Fabrice Hadjadj: “La Fe de los Demonios”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 28-02-2013

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Fabrice Hadjadj: “La Fe de los Demonios”. Ed. NuevoInicio. Granada. 2009. 278 pgs.

capa do livro

     Adquiri este livro há algum tempo, durante uma das minhas viagens. Chamou-me a atenção o título. O livreiro, um velho amigo, confirmou tratar-se de uma obra de valor, impactante. “Algo diferente, mas muito bom”. A cinta promocional que abraçava o volume vinha assinada por um conhecido jornalista, entendido nestes temas e afirmava tratar-se do melhor livro de teologia popular (no original espanhol lia-se ‘teologia divulgativa’) que tinha lido nos últimos anos. Comprei-o e aguardei o momento certo para mergulhar nele.

     O momento chegou com as férias do final do ano. É, de fato, um livro diferente, às vezes chocante, que requer uma leitura pausada para assimilar os desafios que o autor propõe, e sintonizar com o seu raciocínio. Fabrice Hadjadj é um jovem professor de filosofia na França e que se apresenta como um judeu de nome árabe, convertido ao catolicismo em 1998. Tem pouco mais de 40 anos, casado com uma atriz, pai de uma família numerosa, autor de várias obras filosófico-teológicas com propostas de sabor revolucionário. Baste ver o título desta obra, e o subtítulo: o ateísmo superado.

     Mais do que um comentário –ainda estou às voltas com muitas das reflexões que surgiram no decorrer da leitura- o que anoto a seguir é uma tradução livre (da versão espanhola da obra), sintética, das muitas ideias que o autor coloca, permeadas com minhas próprias glosas. O problema do demônio –e as consequências para nós mortais- não é uma questão de fé. O demônio acredita em Deus e treme. O que lhe permite desfilar triunfante, arrecadando prosélitos para a sua causa –seguidores muitas vezes inconscientes- são outras atitudes mais subtis. O ateísmo, na forma dura e pura, é tema superado. O perigo mora em outros meandros que o ser humano percorre diariamente.

     O autor, que interage com público jovem, não é alheio ao contexto cultural que respiramos. Uma coisa é conhecimento e outra, muito diferente, é curiosidade, mal epidêmico. “O mundo nos estimula a ser curiosos, e temos tudo a um click do mouse, transformando-nos em Net Explorers dedicados a um enciclopedismo cheio de artigos interessantes, ora sobre concursos de animais, ora sobre os Legionários de Cristo. Deste modo podemos não formar parte nunca do essencial. Dispensamos sem remorsos todo saber que nos possa comprometer em corpo e alma. Essa procura é pura dispersão. Deslumbra-nos, mas não ilumina.”

     Os exemplos chocantes surgem para elucidar que a metodologia do demônio está muito distante do clássico ateísmo. Vejamos por exemplo este: “Tenho a impressão de que é preciso passar por todas as provas enviadas por Satã, pelos demônios e pelo inferno antes de conquistar a vitória definitiva….Sem dúvida, não sou o que se possa chamar um beato. Mas, no fundo de mim mesmo, sou um homem religioso; e creio que todo aquele que combata valentemente nesta terra, conforme às leis naturais que foram criadas por um deus, aquele que nunca capitula mas se repõe e segue adiante, esse não será abandonado pelo autor destas leis, mas obterá finalmente a benção da Providência. Assim tem acontecido com todos os grande espíritos desta terra”. Quem fala assim é Adolf Hitler (recolhido por Albert Speer, num discurso de 1944). A posteriori reparamos no voluntarismo, na soberba e na obstinação que se depreendem destas palavras….. Mas somente a posteriori.”

     Como se passa de anjo a demônio? A soberba e a inveja. A intolerância, o não suportar que homens cheios de misérias sejam elevados a condição quase divina. Não temos aqui uma interessante advertência de como nos consideramos melhores do que a média, com um curriculum razoável, comparado com essa multidão medíocre? É o falar popular que escutamos diariamente: não faço mal a ninguém, não fumo, não bebo, não uso drogas….Mas a realidade é que quem assim fala transparece inveja e soberba por todos os poros.

