos corretamente as teorias aqui expostas, uma disposição anímico-corporal favorável em quem é acolhido. E, igualmente, o contrário. As aparências podem enganar; mas os neurônios espelho que são afetados por elas estabelecem o primeiro passo de uma corrida que, se caminhar na mesma direção, já começa com vantagem; e se for em direção contrária, o esforço por desandar o equivoco será dobrado.

     Em resumo, uma obra de caráter técnico, que quer se aproximar, através de uma contribuição específica –não por isso, menos importante- ao apaixonante mundo do relacionamento humano, e da educação através do exemplo. As consequências, que cabe a cada leitor extrair, implica todo um universo de casos concretos.

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