Guimarães Rosa: “A hora e a vez de Augusto Matraga”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 12-12-2014

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Guimarães Rosa: “A hora e a vez de Augusto Matraga” (Sagarana). Liv. Jose Olympio. Rio de Janeiro, 1958

A-hora-e-a-vez-de-augusto-matraga     Dando sequência aos livros “sob encomenda”, esta vez toca glosar à conhecida obra de Guimarães Rosa. O cenário foi um clube de leitura incluído num projeto de longevidade liderado por um hospital de São Paulo onde trabalhamos. Promovem-se atividades físicas e intelectuais -e naturalmente prevenção em saúde- para pessoas da terceira idade. Qualificação esta –a de terceira idade, se entende- que me desgosta, não apenas porque devo estar próximo a ser incluído nela, mas porque não quer dizer absolutamente nada. Afinal, o que conta é a vontade de viver e a sabedoria com que se gasta a vida, a idade é apenas um detalhe. Ai está o nosso Augusto Matraga que é um bom exemplo de que a sabedoria –encontrar a hora e a vez de cada um- não tem idade.

     Tinha lido o livro anos atrás. Mais de uma vez. O resumo que minha mente arquivava era algo assim como “uma apologia da mansidão” unida à aquela frase inesquecível: “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!”  Esquecera os detalhes –que agora pude saborear novamente- mas no meu íntimo, a historia do jagunço estava atrelada à passagem bíblica que louva o homem paciente “que por dominar o seu ânimo vale mais do que o conquistador de cidades”. O homem paciente;  mas decidido e focado: “Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal. …..E a minha vez há de chegar….”

     Agora, numa agradável tertúlia de veteranos, a maioria senhoras que exercem de avós, discorríamos sobre as aventuras do Augusto Matraga. Aprontou todas, não respeitava filha nem mulher de ninguém, matava quase por prazer, a até a própria família trazia no esquecimento. A mulher, Dionora, “amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas, e o suportara os demais”. Quando li essa frase, levantei a vista e vi o sorriso compreensivo da plateia, como afirmando ‘esse filme eu já vi antes’.

     Matraga apanha uma surra tremenda dos que eram outrora seus capangas, está à beira da morte, e mais morto do que vivo é cuidado pelo casal de pretos que lhe ajudam a sarar….E a pensar, a refletir. Gostaria de estar morto, mas o afetuoso cuidado da mãe Quitéria lhe traz à realidade. “Mesmo assim, com isso tudo, ele disse a si que era melhor viver. Bebeu mingau ralo de fubá, e a preta enrolou para ele um cigarro de palha. Em sua procura não aparecera ninguém. Podia sarar. Podia pensar”.

     Bela pedagogia, a do carinho, que é o que mais arrasta, o que nos tira do fundo do poço das próprias misérias. Algo do qual carecemos nos dias de hoje. Sobram arengas e discursos, promessas e imposições, mas falta o carinho que facilita a retificação da conduta equivocada. O tempo e o amor catalisam a mudança de Augusto. “Esfriou o tempo, antes do anoitecer. As dores melhoraram. E, ai, Nho Augusto se lembrou da mulher e da filha. Sem raiva, sem sofrimento, mesmo, só com uma falta de ar enorme, sufocando. Respirava aos arrancos, e teve até medo, porque não podia ter tento nessa desordem toda, e era como se o corpo não fosse mais seu. Até que pode chorar, e chorou muito, um choro solto, sem vergonha nenhuma, de menino ao abandono. E, sem saber e sem poder, chamou alto, soluçando: Mãe, mãe”.

     Mãe Quitéria canaliza o desespero para águas seguras: “Não faz assim, seu moço, não desespera. Reza, que Deus endireita tudo. P’ra tudo Deus dá o jeito”. E chama o padre que facilita o arrependimento, e lhe mostra o caminho das pedras:  “Você nunca trabalhou, não é? Pois agora, por diante, cada dia de Deus você deve trabalhar por três, e ajudar os outros, sempre que puder. Modere esse mau gênio; faça conta que ele é um poldro bravo, e que você é mais mandante do que ele… Peça a Deus assim, com esta jaculatória: ‘Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso”.

     Matraga está determinado a mudar, e aplica-se o conselho com afinco. “Sempre saia para servir aos outros, quando precisavam, ajudava a carregar defuntos, visitava e assistia gente doente, e fazia tudo com uma tristeza bondosa, a mais não ser. Até que , pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela”

     É pretensão inútil sintetizar a fantástica descrição que neste ponto o escritor mineiro faz da mudança do clima acoplada à mudança do estado de espírito do protagonista. Uma prosa poética que delineia a transformação. Somente lendo. “Não tinha precisão de enxotar as tristezas. Não pensava nada. Então tudo estava mesmo muito mudado, e Nho Augusto, de repente, pensou com a ideia muito fácil, e o corpo muito bom. Quis se assustar, mas se riu: Deus está tirando o saco das minhas costas, mãe Quitéria. Agora eu sei que ele está se lembrando de mim”.

     Lembrei dos meus pacientes deprimidos, quando começam a melhorar, a ver o mundo colorido novamente.  Lembrei da alegria que tive o privilégio de contemplar nas conversões de alguns amigos; e por lembrar , até lembrei dos místicos, de Teresa de Ávila –estou relendo uma biografia dela neste momento- e do contentamento com que são inundados quando, com uma determinada determinação seguem os amores mais altos.  E pensei –mais uma ver- se o nosso carinho –diário, habitual, aquele que se manifesta no esforço por ouvir, no detalhe- está realmente à altura dos sinceros desejos de mudança que todo homem encerra lá dentro. Esses foram, entre outros, os meus pensamentos. Os comentários que chegaram da distinta plateia –todos nós temos um Augusto Matraga dentro, diziam- são ainda melhores. Mas é impossível descrever. Somente estando lá para ver, para ouvir, para refletir.

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