     Muito sugestivo o comentário que o autor anota sobre a parábola dos dois filhos que o pai manda para trabalhar no seu campo. O mais velho diz que não vai, e acaba indo; e o que mais novo diz que sim, senhor, mas não aparece. Comenta o autor: “O santo é quem diz que não, mas o transforma mediante o arrependimento num sim. O maligno é o que diz sim, mas esse sim disfarça um não, sem remorso algum”. No fundo é fazer as coisas como eu quero. Sim, senhor, estou indo. E deixa que eu vou fazer do meu jeito, vou imprimir o meu selo, o meu estilo. Convém-me. Já o outro entende que ir é aceitar uma vontade –e um estilo- que não é o seu, mas é onde está a felicidade.

     “A graça é um dom de amor gratuito. Não exige nada em troca, e justamente por isso é o mais difícil para quem pensa ser alguma coisa. Reclama de nós não fazer, mas deixar que Deus faça em nós. E nós respondemos não sendo obstáculos a esse amor livre e divino que ela suscita em nós. Mas o demônio não quer abandonar-se. Prefere ser um self-made-man. O imagino montando um curso de desenvolvimento pessoal, convertendo-se no coach dos winners, providenciando travesseiros a quem não tem onde apoiar a cabeça (Cristo) e praticando a eutanásia ao varão das dores (Cristo sofrendo).”

     Acode à minha mente o conhecido texto de Santo Agostinho, aqueles dois amores que fundaram duas cidades: o amor de Deus até o desprezo de si próprio a cidade celeste, e o amor de si próprio até o desprezo de Deus a terrena. Tudo é uma questão de onde se coloca o objeto do amor. Esclarecedor este texto: “Os que acreditam que o demônio desconhece a radicalidade do amor divino, cometem um erro, pois é justamente esse amor a causa da sua rebeldia. Deste modo, se convertem em brinquedos em suas mãos: nada lhe proporciona melhor acesso às suas sugestões, do que pensar que é mais estúpido do que nós. (…) Com o demônio não se trata de jogar para ver quem é mais forte, mas de reconhecer-se débil e amparar-se em Deus. Não se trata de ver quem é mais inteligente, mas de quem é capaz de amar mais. O demoníaco não é tanto querer o mal, mas querer o bem sem obedecer à fonte de todo bem, querer fazer o bem segundo a minha regra, com autossuficiência, numa caricatura da generosidade que coincide com o orgulho mais subtil”. E enquanto lia isto eu lembrava de Bernanos: “Odiar-se a si mesmo não é difícil; o realmente difícil é esquecer-se de si mesmo.”

     O bom humor e a ironia salpicam as páginas deste livro singular. “O que irrita ao demônio é a perda da criatura que se transforma em hóstia viva. Quer lutar contra isso. Prefere salvar-se disso no inferno. Deixa as pessoas viverem do jeito que dá, agradece os serviços a Deus como um profissional, igual que dispensamos a um bom funcionário de quem não precisamos mais. Mas…isto é intolerável, pensa o demônio, esse funcionário (Deus) continua do meu lado, quer me arrancar de mim mesmo! Por que não se contenta com um agradecimento cordial? Por que exige um amor inteiramente abandonado? Assim não dá”.

     “Os demônios conhecem todas as respostas concernentes à Doutrina, mas nada querem saber da aliança pessoal com Deus. São especialistas em reduzir a revelação a um moralismo ou a uma dogmática inerte. Tudo menos chegar ao ponto chave: o encontro com Cristo. Jesus não vem propor uma teoria perfeita, mas um encontro no nosso coração. A aliança com Deus exige esse desejo e essa intimidade pessoal com ele. Jesus poderia fazer baixar exércitos de anjos mais eficazes do que os melhores espertos em marketing operativo. Mas Ele não é um sedutor. Pode se forçar uma adesão intelectual; não se pode forçar um coração. Seu cristianismo se centra numa verdade abstrata e não na Verdade em pessoa. Realiza-se num saber e não num encontro. A verdade –dizia Kierkegaard- é uma pessoa e não um texto.” E surge nestes momentos a lembrança de Bento XVI, do teólogo Josef Ratzinger, quando afirma que a religião não é um conjunto de crenças ou de normas, mas o encontro com uma Pessoa, com Cristo. Um verdadeiro personalismo religioso.

