Pablo Blanco Sarto : “Benedicto XVI. El Papa Alemán”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 29-08-2011

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Pablo Blanco Sarto : “Benedicto XVI. El Papa Alemán”. Planeta Testimonio. Barcelona 2010. 600 ,pgs.

 

     Comprei este livro há alguns meses, por considera-lo necessário, e o deixei na minha estante à espera que surgisse o momento oportuno. Os livros –como tantas outras manifestações de arte, como o vinho- têm o tempo adequado enfrenta-los. Essa ocasião deu-se umas semanas atrás quando se juntaram dois fatores: por um lado, pude dispor de alguns dias fora do meu trabalho habitual e, pelo outro, um encontro com o autor do livro com quem coincidi por alguns instantes, pois estava de passagem na cidade onde vivo. Nessa breve conversa, não pude evitar perguntar-lhe sobre o livro, além de pedir-lhe um autógrafo que generosamente estampou na primeira página. Resumiu assim a sua trajetória como biógrafo de Bento XVI: “Estava estudando teologia e comecei a me interessar pelos autores alemães. O meu orientador me disse um dia: Fica de olho em Ratzinger que ai tens um teólogo de mão cheia. Comecei a estudar e escrevi uma monografia no curso, uma espécie de tese, que era uma biografia de Ratzinger. Isso era em Outubro de 2004. Seis meses depois era eleito Papa e eu, sem procura-lo me vi no olho do furacão. Eu era a única pessoa que tinha escrito até esse momento uma biografia do novo Papa”. A tal biografia foi traduzida ao português (Pablo Blanco: Joseph Ratzinger. Uma biografia. Ed. Quadrante, São Paulo) e imagino que também para muitos outros idiomas. Mas o livro que nos ocupa, é fruto do trabalho posterior do autor, ao longo dos últimos cinco anos.

     As 600 páginas desta extensa biografia podem ser divididas em três partes. A primeira é talvez a mais interessante por ser a menos conhecida. Recolhe os dados biográficos de Joseph Ratzinger, da sua família, e da extensa atividade como professor e como teólogo em diversas universidades alemãs (Frisinga, Munich, Bonn, Munster, Tubinga e Ratisbona). Os subsídios são muitos assim como a extensa bibliografia consultada: um verdadeiro trabalho de investigação. E as histórias variam do pitoresco até as espessuras de quem elabora uma teologia inovadora. Ratzinger dava previamente para a irmã as aulas que preparava para os seminaristas certificando-se assim da clareza da sua exposição. E se deslocava de bicicleta em Tubinga, enquanto o seu colega e amigo –depois opositor, por motivos conhecidos- Hans Kung o fazia em Alfa-Romeo. Aparece no jovem professor a incorporação dos teólogos franceses, a participação no Concílio Vaticano II como assessor do cardeal Frings de Colônia, e a Teologia como resposta do homem à Revelação; não é uma ciência estática, monolítica, congelada. Se João Paulo II tinha promovido uma mergulhada antropológica a partir da Cristianismo –somente Deus sabe o que há dentro do homem- Ratzinger primeiro, Bento XVI depois, reclamará agora deste homem uma resposta ao diálogo com Deus.

     A segunda parte aborda as mudanças de trabalho. Primeiramente, quando é eleito arcebispo de Munich, e a seguir Cardeal; um período de quatro anos escassos, onde Ratzinger conseguiu “resistir” ao desejo de João Paulo II para leva-lo a Roma, o que aconteceu em 1982. Esta segunda parte continua com o novo trabalho, como Prefeito da Congregação para a Doutrina de Fé, cargo que ocupou durante 22 anos. Descrevem-se alguns fatos pouco conhecidos, como a atuação do Cardeal Ratzinger em Equador, em 1978, a pedido de João Paulo I, num Congresso Mariano para América Latina. Ratzinger lembra que a fé dos povos de Latino América tem uma origem mariana inquestionável, como se demonstra pela extensa devoção a Maria em todo o continente latino-americano. E faz questão de lembrar aos povos latinos a cultura da intuição e do coração na qual são versados, como contribuição peculiaríssima para a fé, estabelecendo o equilíbrio com o racionalismo europeu ou saxão.

