G.K. Chesterton: “Ortodoxia”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 06-12-2014

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G.K. Chesterton: “Ortodoxia”. Ed Mundo Cristão. São Paulo. 2007. 263 pgs.

Chesterton - Ortodoxia     Desta vez foi sugestão de um amigo incluir um capítulo de Ortodoxia na nossa reunião mensal onde tratamos temas de atualidade.  Mais do que uma reunião é  uma conversa com troca de impressões: aquilo que os intelectuais denominavam tertúlia, logicamente com café incluído.  E como ler um capítulo implica situá-lo no contexto, debrucei-me novamente sobre o clássico de Chesterton.

     Longe de mim fazer aqui um resumo desta obra que é a trajetória biográfica e de conversão do escritor inglês. Se não se deve isolar um capítulo, menos ainda pode se apresentar uma versão reduzida deste importante escrito. Os conversos ingleses são assim: quando entendem que devem justificar –para o mundo e, principalmente, para eles mesmos- sua mudança de rumo ao encontro com a fé, escrevem uma obra seminal: basta lembrar a Apologia pro Vita sua, do Cardeal Newman. E, em outro sentido, o De Profundis, de Oscar Wilde. Por tanto, nada de resumos; apenas um modesto comentário.

     O tom irônico e sincero de Ortodoxia é introduzido no prefácio desta edição. Lá se comenta que certa vez o jornal London Times pediu a alguns escritores que respondessem à pergunta: “O que é há de errado com o mundo?” Chesterton enviou a resposta mais sucinta. “Prezados Senhores: Eu. Atenciosamente. G.K. Chesterton. Este é o perfil do escritor inglês, e o seu propósito: vamos corrigir o que está errado comigo, sem gastar energias em criticar os outros.

     As críticas –que existem- são apenas decorrências, um efeito colateral, que se dirige aos que como o próprio escritor se obstinavam em ideias preconcebidas, sem estar abertos à mudança. “Existe algo mais limpo e mais arejado fora do sufoco de um único argumento….Por exemplo, o homem que suspeita que conspiram contra ele, se lhe poderia dizer: Admito que sua explicação esclarece muitos fatos; mas quantos outros ficam de fora! Não há nada no mundo, outras histórias além da sua? Todos os homens estão ocupados com a sua ocupação?”. Atitude esta que vem representada por aquela frase –parece-me que de um filósofo americano: ‘quando o que você tem nas mãos é um martelo, todo problema apresenta-se como um prego’. Aqui encaixa bem a conhecida –e densa- afirmação de Chesterton do que venha a ser a loucura. “O louco –que é aquele que perdeu tudo menos a razão- está na limpa e bem iluminada prisão de uma ideia só: é afiado num só doloroso ponto. Está desprovido da sadia hesitação e sadia complexidade”.

     O gosto pelas coisas simples e corriqueiras perpassa toda a obra. Tomar o mundo como ele é, e viver com espírito de aventura.  “Quase todas as pessoas concordam que precisamos dessa vida de romance prático; a combinação de alguma coisa que é estranha com alguma coisa que é segura. Precisamos ver o mundo de tal modo que nele se combine uma ideia de deslumbramento com uma ideia de acolhimento. Precisamos nos sentir felizes nessa terra deslumbrante sem nunca nos sentir meramente confortáveis”.  É nessa alegria de viver onde também Deus atua; somos os homens, os que complicamos as coisas, afastamo-nos de Deus, perdemos a alegria.  “Deus é forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: ‘Vamos de novo’; e todas as noites à lua: ‘Vamos de novo’. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de cria-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; nós pecamos e ficamos velhos, mas Ele é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um bis teatral”.

