Kyung-Sook-Shin: “Por favor, Cuide da Mamãe”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 10-09-2012

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Kyung-Sook-Shin: “Por favor, Cuide da Mamãe”. Ed Intrínseca. Rio de Janeiro, 2011. 236 pgs.

     Foi a veemente recomendação de um amigo –professor e humanista- o empurrão que me fez aventurar-me nesta leitura. Tratando-se de uma autora coreana, devo confessar que o mundo oriental não é a minha inclinação natural.  Deve ser, sem dúvida, uma deficiência da minha sensibilidade, pois há muito que aprender do humanismo, subtil e encantador do oriente, mas nem todos possuímos essa sintonia peculiar.  Anotei o nome do livro, procurei-o na internet –onde me deparei com um alerta que qualificava a obra como romance lacrimogêneo- e o encomendei através do estantevirtual.com, recurso maravilhoso para adquirir a preços módicos todo tipo de livros. Felizmente, a sugestão do meu amigo prevaleceu, e parti para a leitura.

     O argumento é simples: uma senhora de idade, com certo grau de demência, perde-se no metrô de Seul. A família –quatro filhos e o pai- inicia a busca. E a busca mergulha nas lembranças que se transformam numa descoberta daquela mulher, mãe e esposa, que mal conheciam. A perdida física é apenas desculpa para revelar uma carência substancial de conhecimento daquela que convivia e cuidava de todos, com esmero e dedicação. O livro é um buquê de reflexões das filhas, dos filhos, do esposo que, agora, sentem falta dela e lamentam a indiferença com que a tratavam.

     A filha, intelectual e escritora, dá a largada nas ponderações que se sucedem no vazio da ausência. “Antes dela desparecer, você passava dias sem pensar nela. Quando pensava, era para pedir que fizesse alguma coisa, para censurá-la ou ignorá-la. O hábito pode ser algo assustador”. E, naturalmente, o ônus da omissão: “Quase nada no mundo acontece de forma inesperada quando refletimos com atenção. Mesmo o que alguém poderia considerar incomum, se pensarmos bem, é apenas alguma coisa que tinha probabilidade de acontecer”.

     O marido também nos brinda com suas cogitações e remorsos: afinal, a boa senhora perde-se no meio da multidão, ao separar-se dele que sempre caminhava à sua frente. “Você caminhou na frente da sua esposa a vida inteira. Às vezes virava uma esquina sem nem olhar para trás. Quando sua esposa o chamava de longe, você resmungava e perguntava por que ela seguia tão devagar. E cinquenta anos se passaram”. A dor da ausência revela o valor daquela mulher, cinzenta e apagada, que fez da sua vida verdadeiro serviço à família. “Os seus numerosos parentes vinham por causa da sua esposa, e diziam que a comida dela transbordava amor. Ainda que tudo o que ela fizesse fosse ir à horta para pegar verduras para a sopa de pasta de feijão e uma couve para algum prato salgado muito simples; mas todos comiam com entusiasmo”.

     Outra filha toma o revezamento: “Mamãe nunca teve oportunidade de perseguir seus sonhos e, inteiramente sozinha, enfrentou tudo o que a época lhe infligiu (…). Viveu sua vida da melhor maneira que conseguiu, entregando-se de corpo e alma. Por que eu nunca levei em conta os sonhos de Mamãe? Por que isso nunca me ocorreu quando ela ainda estava conosco? Embora eu seja sua filha, nunca tive ideia do que estava acontecendo, por isso imagino como ela deve ter se sentido sozinha. Não é injusto que tenha sempre sacrificado tudo por nós, e não tenha sido compreendida por ninguém?”

     O livro é um tremendo ensaio reflexivo sobre como o ser humano somente é capaz de valorizar o que já não tem. Como dizia Guimarães Rosa, por boca do jagunço: “a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe”. Lembrei-me de muitas coisas ao compasso da leitura, por vezes aos trompicões, sem dúvida por causa da tradução que não deve ser fácil. Basta evocar os filmes chineses, por dar um exemplo, para entender como nos custa aos ocidentais entrar na sintonia da cadência que mistura aromas de comida, pétalas de rosas, gestos pausados que substituem palavras, paisagens de aquarela, e até lutas marciais. Tudo em perfeita harmonia, destilando delicadeza, exigindo intuição do espectador.

     Lembrei-me da afirmação de um velho amigo que me disse: “A gente só dá o verdadeiro valor ao nosso pai depois dos 50 anos. E nessa altura, a maior parte das pessoas já não o tem por perto”. E veio à mente –por incrível similitude- uma história que vivi há algumas semanas. Uma das minhas pacientes estava agonizando. O câncer voltou impiedosamente. O marido, que tinha largado a família há alguns anos, regressou e permaneceu junto ao leito da moribunda no hospital dias a fio. Estava destroçado, feito um mar de lágrimas: “Doutor, sou um canalha. Eu fui o causante de tudo isto. Não tenho perdão de Deus”. Abraçou-me e aproveitei para falar: “Sua esposa já lhe perdoou. Mas é bom dizer isso para ela. Vá até o quarto, peça para todos saírem, e fale com ela no ouvido. Está entrando em coma, mas vai lhe ouvir”. Quando mais tarde me dirigi até o quarto da enferma, encontrei os filhos –que não queriam falar com o pai- fora do quarto, perplexos. Expliquei a “prescrição” que eu tinha dado ao pai deles e puxei todos para sentar e conversar. “Vocês tem que perdoar o pai de vocês. Sua mãe está apenas esperando ver a família unida para partir. Ela tem de sentir que vocês se amam”. Olharam-me assentindo. Uma filha confirmou o diagnóstico: “É verdade. Mamãe sempre foi o elemento de união na família. Deve estar preocupada nos vendo assim. Vamos ter de resolver isso”. Se tivesse lido este livro antes, teria recomendado sem hesitação. Fica para a próxima vez, porque haverá: na minha profissão, basta estar atento que as oportunidades surgem. É preciso apenas aprender a vê-las.

     Borges dizia que os livros, mesmo aqueles que já tínhamos lido, assumiam novas perspectivas porque somos nós os que mudamos ao lê-los ou relê-los. A leitura evocou muitas lembranças: as que aqui relato, e muitas outras. Cada um se encontrará com as suas e, certamente, fará o propósito de olhar com amor para as pessoas que lhe cercam no seu quotidiano. De verdade, com interesse, enquanto é tempo.

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  • Osnir

    Assunto que nos assombra tanto quanto vamos buscando deixar o “homem velho” para trás. O que não nos falta são pedras como essas na mochila, que temos que aprender a nos desfazer. Com certeza lerei. Obrigado pela sugestão.

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  • Renato

    Obrigado pela recomendação amigo Pablo.  Trata de uma verdade e uma realidade.  Se tivéssemos a plena consciência de que a vida é uma passagem, e diante de tal fato, poderíamos aproveitar todos os momentos com maior ênfase e amor, talvez não agiríamos com egoísmo ou egocentrismo.  Olho para trás e observo que o tempo voou, e em muitos instantes deveria aproveitar de forma agradável e  em companhia dos entes queridos.  As circunstâncias do cotidiano contribuem para que não observemos esses momentos e o tempo transcorrendo……  Pensemos nisso, e amemos o próximo sob todas as formas.

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  • Adriana

    Professor.. gostei muito dos comentários.. vamos nos esforçar para valorizar o que temos ao nosso lado, esforçar para não esquecer do essencial!
    Mil beijosAdri

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