     A seção dedicada ao trabalho como Prefeito recolhe ações mais conhecidas do público –noticiadas no seu momento- mas relatam-se de modo sistemático, facilitando a compreensão. Não é um sacerdote que estudou Teologia numa Universidade. É um Teólogo de profissão que passa a desempenha um cargo de confiança do Papa: o guardião da fé. Tocam a quatro mãos. O Papa polonês viaja, e Ratzinger fica no escritório colocando a casa em ordem.

     É talvez a parte mais densa do livro, pois se narram as atividades como Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, onde junta sua ação pastoral auxiliando o Papa, com o seu conhecimento de professor de Teologia. Coloca a Teologia ao serviço da Igreja, e não como um ramo independente que gera conhecimento e novidades. Sabe escutar com paciência, até o final. Ouve as perguntas completamente. Elabora sínteses de várias proposições. É, de fato, um grande facilitador, possuidor de profundos recursos culturais –uma memória prodigiosa- e de densidade teológica e filosófica. Um verdadeiro professor.

     Temos aqui um ótimo resumo da sua atuação como guardião da fé, como o braço direito de João Paulo II: se era algo que se podia intuir durante os 22 anos em que ocupou o cargo, com a leitura deste livro torna-se transparente o apoio e a ajuda importantíssima que o Cardeal Ratzinger foi para João Paulo II que, dito de passagem, já o tinha localizado, quase “fichado in pectoris” (com perdão da expressão) desde a época do Vaticano II.

     Na terceira parte –lembro que esta divisão é minha, não do livro- se recolhe um belíssimo resumo destes seis anos de pontificado. Temas conhecidos, sabidos, mas expostos novamente de modo organizado, e com uma lógica narrativa que faz entender melhor as ações concretas de Bento XVI, o seu “programa de governo” que, mesmo afirmando não o ter ao ser eleito, vem se mostrando em caracteres peculiares.

É o Papa da razão, da beleza, da busca incondicional pela verdade. E tudo isto situado em Cristo: um papa Cristocêntrico, mesmo que afirma-lo possa parecer uma tautologia. Penso que Jesus de Nazaré e uma obra muito querida dele, que insiste em dizer que não á magistério papal, mas as opiniões de Joseph Ratzinger, sua própria vida interior, o descortinar da sua alma em oração. Uma obra que é um compromisso com Deus e com ele mesmo.

     O livro é extenso, e os ensinamentos são muitos. É um livro para ler, e deixar por perto como recurso de consulta. Sem dúvida, pode se intuir que apesar da extensão, esta obra são apenas anotações de uma personalidade que terá repercussões históricas enormes, e como tal é preciso deixar passar o tempo para apreciar sua envergadura. Dentre os muitos ensinamentos, fiz questão de anotar um que me parece emblemático. Num dos capítulos onde se relata sua atividade docente, se aventura o conceito de paciência segundo o Professor Ratzinger: “Paciência é a forma quotidiana do amor”. È bonito comprovar como quem, em minha opinião, é hoje o maior intelectual do planeta, e que por natureza carece de interlocutores à sua altura, sabe valorizar o detalhe e o ritmo dos outros, para abrir-se de braços abertos ao diálogo multicultural e religioso.

     Impossível deixar de pensar no juízo que as gerações futuras –por exemplo, daqui a 300 anos- farão dos que tivemos o privilégio de conviver com estes dois Papas: João Paulo II e Bento XVI. Perguntar-se-ão se tínhamos consciência histórica do que estava acontecendo. Certamente nos escapam a maioria das consequências, mas a leitura deste livro é um bom recurso para estar mais atento a este tempo único que estamos vivendo.

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  • Juan Orozco

    Bela análise  , sem dúvida  é um forte convite a ler este livro  e entender melhor o grande intelectual
    que é Bento XVI.

    Obrigado pela dica.

    Juan 

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  • Marcojanaudis

    Puxa vida, nem tinha me dado conta que já se vao 6 anos de pontificado!
    De fato é um bom exercicio imaginar o que se pensará deste momento daqui ha 300 anos
    abraços
    Marco

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  • Osnir

    Aguçados pelos comentário, podemos sentir algo da categoria desse protagonista único de nosso tempo. Digo “sentir algo” porque realmente minha sensibilidade não consegue captar toda a dimensão do poder de sua atuação, o impacto histórico-universal de suas declarações recheadas de inspirações práticas e concretas.  Como o Pablo bem diz, somos afortunados de viver o período de dois Papados formidáveis. Ecumenicamente falando, nosso desafio é absorver todas essas “provocações amorosas” e transformá-las em práticas de uma vida mais fecunda.

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