Harper Lee: “O Sol é para Todos”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 17-08-2015

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Harper Lee: “O Sol é para Todos”. José Olympio Ed. Rio de Janeiro, (1988). 363 pgs.

o sol é para todosMais uma vez, as tertúlias literárias mensais brindam uma oportunidade ímpar. Não apenas para reler o clássico de Harper Lee, mas sobretudo para comentar, compartir, escutar e mergulhar nas reflexões que a boa literatura desperta.  Tudo pautado por uma primorosa tradução, até o ponto de que, em se desconhecendo a origem do texto, facilmente passaria por vernáculo. Não é pouco o mérito, pois com bastante frequência nos defrontamos com traduções que afastam do original, até repelem. Nesta ocasião, a viveza e agilidade, principalmente do linguajar da protagonista, é tremendamente verossímil. O mundo visto pelos olhos de uma criança de 8 anos impregna-se de expressões acordes ao sentir verde-amarelo.

A criança é Scout, garota precoce, o miolo do romance. Pensei –inevitável- em Mafalda, e até me perguntei sobre a possível influência no cartunista argentino, Quino, criador da personagem. Uma breve pesquisa aponta que Mafalda aparece em 1962, justamente um ano após Harper Lee ganhar o prêmio Pulitzer com o romance que agora nos ocupa. Evidentemente, são apenas conjecturas. Mas servem para nos situar.

A tertúlia literária caminhou por rumos inesperados. Houve quem disse que, já passados os 60, continuava a sentir-se como Scout, porque tinha uma criança dentro que sempre se esforçava em escutar. É o entusiasmo da criatividade, de querer fazer um mundo melhor, não apenas ingenuidade mas o desejo maduro de quem sabe possuir essa capacidade de provocar mudanças. Também houve quem comentou que depois de ter lido o livro várias vezes, somente agora reparou que Atticus Finch, o advogado pai de Scout, lembrava-lhe o próprio pai.

A figura de Atticus é todo um ensaio sobre a integridade, um tomar consciência do próprio papel no mundo, uma apologia da liderança serena. Atticus é um cavalheiro, conquista com a sua atitude toda a população da cidadezinha de Maycomb, no estado do Alabama, e os próprios filhos que se orgulham dele. Não usa armas “porque Deus lhe concedeu uma vantagem desleal sobre os outros seres vivos, a sua pontaria. E as pessoas sensatas nunca se orgulha de seus dotes naturais”.

Sensatez, esta, pouco comum como mostraram os animados comentários que pude escutar. As pessoas, não apenas se orgulham dos seus próprios dons naturais (que receberam de graça, vindos da fábrica) como têm inveja dos dons dos outros. Invejam-se os olhos verdes, o cabelo, a inteligência ou habilidade manual, a memória…esquecendo que quem a possuiu não tem nenhum mérito, foi lhe dado de graça. No entanto, quando se trata de virtudes –a sinceridade de fulano, o cumprimento dos deveres, a diligência em levantar-se da cama de fulana- o comentário é isento de inveja, como se não houvesse mérito envolvido. “Ela é assim, sempre levanta na hora, sempre diz a verdade, nunca se queixa”. Falso: ninguém nasce pontual, ou sincero, ou honesto. É algo que se conquista com esforço. Esquecemos disso, isentamo-nos do esforço em imitar as virtudes alheias e continuamos a invejar a cor dos olhos.

As atitudes de Atticus, sempre amplificadas pelo olhar perspicaz de Scout, são um continuo desafio. Com persistência, vai até o fim. Com realismo, sem adiar os compromissos num falso sentido de transcendência que é verdadeira preguiça, sem fugir das obrigações: “Existem pessoas que se preocupam tanto com o outro mundo, que nunca aprendem a viver neste.” Já disse alguém que a felicidade na outra vida é para quem soube ser feliz nesta. Com coragem: “Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo”.  E justamente o prestígio de Atticus e o crédito que tem diante de toda a cidade, “o que lhe da permissão para fazer o que eles próprios temem fazer….Porque poderiam ter algum prejuízo”. Atticus faz o trabalho sujo, quer dizer, o limpo, o que eles tem vergonha de fazer.

Contemplar as atitudes de Atticus no contexto da média de idade da nossa tertúlia literária, leva os comentários até o ponto inevitável: o modelo dos mais velhos para formar os jovens. O exemplo que forma….ou deforma. Lembramos de uma breve palestra de um educador britânico onde destaca o verdadeiro papel dos formadores. Este professor vive na Califórnia, perto do local conhecido como o vale da morte. Chama-se assim, porque nada cresce lá. Mas há alguns anos, houve chuvas abundantes no inverno e na primavera subsequente o vale apareceu atapetado de flores. O vale não estava morto, apenas dormia. A metáfora desemboca na conclusão desafiadora: o que um educador, um formador, um líder tem de controlar não são os resultados, nem os curriculum, nem os programas….O que tem de controlar é o clima. Dai as pessoas florescem.

Controlar o clima, grande desafio. E um desafio que cansa –também se deixou escutar a queixa- porque parece que ninguém liga para o controlador de clima que, incansavelmente dá o seu melhor. Um dia após o outro, sem desfalecer, ciente da sua missão, com esperança no desabrochar das almas que estão à sua volta.  Quando cansados nos omitimos, não conseguimos visualizar de imediato o prejuízo. É o que Atticus adverte: “O instinto dele ainda não foi reprimido. Mas deixe-o crescer um pouco mais, e ele não se sentirá mal, nem chorará. Talvez ache que as coisas não estão….muito certas, digamos, mas não irá chorar, não quando ficar alguns anos mais velho”. Será terreno baldio, morto, e nem dará por isso.

Mas quando nos mantemos na missão de controlar o clima, acontecem os milagres com o passar do tempo. É a maravilhosa cena onde Scout vira o jogo diante de uma roda de homens furiosos decididos a linchar um negro. A menina desmonta-os com a sua simplicidade, e deixa o pai boquiaberto, literalmente. São as flores que crescem amparadas por um clima favorável:  “Foi preciso  que uma criança de oito anos os trouxesse à razão. Isso prova uma coisa: uma malta de animais selvagens pode ser detida porque seus membros ainda são humanos. Talvez precisemos de uma força policial formada de crianças,….Aquela turma foi-se embora não porque fossem pessoas razoáveis, mas porque estávamos lá. Existe alguma coisa em nosso mundo que faz os homens perderem a cabeça, ele não conseguiriam ser justos mesmo que tentassem”.

Belos resultados, que nos estimulam a manter-nos firmes na missão. Controlar o clima, promover o bem. Bela lição de casa para desenvolver, à espera da próxima tertúlia literária. Como sempre, os comentários da tertúlia foram muito além do livro, em liberdade maravilhosa de criação. Mas afinal, é disso que se trata. Isso é o verdadeiro humanismo.

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