Leonard Sax, MD, PhD: “Boys Adrift” (Meninos à Deriva)

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 12-07-2012

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Leonard Sax, MD, PhD: “Boys Adrift” (Meninos à Deriva).   Basic Books. New York . 2007.  220 pgs.

Um novo livro do autor de “Why Gender Matters“, uma variação sobre o mesmo tema. Tema importantíssimo, por sinal, pois incide certeiramente sobre aspectos básicos da educação dos jovens.

No seu primeiro livro, o Dr. Sax, médico de família com ampla experiência clínica e pesquisador na área da psicologia infanto-juvenil nos advertia da importância de considerar as diferenças assim chamadas de gênero, na educação das crianças e jovens. O que é normal para um menino de três anos –movimento, tonalidade de voz do professor- pode resultar para uma menina da mesma idade em algo sem substância (as meninas estão mais atentas às cores do que ao movimento), ou parecer que o professor lhes grita em sala de aula.

O presente livro não dispensa a leitura –atenta, por conter infinidade de exemplos- do primeiro. Mas, como o autor adverte repetidamente, este livro é sobre meninos. O seu foco é analisar os cinco elementos que, em sua opinião, contribuem para que a geração atual de adolescentes e homens jovens se encontre perdida, sem motivação, enfim, à deriva como aponta sugestivamente o título.

O primeiro fator é o momento de iniciar o colégio. Pretender que um menino de cinco anos aprenda a ler e escrever é como querer esse mesmo resultado de uma menina de três anos e meio, tal a diferença que o gênero implica. Uma educação precoce formal acaba rendendo insatisfação e distanciamento do menino, que considera o colégio algo entediante. E este sentimento se perpetua. As meninas tendem naturalmente a seguir o que a professora aponta, a satisfazer os adultos, sejam eles pais ou mestres. Não assim os meninos. E para demostrar que não é fruto da cultura, mas algo “de fábrica” (hardware), Sax traz à tona o exemplo dos chimpanzés: enquanto a fêmea filhote imita o que os adultos fazem, o filhote macho vive a vida por sua conta, sem nenhuma sintonia com a “instrução paterna”.

O autor aponta ainda sobre a importância de aprender com a experiência –metodologia empregada em muitas culturas, e em alguns colégios na Europa- ao invés de reduzir todo o aprendizado a conteúdos. “É preciso palpar, tocar, brincar com um girino antes de aprender o seu ciclo biológico”.

Um segundo elemento que contribui ao desvio dos meninos são os videogames, com ênfase naqueles de caráter violento. Acostumar-se a resolver os problemas da vida com torpedos e bombas, eliminando os adversários, cria um mundo irreal. Na vida real as dificuldades se enfrentam com paciência, criatividade, virtude. Os videogames são um verdadeiro caldo de cultura para criar homes sem motivação, que vivem fora da realidade.

O terceiro fator é sumamente atual, especialmente para os que atendemos pacientes e famílias no nosso quotidiano. Trata-se do assim chamado Déficit de atenção com hiperatividade (ADHD- Attention Déficit Hiperactivity Disorder) que está sendo diagnosticado indiscriminadamente –é a doença da moda- e, naturalmente, medicado. Além dos problemas que a medicação traz consigo é importante ter a coragem de fazer a pergunta obrigatória: talvez o problema não seja com o menino, mas com o colégio, ou com determinado professor. Sempre é mais fácil dar a medicação –que, aliás, funciona igualmente mesmo em quem não tem o ADHD- do que assumir problemas de difícil gestão, ou mesmo admitir que a criança tenha uma inteligência média, ou limitada, ou habilidades especiais que a educação convencional não consegue explorar satisfatoriamente.

O quarto fator aborda aspectos relacionados com alterações endócrinas fruto da cultura atual da alimentação e da bebida: o perigo dos plásticos. Vários exemplos ilustram este aspecto, assim como todos os outros: se há algo que deve se reconhecer no autor –estando de acordo com ele ou não- é a ampla pesquisa e bibliografia na qual embasa suas teorias.

O quinto fator é um dos mais atrativos: a falta de modelos, no caso, de modelos masculinos, onde os meninos podem se inspirar. Neste ponto, o autor advoga pela necessidade de colégios separados para meninos e meninas. De fato, ele é o fundador e diretor executivo  de NASSPE- National Association for Single Sex Public Education, organização que promove os colégios separados (single sex) na educação pública americana, com inegável sucesso e amplo apoio político. Adverte que não é uma postura “sexista”, que privilegia os homens em detrimento das mulheres, mas sim proporcionar os modelos adequados a cada um. Entre os muitos exemplos que relata, comenta o caso de meninas de um colégio misto que frequentam atividades sociais abertas num colégio de meninos. “Por que vocês vêm aqui para conversar com rapazes, se têm muitos no colégio de vocês”- perguntou o autor a várias. “Os rapazes do nosso colégio são insuportáveis, não querem nada, só aparecer. Parecem com o meu irmão menor. Aqui há rapazes bem educados, nos tratam com respeito, não interrompem quando falamos….enfim, nos sentimos mulheres”. 

