João Guimarães Rosa: “Primeiras Estórias”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 10-06-2014

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João Guimarães Rosa: “Primeiras Estórias”. Ed Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2001.

guimaraes_rosa_primeiras_estorias     Ler Guimarães Rosa é sempre uma aventura pessoal, um envolvimento. Saborear os pensamentos que embrulham as personagens, salpicando narrativas e paragens. Sem a urgência de querer entender tudo, num simples degustar. Porque a estética carece de serenidade, de contemplação, desse tempo que hoje não queremos ter porque nos urge estar muito ocupados com o vazio. Somente a calma nos permite sintonizar com os relatos do escritor mineiro, que têm uma topografia agridoce, sumidas na circuntristeza. “Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia; isto era: já o vir da noite. Porém, o subir da noitinha é sempre sofrido assim. O silêncio saía de seus guardados”.

Saborear e refletir, para encontrar as raízes, crescer em conhecimento próprio. Se eu conseguir recordar, ganharei calma, se conseguisse religar-me: adivinhar o verdadeiro e real, já havido. E, lá dentro de nós, descobrir que nem sempre somos como gostaríamos, ou como nos apresentamos. A reflexão perfura o marketing que fazemos de nós mesmos, deixando-nos nus, expondo a realidade, onde se agita a maligna astúcia, da porção escura de nós mesmos, que tenta incompreensivelmente enganar-nos ou, pelo menos retardar que perscrutemos qualquer verdade.

Degustar com vagar o pensamento evocado, para aprender a ser feliz, a valorizar o que temos sem perder-nos em sonhos ou quimeras. A gente nunca podia apreciar, direito, mesmo, as coisas bonitas ou boas, que aconteciam. Às vezes, porque sobrevinham depressa e inesperadamente, a gente nem estando arrumado. Ou esperadas, e então, não tinham gosto de tão boas, eram só um arremedado grosseiro. Ou porque as outras coisas, as ruins, prosseguiam também, de lado e do outro, não deixando limpo lugar. Tremenda atualidade nestes nossos tempos onde tudo o que se escuta é queixa, lamúria, reclamação. Difícil é encontrar um elogio otimista, sincero, quase ingênuo, mas que é sábio porque entende que quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

O egoísmo fechado em si mesmo, atarefadíssimo –o egoísta está sempre muito ocupado- não abre espaço à solidariedade, á observação carinhosa que se esforça por entender o padecimento alheio: A Mãe e o sofrimento não cabiam de uma vez no espaço de instante(..) O que se consumia de comer era só um quase. E a compaixão que resulta dessa observação: para o pobre os lugares são mais longes.

Somos, como diz o escritor, gente que não presta, que vive em estreita desunião. A verdade é que vivemos de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes. Da ternura, da serenidade, da paz. Quem sabe ler Guimarães Rosa nos cutuque para buscarmos as prioridades da vida.

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