Muriel Spark: “A Primavera da Srta. Jean Brodie”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 17-11-2011

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Muriel Spark: “A Primavera da Srta. Jean Brodie”. Rocco. Rio de Janeiro, 1992. 156 pgs.

     Muriel Spark, escocesa de Edimburgo, é considerada uma das escritoras inglesas mais relevantes do século passado. A Primavera da Srta. Jean Brodie é, talvez, sua obra mais conhecida, até porque foi levada ao cinema.

     Jean Brodie é uma professora peculiar que leciona numa escola de garotas, nos anos de entre guerras. Influente, heterodoxa nos métodos e nos conteúdos, congrega à sua volta um grupo de moças adolescentes –o grupo Brodie- que se destacam no universo do colégio pelas suas ideias avançadas. Passeios, idas ao teatro, reuniões de chá na casa da professora são recurso para conversar sobre o fascismo emergente, a pintura italiana, os homens e o amor. A Srta. Brodie afirma estar na primavera da vida, permanece solteira, diz ter perdido o único amor da sua vida na primeira guerra, e não se arrisca abertamente no universo masculino. Mas, antes de tudo, a professora é uma educadora que molda os temperamentos das jovens que se aproximam dela, ou que ela mesma escolhe, porque o grupo Brodie prima pela seleção apurada. Quer fazer de cada uma das suas meninas “la crème de la crème”.

     As personagens estão magnificamente desenhadas sem necessidade de recorrer a descrições pormenorizadas. São os diálogos, os gestos, as perguntes e respostas curtas –as sugestivas entrelinhas- as que perfilam as figuras que desfilam ao longo deste romance quase psicológico. A vida da autora é fonte de inspiração para a narrativa: a topografia de Edimburgo, a escola onde estudou, a sua conversão ao catolicismo tem o reflexo estampado na obra.

     Os métodos pedagógicos da Srta. Brodie farão o leitor lembrar-se da “Sociedade dos Poetas Mortos”, desta vez em versão feminina, e com temática própria de mulheres. São processos educacionais que incomodam o sistema secularmente estabelecido da escola de senhoritas, geram ciúmes, e provocam antipatia. Como ela mesma afirma, “eu pratico a educação, que é guiar para fora o que está na alma do aluno; diferente de instrução que é colocar informação. Acusar-me de colocar ideias na cabeça das alunas é falso, pois isso é o que fazem os outros professores. Eu apenas tiro de lá o que já está, guio para fora”.

     Os que tiveram a sorte de deparar-se com professores atípicos, inovadores, que desafiavam o aluno provocando o seu crescimento, se identificarão com Jean Brodie e seu grupo de adolescentes, e com Mr. Keating e os seus poetas mortos. São professores que marcaram nossas vidas, talvez com ideias variadas e até perigosas, mas com consciência de missão. Gente que não se curva ao sistema, que desconhece os compromissos políticos, verdadeiro câncer das instituições formadoras.

     A Srta. Brodie resiste até o final, suporta as críticas que considera um aval da qualidade do seu método docente. “Não vou pleitear um lugar comum numa escola excêntrica. Vou continuar nesta fábrica de educação, onde está o meu dever. Tem que haver um fermento na massa. Deem-me uma jovem em idade impressionável e ela será minha para sempre”. É assim que funciona: o exemplo do professor comprometido imprime-se para sempre no caráter do estudante. Nisto consiste a verdadeira educação, e vai aqui um ponto de reflexão para todos os que estão envolvidos neste universo. Educar vai muito além de dar informação ou despejar conhecimentos: implica promover atitudes, e o catalisador desse processo é o exemplo do professor. Como bem adverte aquele maravilhoso livro “A Coragem de Ensinar“, o mestre deve lembrar que “ensinamos o que somos”.

     Acabado o livro assisti a versão levada ao cinema em 1969, com o título “A Primavera de uma solteirona”. Não vale a pena. Perde completamente a sutileza psicológica e o encanto dos diálogos; tergiversa a trama tornando-a vulgar, e até coloca os dois braços no professor de arte, sendo que Muriel Spark faz questão de descrever sua deficiência com detalhe. A única exceção que merece destaque é uma magnífica Maggie Smith no papel de Miss Brodie, que conquistou merecidamente o Oscar de melhor atriz nesse ano.

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