     A fé dos demônios é subtil e apetitosa, tentadora, justamente por disfarçar-se com traços religiosos, místicos, até rígidos e intransigentes. “Não há um só dogma cuja exata verdade o demônio ignore. E isto o habilita para sugerir inúmeras heresias. Um bom gramático sabe como induzir a cometer todo tipo de faltas de ortografia, e um especialista em antivírus, sabe fabricar vírus implacáveis. A fé do diabo lhe permite sugerir-nos uma variedade indefinida de impiedades. Sabe como provocar desvios infinitesimais no homem que está convencido da sua superior retidão. Aproveita o combate à heresia para incitar outra no sentido contrário. E ainda conta com a sua melhor carta na manga: levar-nos a uma fidelidade tão estrita como a sua, isto é, desprovida de caridade.”

     A História está repleta de exemplos: as heresias, os desvios não são problema de cabeça, intelectual, mas de coração, de humildade, ou da carência da mesma. Já disse alguém que os erros teológicos, filosóficos, doutrinais são respostas equivocadas a problemas reais. O problema está ai, solicita uma resposta, mas a soberba é cega e perde-se o parâmetro de verdade, numa tentativa de responder a qualquer custo. Heresia, (hairésis em grego) é tomar partido. Escolher a parte da verdade que me convém, e deixar o resto; construir o meu próprio sistema. Mesmo com imensa boa vontade, mas sem escutar ninguém. (o que é muito típico do demônio). Um caminho trilhado inúmeras vezes, não só por grandes pensadores, mas pelos mortais comuns.

     O autor cita Lewis na conhecida obra “Cartas do demônio ao seu sobrinho”, quando sugere ao aprendiz de diabo que se empenhe em distrair o homem dos seus deveres elementares e o conduza para altos voos do espírito; que consiga fazer um exame de consciência de uma hora sem descobrir um só dos defeitos que são evidentes para qualquer um que more em baixo do mesmo teto, ou trabalhe no mesmo escritório. Quer dizer, a distração do que realmente importa. E também menciona Chesterton, quando fala das virtudes que enlouquecem convertendo-se em defeitos: “a justiça sem misericórdia, que se torna crueldade; a misericórdia sem justiça, que é laxismo; a humildade sem magnanimidade, que é preguiçosa modéstia, a magnanimidade sem humildade que é ativismo vaidoso….e finalmente, a verdade sem amor, que é a fé dos demônios , frente ao amor sem verdade, que é filantropia do diabo”

     A densidade teológica é permeada por exemplos e contrastes abruptos. “A fé se substitui por uma moda tingida de cristianismo. A fé dos demônios consiste em promover uma fé à medida da época, das necessidades e dos caprichos. O grande engano das nossas cristandades descristianizadas consiste em recuperar a compaixão e volta-la contra Cristo. Por exemplo, fazer abortar a Maria, afinal mãe solteira, de pai desconhecido. Mas cuidado também com os católicos tradicionais que lutam infatigavelmente contra o aborto e esquecem-se de anunciar a Graça que salva ao miserável (especialmente aquele que abortou), o que é celebrado no inferno”.

     O autor tem palavras singulares e carinhosas para os judeus, afinal o seu próprio povo, sua origem: “Os Judeus são sinal de irrupção da eternidade no mundo e no tempo. São o rastro da graça que sai do capricho de Deus. Por isso, até o final, serão escândalo para toda tentativa de naturalização da Historia. Isso explica porque os totalitarismos sempre se abatem especialmente sobre eles: não encaixam nos projetos humanos. Uma vez que o Verbo se encarnou, é preciso a presença de Israel? Não se rejeita o ventre que o gestou, nem se despreza o andaime que serviu para construir a obra. Nem os cristãos podem agir assim, nem os judeus podem se fechar em orgulho de raça, como se a sua eleição não fosse um dom de Deus. À globalização e a uniformidade –incitada por alguns- Deus resiste porque Deus não é propriedade dos cristãos”.

