Susanna Tamaro: “Todo Ángel es terrible”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 19-07-2013

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Susanna Tamaro: “Todo Ángel es terrible”. Seix Barral. Barcelona (2013). 267 pgs.
Comentários da tradução espanhola do original “Ogni Agnelo é tremendo”. Não me consta que exista a tradução em português.

         Acabo este livro, e volto à primeira pagina para lê-lo novamente. Não é atitude frequente nas minhas leituras, mas a surpresa -o impacto, talvez- foi grande, e requeria um bis. Não é mais um livro de Susanna Tamaro, escritora que admiro e acompanho há muito tempo. É a própria Susanna, plasmada nas paginas da obra, de coração aberto, com sinceridade rasgada, agressiva, chocante. Sim, foi isso: o livro chocou-me porque as luzes e sombras –angústias e alegrias- com que salpica as personagens dos seus romances, desta vez se projetam numa única figura: ela mesma! Lembrei-me de um comentário familiar –na minha família, Tamaro é uma autora muito lida- quando alguém comentou que a escritora projeta nas suas obras os golpes da própria vida. Bingo!

         A primeira ideia que me ocorreu ao deparar-me com esta auto revelação foi que a leitura de toda a sua obra –livros conhecidos, magníficos- deveria ser feita partindo da perspectiva que aqui se oferece. Não carece de fundamento esta proposta, visto que a própria autora, no decorrer das páginas, evoca personagens dos seus livros, atrelando-os a figuras reais que se cruzaram na sua vida. E o caso da sua avó Elsa, que inspira outra avó, a questionadora que lida com uma neta rebelde no inesquecível Vá onde teu coração mandar . A avó Elsa foi de importância capital na vida da autora. “Se ela não se tivesse cruzado humildemente no meu caminho, não me teria salvado. Possivelmente ela também não. No mundo das individualidades ninguém se salva. É a misteriosa e gratuita dinâmica do encontro o que nos permite seguir adiante”.

         A descrição da infância –sofrida, não pelas carências materiais, mas pelas omissões afetivas- preenche mais da metade do livro. Desaparições dos seres com os quais conseguia travar alguma ligação afetuosa: o pai, que ia e vinha; uma babá que lhe dedicou muito carinho; o cachorro, os animais. De repente, desapareciam. E a mãe, que foi se transformando para sobreviver ao abandono e às infidelidades crónicas do marido, assumindo uma postura de total indiferença com os filhos. Uma infância rodeada de niilismo, sem sentido. “Na realidade –disse-lhe o pai um dia- estamos todos mortos. Somos apenas pó que se transforma. O vazio nos gera e a ele regressamos. Por isso, é inútil ter sentimentos”.

         As reflexões da mulher madura transpiram a tristeza da menina sensível que não encontrava carinho, mas frieza e vazio, como proteção dos golpes que a vida foi dando aos que tinha em volta, sobre tudo à mãe. “Começava a entender que existia um mundo na minha mente, e outro fora; e que esses dois mundos raramente coincidiam. Gostava dos jogos de meninos porque neles sempre estava presente a morte. E a morte, então, parecia-me a única garantia de verdade”.

         Para mim, que sempre ando envolvido com o tema da educação da afetividade – o desafio de trabalhar sentimentos e emoções para construir uma personalidade equilibrada- o livro foi uma enxurrada de ideias. Ou melhor, uma confirmação de que sem formação da afetividade (afinal, afetividade é o que realmente te afeta!) as insuficiências de caráter são tremendas. “Nessa idade desconhecia o nome dos sentimentos. Somente depois entendi que aquele estado de profundo sofrimento não era outra coisa que compaixão. Compaixão quando vi meu irmão cair cadeira por conta de uma bofetada; compaixão quando via meus pais sentados olhando para o vazio, ou quando, na rua via um ancião ou um doente”. Está claríssimo: não basta sentir, é preciso entender o que se sente, digeri-lo. E para isso, precisamos de alguém que nos ajude e leve da mão.

         A indigestão emotiva levou Susanna a fechar-se e tentar sobreviver. Notável a descrição que faz –verdadeira confissão fenomenológica- de como se transformava numa criança iceberg (sem sentimentos), ou se refugiava na fossa das Marianas (12 km de profundidade, onde há paz e luminosidade), ou se metamorfoseava numa menina de pelúcia, suave, para absorver os golpes. Não os físicos, mas os que lhe chegavam em forma de dúvida, de perguntas –sempre foi uma perguntadora incansável- que nunca tinham resposta. Essa é a verdadeira origem da sua produção literária: “Todos os livros que escrevi são uma profunda viagem ao coração do homem, o continente mais complexo, desconhecido e fascinante que podemos explorar. Todos os meus livros atravessam a escuridão, não por prazer, mas para descobrir o ponto onde, repentinamente, misteriosamente, podem se transformar em luz. Todos os meus livros exploram o território da inquietude e da confusão, porque somente no momento em que somos conscientes de não ter um caminho, começamos de verdade a buscá-lo. Somente quando se aceita a inquietude como princípio básico, penetra-se realmente na humanidade”.