O tema de ampla desmotivação masculina no campo profissional –e nos projetos de vida- é ilustrado com multidão de exemplos que variam desde a cultura dos índios Navajos, até os caçadores de Leão Marinho entre os esquimós do Alaska, passando por personagens cinematográficos que retratam a “pasmaceira” do adolescente masculino de hoje. E nota-se que o autor não esgota o tema, pois fornece endereços de sites de criação própria, onde muitos mais exemplos podem ser visualizados.

No capítulo final, coloca todos os fatores juntos para sugerir algumas ações práticas. É uma recopilação que ajuda a fixar os conceitos explicados ao longo do livro. E nas entrelinhas aponta aquele que é talvez o aspecto menos cômodo –e mais eficaz- que pode funcionar para enfrentar este desafio: o envolvimento dos pais. Sem ações positivas dos pais, não individualmente, mas em grupo (community of parents, que é algo mais do que simples grupo, mas uma ação corporativa bem estruturada) não será possível reverter esta tendência que assume proporções epidémicas.

Um belo livro, escrito em inglês fácil e didático (ignoro se há tradução em português) que ajuda a pensar e sugere ideias variadas para ser proativo na educação dos meninos e adolescentes. Não há receitas mágicas: o que há é muito trabalho pela frente que exige profissionalismo dos pais. Mas afinal, não é isso que queremos para os nossos filhos, um mundo melhor?  -pergunta o autor. Para ele, esse empreendimento não tem preço. A resposta ao desafio fica, como sempre, por conta de cada um.  E, eu acrescento no vácuo do que aprendi nesta leitura, utilíssimo para o meu campo profissional: é preciso pensar em tudo isso antes de precipitar-se num diagnóstico de hiperatividade e tentar resolver os problemas com medicações não isentas de efeitos colaterais, que perpetuam a desmotivação.

Falta anotar uma última advertência. Escrevo estas linhas com muito retraso. O autor enviou-me o livro pessoalmente, após um contato que fiz com ele por e-mail, explorando a possibilidade de convidá-lo para vir dar umas conferências no Brasil. Disso faz quase três anos. Demorei em ler o livro, mas o Dr. Sax cumpriu o prometido: advertiu-me que tinha um novo livro no forno, sobre educação de meninas. Consulto a internet e vejo que o livro já saiu, em 2010. Terei de ir atrás para compensar o atraso.

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  • Abílio Coutinho

    Grande Pablo! É isso aí: desistir, jamais!!! O tema me interessa muito por dois grandes motivos: um, é obvio, porque sou pai de um rapaz de quase 12 anos: o outro, menos aparente, porque tenho antiga automotivação pelo tema educação na formação da ser humano. Como meu inglês é fraco, peço que me envie um “rascunho” da tradução. saudações, Abílio

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    • Anônimo

      Prezado Abílio Coutinho,

      O “rascunho” é este mesmo artigo. Não dispomos de nenhuma forma de tradução do livro em questão.

      Obrigado por seu comentário.

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  • Renato Rossi

    Caríssimo Pablo! Parabéns pelo artigo.  O tema é muito interessante para que nós pais assumamos o nosso verdadeiro papel de educadores de nossos filhos, e que tão somente a instrução e complementação da educação sejam transmitidas pelas instituições de ensino.  A verdade é que na atualidade ambos, pai e mãe, têm de “largar” seus filhos para que a escola os “criem”, em detrimento do fator financeiro.  É um trabalho bem elaborado e com fundamentos na área médica, psicológica e realidade social.  A separação dos meninos em relação às meninas na instrução educacional talvez seja uma medida a se adotar nas escolas brasileiras.  Seria muito salutar a presença do Dr. Sax em São Paulo, no Brasil, para que os seus estudos e obras sejam difundidos e que a sociedade brasileira os assimilem.  Aguardamos os comentários acerca do novo livro sobre educação de meninas.   Repassarei o artigo para a direção da escola de nossos filhos. Um forte abraço. Renato e família.

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  • Mdcmfm

    Dr. Pablo:

    Muito obrigada por nos possibilitar conhecer como o assunto é tratado por quem entende.
    Para mim, simples leiga e apaixonada pelo tema da educação de crianças e jovens, foi de grande proveito.

    Maria do Carmo.

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