     E mais recados inseridos na modernidade, na comunicação virtual em tempo real. “Mais do que nunca, nestes tempos digitais de banda larga, é preciso insistir na permanente novidade que supõe a proximidade física na ordem espiritual. Não se trata de desprezar livros, jornais, multimídia, mas compreender que esses meios pesados, superiores quando se trata de vender mercadoria, são inferiores quando o que está em jogo é o testemunho da fé. Posso pregar a fé com propaganda massiva, em mundo visão. Mas é melhor pregar esse amor com proximidade corporal, porque a propaganda – eficaz na promoção de um slogan- resulta impotente para fazer com que alguém se encontre na presença de outro semelhante. Unicamente nossos braços limpos são apropriados para abraçar um irmão, unicamente nossas palmas nuas tem o poder de acariciar um rosto. É preciso que as nossas bocas abandonem os megafones para ser capazes de beijar”.

     A caridade é sempre o grande antídoto contra a subtileza e as variantes que se encerram na fé dos demônios. “Ao demônio não lhe incomoda reconhecer em Deus ao Criador; mas reconhece-lo como pai, isso de jeito nenhum. Especialmente depois da Encarnação, quando Deus se faz pai desses animais imundos que são os homens. Nada de participar dessa família, pensa o demônio”. E mais adiante acrescenta: “Nesse mandamento Ama a teu próximo, que desencadeou o ateísmo moderno, encontramos o demônio carregando as duas bandeiras: a dos que pretendem amar a Deus sem amar a seu irmão, e a dos que dizem amar os irmãos sem amar a Deus. De um lado, a teocracia inumana; do outro, o humanismo ateio”.

     Um par de citações clássicas de Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov, ilustram este importante ponto, pauta para reflexão: “Amo a humanidade, mas para surpresa minha, quanto mais amo a humanidade menos amo às pessoas em particular como indivíduos. Mais de uma vez sonhei com paixão servir a humanidade e talvez até teria subido ao calvário por meus semelhantes, embora não consigo viver com uma pessoa dois dias seguidos no mesmo quarto. Enquanto sinto que alguém está perto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e estorva minha liberdade. Em vinte e quatro horas são capaz de implicar com a melhor pessoa: ou porque fica tempo demais sentado à mesa, ou porque está resfriado e espirra”. “Tenho que confessar-te algo: nunca pude compreender como se pode amar ao próximo. Creio, que ao próximo é a quem não se pode amar; ao menos, somente se pode amar a distância”

     Um livro para ler, reler, estudar, e refletir. Os desdobramentos são muitos. As convergências sempre apontam para a caridade como defesa e superação da soberba, que é a verdadeira bandeira do demônio, e não o simples ateísmo. Caridade que se articula com Deus e com os homens: “Assim, o rosto visível remete ao rosto oculto na sombra e o amor ao outro está assegurado no amor a esse Outro que me permite no somente reduzir o outro a uma ambição minha, mas também dirigi-lo a ele mesmo e dirigir seu caminho para um gozo supremo”. Caridade que permite compreender, conviver, perdoar sempre: “Para perdoar de verdade e em profundidade, sem usurpar uma postura divina, é preciso que reconheça que eu também sou pecador, e um pecador bastante pior do que aquele a quem eu perdoo; bem porque pequei depois de receber o perdão de Deus, bem porque por uma graça especial fui preservado.” Enfim, um livro diferente, sugestivo, desafiador, oportuno porque faz pensar. Nos dias de hoje, toda uma novidade.

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  • Rodrigo Gurgel

    Caro Pablo: li esse livro, nessa mesma edição, há alguns meses. E, de fato, trata-se de um trabalho maravilhoso. Aliás, a Editorial Nuevo Inicio, do Arcebispado de Granada, está se especializando em publicar obras fundamentais. Se você gostou do Hadjadj, recomendo-lhe um amigo dele, Jean-Louis Chrétien, que escreveu “La mirada del amor”, publicado na Espanha pela Sígueme. Fraternal abraço!

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  • Henrique Argentieri

    Somente a partir de sua resenha do livro senti-me “machucado” com verdades tão claras do mundo moderno e da minha falta de caridade. Eis aí mais um livro que entrará na minha “wish-list”.
    Obrigado Pablo por compartilhar, principalmente neste mundo net onde as informações são amplas mas a sabedoria e confiabilidade de referências, escassas.

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