         Lembro-me de um pensamento que me impactou quando li Vá onde teu coração mandar, e que, resumidamente, afirmava que somente o homem tem rosto. O leão tem cara de leão, o antílope cara de antílope, mas apenas o ser humano tem rosto. E nessa individualidade carrega também a historia dos seus antepassados –os bons e os maus- que de algum modo orientam o existir desse novo ser. O tema é recorrente em Tamaro, e aparece nas primeiras páginas desta memória vital que agora nos ocupa: “Somente alguns pais ingênuos acreditam que um recém-nascido chega ao mundo como uma tábula rasa. Ele carrega também a historia dos seus pais, dos seus avós, dos progenitores, que é a historia das suas eleições, das conquistas, dos erros, mesquinharias e grandezas”. Sem determinismos históricos ou genéticos, mas sem cair na tolice de ignorar que, querendo ou não, cada um é também produto do seu ambiente familiar.

         A família é, sem lugar a dúvidas, outro dos temas preferidos da autora. E fala do tema como quem o tem muito experimentado. “Uma família. Que enorme desejo o das crianças de viver esta realidade. Nestes últimos anos foi crescendo a ideia de que uma família não é tão importante para as crianças. Pais, mães, companheiros, meio irmãos, avôs, podem formar um pano de fundo alegre e inócuo. Na realidade, penso que isso é uma mentira enorme que se utiliza para acalmar as consciências. É verdade que as crianças se adaptam a tudo e encontram a maneira de sobreviver, mas no fundo do seu coração somente desejam uma coisa: um pai, uma mãe, que de preferencia se amem, e a ser possível, irmãos”. Um recado oportuno para os tempos que vivemos, onde se quer denominar família qualquer ajuntamento com as variações que o capricho sugere, mesmo repleto de aparente boa vontade.

         Nestas reflexões surgem aspectos de aversão à religião que, confesso, não esperava de Tamaro. Lembranças de convencionalismos que não entendia – e ninguém lhe explicava. E, especialmente, a revolta ao enfrentar-se com um Deus indiferente à dor dos animais, que manda sacrificar o próprio filho. Na verdade é fácil deduzir a quase impossibilidade de ver Deus como pai, quando na própria carne não se experimenta o que venha a ser o amor de um pai, de uma mãe, do conforto do carinho no lar. Por isso, confessa já avançado o livro: “Empreguei grande parte da minha vida em livrar-me do veneno que me foi inoculado”. O veneno da indiferença, da ausência de amor, paralisante, que também lhe fechava as portas ao amor transcendente.

         Nos capítulos finais do livro, Tamaro relata a sua vocação profissional como escritora. Uma vocação que ela nunca teve muito clara e, como alguém lhe apontou numa entrevista, a sua historia seria a de uma mulher que, no fundo, não queria escrever. “Vivi sempre na total incerteza da minha criatividade. O fato de ter publicado vinte livros não muda nada esta condição, que está feita de insegurança, inquietude e perplexidade constante sobre o caminho justo a seguir. Nunca considerei a escritura como um passatempo, como uma profissão. A verdadeira escritura encontra-se em outro lugar, no coração das trevas do homem. A paixão pelas ciências naturais é a raiz profunda da minha escritura. Por trás de cada frase encontra-se a lentidão e a serenidade do entomólogo. Observo e interrogo. Faço perguntas e pergunto à realidade que me cerca”.

         Na verdade, os escritos são a decorrência da sua verdadeira vocação que é o desejo profundo, visceral, de contar historias. Começando pela própria. E contando sua historia encontra o sentido, a reconciliação, o perdão. Emocionante o que anota a respeito do perdão que outorga à mãe: “Deveria odiá-la pelo modo como me tratou, mas escolhi o caminho mais longo e difícil do perdão. O ódio é um veneno do qual é preciso liberar-se, porque nele não há nenhuma possibilidade de que surja a vida. Penso que a minha mãe agradeceu que eu não a julgasse: não sentir-se julgada lhe permitiu abrir um espaço para o amor, para aquilo que gostaria de ter sido e não foi capaz de ser”.

         Reconciliar-se com a mãe, com o pai, com a sua própria vida. E também com Deus, que enxerga como luz, como verdade. Uma verdade que implica numa postura sincera para reconhecer as próprias misérias: “O mal tem uma natureza volátil, ligeira, inodora e invisível, penetra por todas as partes sem esforços e invade as pessoas sem que reparem. Da ausência da contemplação interior nasce o recurso ao bode expiatório. O mal não está em mim mesmo, mas no outro, por isso é preciso persegui-lo e eliminá-lo. Não é esta a gênese de todas as formas de destruição humana? Bastaria com dirigir honestamente o olhar para o nosso interior para advertir que é inútil tentar liquidar o bode expiatório.”

         Eis um sugestivo roteiro para um exame de consciência franco, sem complicações. Sem colocar a culpa nos complexos gerados pelas deficiências de formação, terceirizando a culpabilidade. Neste sentido é muito ilustrativo o que a autora comenta do seu contato com a psicanálise –como forma de fugir à própria responsabilidade moral- e o contundente comentário que James Joyce (amigo da sua família) fez ao seu tio Ettore (escritor que usava o pseudónimo de Italo Svevo), a este respeito: “Se verdadeiramente o necessitamos, conservemos a confissão”.

         Contar histórias é também uma catarse das emoções. E Tamaro, como nos confessa no presente livro, já contou sua história de modos variados, em muitas das suas obras. Agora o faz diretamente, sem personagens fictícios. Uma conquista da escritora que jamais escreveu por encargo, que nunca tem certeza de se escreverá um novo livro, que vive em permanente questionamento. Susanna Tamaro conta histórias para entender o ser humano, para entender-se a ela própria, e nesse processo nos arrasta a todos os que entendemos o questionamento como um motor para viver. Para sentir-nos vivos.

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