Willa Cather: “Minha Ántonia”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 15-12-2012

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Willa Cather: “Minha Ántonia”. Codex. São Paulo. 2003. 327 pgs.

     Este livro estava na minha lista de pendências há algum tempo. Mas outros sempre passavam à frente. Finalmente, a recomendação de um amigo combinado com alguma viagem, foi o empurrão para colocá-lo na pole position.  Não me lembro da viagem, nem do motivo; ultimamente tenho tirado o atraso das leituras como paliativo de esperas em aeroportos e de check-in pouco afortunados, que te colocam em espaços apertados, nada anatómicos, frequentemente atrás de alguém que utiliza ao máximo as possibilidades reclináveis da sua poltrona. Ao invés de reclamar, melhor partir para a ignorância; quer dizer, para a literatura que anestesia o corpo, desperta a mente, e proporciona outra viagem –muito mais confortável- ao sabor da imaginação.

Devo confessar que a maioria dos escritores americanos da primeira metade do século XX, não são santos da minha devoção. Sem tirar nada ao mérito dos quadros de costumes, amor pela terra, agruras da grande depressão que se imprime nas personagens, e a clareza com que descrevem as paixões – misérias e grandezas do ser humano. Penso que a minha pouca afeição muito tem a ver com as traduções que nos chegam; por melhores que sejam, sempre desbotam o original. As poucas vezes que me aventurei a ler em português os clássicos espanhóis do século XVI –Cervantes, Calderón, Lope de Vega- reparei que a tradução da o recado, mas lhe falta a música que, na infância, aprendi a contemplar.  Valha esta explicação para advertir que, mesmo gostando, My Ántonia, não me entusiasmou. Mas sendo considerado como um dos grandes romances americanos do século XX merece um comentário.

     Willa Cather, nascida na Virginia e criada em Nebraska, descreve em primeira pessoa –nas palavras um fictício personagem que pode ser ela mesma, a escritora- a trajetória da protagonista, Ántonia –assim mesmo, com acento na primeira sílaba- filha de uma família de emigrantes da Boemia, chegados ao estado de Nebraska no começo do século passado. Gente sofrida, camponeses sem estudos, mas com uma sabedoria sobre a vida e as pessoas, certamente invejável. “As pessoas consideravam eles gente ignorante porque não sabiam falar inglês. Mas não havia um só homem em Black Hawk com a Inteligência ou a cultura, muito menos a distinção pessoal do pai de Ántonia. No entanto, as pessoas não viam diferença entre ela e as três Marys; eram todas boêmias, todas criadas”.

É justamente como criada que Ántonia começa a ganhar-se a vida, a sustentar sua família. Trabalhadora incansável sabe encarar os obstáculos como desafios; supera-os com bom humor, dando o melhor de si e conquista as pessoas à sua volta. Uma personalidade que, além de despertar invejas, é sempre um exemplo para qualquer época. “Havia uma harmonia básica entre Ántonia e sua patroa. As duas tinham uma natureza forte, independente. Sabiam do que gostavam, e não estavam sempre tentando imitar outras pessoas”. Modelo notável para os nossos dias, quando o mimetismo, o “Maria vai com as outras” –mesmo que as outras sejam modelos congelados no Facebook- é o que manda.

Cather coloca na boca do fictício narrador a impressão que o convívio com aqueles emigrantes pobres, trabalhadores, mas de inegável estatura moral, lhe produziu. “Tendo crescido em meio às agruras dos primeiros tempos, essas moças pouco tinham ido à escola. Mas quando encontro agora os irmãos e irmãs mais novos, por quem faziam tantos sacrifícios e que tiveram tantas ‘vantagens’, eles não se me parecem nem de longe tão interessantes ou tão bem educados como elas. As filhas mais velhas, que tinham ajudado a lavrar a terra inculta, aprenderam muito com a vida, com a pobreza, com suas mães e avós; a vinda em tenra idade para um país novo as despertara cedo, como a Ántonia, e as tornara perspicazes”.

Eis uma verdade amplamente comprovada. As dificuldades formam a personalidade; quem tem muitas facilidades não dá valor ao que tem, perde a perspectiva da sua missão no mundo. Uma realidade que se esquece com demasiada frequência na educação dos jovens: eu não quero que ele passe por aquilo que eu tive de passar! Frase que sentencia à mediocridade a tantos jovens que, com o tempo, delapidarão o patrimônio familiar por carência absoluta de capacidade de sacrifício, por pensar – com toda sinceridade!- que são o umbigo do mundo. Mediocridade e egoísmo, pois essas deficiências caminham juntas. Gente sem encanto, de plástico, que passará pela vida sem fazer nenhuma diferença. Podem até buscar a fama e, quem sabe, conquistá-la. Mas nunca adentrarão na vida dos seus semelhantes, nem serão promotores de um mundo melhor.

Felizmente, do outro lado, todos conhecemos pessoas que com a sua presença iluminam o ambiente, nos fazem sentir-nos melhores, nos impulsam a sonhar e a embarcar-nos em aventuras que nos engrandecem e reformam a sociedade. Algo disso tinha a protagonista que, sem reclamar nunca, mantinha-se fiel à missão que a vida lhe confiou. “Ántonia sempre fora de deixar na mente imagens que não se desvaneciam – que ficavam mais fortes com o tempo. Na minha memória havia uma sucessão dessas imagens, fixadas lá como as xilogravuras da nossa primeira cartilha. Ántonia se prestava a atitudes humanas imemoriais que reconhecemos como universais e verdadeiras. Eu não me enganara. Era uma mulher gasta agora, não uma menina encantadora; mas ainda tinha aquele quê capaz de incendiar a imaginação, ainda conseguia nos tirar o fôlego por um instante com um olhar ou um gesto que, de alguma maneira revelava o significado de coisas comuns”.

Um belo programa de vida que entranha confiar nos demais, mesmo à custa de receber enganos e mágoas. “O problema comigo é que nunca consegui acreditar na maldade de uma pessoa que eu amasse”.  Uma frase de Ántonia, para enunciar singelamente esse troco injusto e desigual para o bem que ela difundia. Não estou certo se isso é um problema, ou é a solução para o nosso desconfiado mundo de hoje. Atrevo-me a apostar pelo segundo, apesar do respaldo da poltrona à minha frente limitar completamente meus movimentos. A mente e o coração não tem limitação física: viagem sempre em classe executiva.

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  • Alba Otero

    Interessante sua colocação de que “todos conhecemos pessoas que com a sua presença iluminam o ambiente, nos fazem sentir-nos melhores, , nos impulsam a sonhar e a embarcar-nos em aventuras que nos engrandecem. .” Pois essa a sensação que sinto ao ouvi-lo nas nossas reuniões mensais do clube de leitura. Sempre saio de lá me sentindo melhor, achando a vida melhor, achando que o mundo é muito maior do que parece. Agora estou às voltas com “O tempo entre costuras”, varando a madrugada com essa deliciosa leitura, que tem me levado a uma época que não conhecia, a viajar por lugares tb desconhecidos. Agradeço a você por essa presença iluminada em minha vida.

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