     A monotonia da rotina consiste não em fazer as coisas de sempre, mas fazê-las como sempre: e Deus consegue ser original naquilo que os homens, curtos de vista, consideram monótono. A ansiedade pela mudança é próprio de quem não sabe desfrutar das rotinas diárias, com a mente aberta, saboreando os momentos. Esta postura otimista é marca registrada de Chesterton, e perfila seus comentários irônicos:  “Restringir-se a uma única mulher é um preço pequeno diante dos simples fato da visita  a uma única mulher. Queixar-me de que eu só poderia casar-me uma vez era como queixar-me de ter nascido uma só vez. Era algo desproporcionado em relação à emoção terrível de que se estava falando. Louco é quem se queixa de não poder entrar no Éden por cinco portas ao mesmo tempo”

     A educação realista, que foge de qualquer teoria, focada na natureza humana, é também tema amplamente abordado. “No momento em que se entra no mundo dos fatos, entra-se no mundo dos limites. Pode-se libertar as coisas de leis externas ou acidentais, mas não das leis da sua própria natureza(…) Falamos de animais selvagens; mas o único animal selvagem é o homem. Foi o homem que se evadiu. Todos os outros animais são domésticos e seguem a inflexível respeitabilidade da sua tribo ou espécie. Todos os outros animais são domésticos; apenas o homem é sempre indômito, seja ele um devasso, seja ele um monge”.  Está ai delineada a grande aventura da liberdade humana: entende-se porque diante do mesmo estímulo existem respostas heroicas e mesquinhas; o homem não é doméstico (formatado de fábrica, diríamos hoje) mas utiliza a liberdade que lhe permite ser herói, santo,  ou  perverso.   “É fácil ser louco; é fácil ser herege, ou modernista, ou snobe. É fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça”. Educação que começa na infância, onde se dão as cartas e se traça o destino do homem:  “Um menino só é enviado à escola quando já é tarde demais para lhe ensinar alguma coisa. A verdadeira educação já está pronta, e graças a Deus ela é quase sempre feita por mulheres”.

     Pertence a Ortodoxia o conhecido capitulo Os Paradoxos do Cristianismo, onde o autor comenta como foi reparando que as críticas dirigidas à Igreja originavam-se por motivos contrários, e simultâneos: assim a mansidão e falta de coragem por um lado, e promover as guerras do outro. Mas o que ele descobre é que a Igreja mantém as cores vivas, mesmo sendo antagónicas e opostas: a grandeza e a miséria do homem. Cores brancas e vermelhas como no escudo de S. Jorge, porque tem um ódio sadio pelo rosa…ou pelo cinza. Não é uma simples apologia, mas também uma crítica ao comportamento de alguns cristãos que deformam a verdadeira fé.  “Quando um sistema religioso é estilhaçado, não são apenas os vícios que são liberados. Os vícios são, de fato, liberados, e eles circulam e causam dano. Mas as virtudes também são liberadas, circulam mais loucamente e causam um dano mais terrível O mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas uma da outra e estão circulando sozinhas”.  E conclui:  “O cristianismo, mesmo quando diluído, é forte o suficiente para reduzir toda a sociedade moderna a trapos. O simples mínimo da Igreja seria um ultimato mortal para o mundo”.

     No final fala da alegria, que é a bandeira do cristão. Uma alegria do conjunto que sabe passar por cima detalhes e dificuldades. “Reparei que os pagãos eram infelizes acerca da totalidade dos fatos, e alegres no demais. Os cristãos, viviam em paz com a totalidade dos fatos e estavam em guerra com tudo o demais”.  Uma alegria que , afirma, é como uma carta na manga que Deus tem.  Um Deus que pisou na terra e não nos ocultou as lágrimas, nem a sua ira. Mas ocultou a tremenda alegria, porque a frenética energia das coisas divinas nos derrubaria sem remédio. Um silêncio, uma timidez de Deus, como o silêncio que se respeita no quarto de um doente: somos pouca coisa para conter toda a alegria de Deus”. Este é o otimismo avassalador de Chesterton, plasmado nesta importante obra. Uma perfeita descrição do seu curso vital, de um caminho que quis construir como sendo uma dissensão, uma heresia, e resultou na Ortodoxia que agora temos nas mãos.

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