Leon Bloy: “A Mulher Pobre”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 23-10-2015

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Leon Bloy: “A Mulher Pobre”. Ed Ulisseia. Copyright by Mercure de France, 1972. 264 pgs.

a-mulher-pobreEnfrentei esta novela que um amigo me emprestou, com curiosidade armazenada de muitos anos. Todos os meus conhecimentos sobre Leon Bloy vinham de um magnífico livro que li há mais de 30 anos: “As Grandes Amizades”, de  Raissa Maritain. A autora lá  descreve as tertúlias inesquecíveis em Paris, em casa de Leon Bloy, rodeado de pensadores, filósofos e humanistas, muitos deles conversos. Como os Maritain, como o próprio Bloy.  E lá também se fala de La Femme Pauvre, como um primeiro contato com Bloy, que era o mestre e mecenas do grupo.

Disse enfrentei porque não é um livro fácil. O idioma –português de Portugal- é excessivamente rebuscado. O tema é denso, direto, contundente, explicitamente apologético, como é próprio de muitos dos escritos emanados dos conversos. Um enfrentamento quase maniqueísta entre o mal e o bem, entre a miséria e a santidade. “Sem Barrabás não há Redenção. Deus não seria digno de criar o mundo se houvera esquecido no nada a imensa Canalha que um dia o havia de crucificar”. É um modo de ver o mundo que sem deixar de ser real, carece de ternura. Prefiro o pensamento de Unamuno que vem dizer o mesmo, mas com notada elegância: “Não há maior humildade que a de um Deus que cria o mundo, e depois cria o homem para que lhe critique”.

É compreensível que aqueles que trilharam caminhos variados até a conversão, e sentiram na sua carne o compromisso da ruptura com sua anterior trajetória, não se permitam diálogo com posições dúbias. Dai a crítica contumaz à mediocridade: “Era religiosa, está visto, porque é indispensável ter uma pitada dessa coisa quando se é “gente de bem”; mas era uma religião razoável, já se deixa ver, sem exageros nem fanatismos”. Uma crítica que celebra os descalabros de quem vive pactuando com o erro: “Os factos são inexoráveis; não se apiedam; e o próprio esquecimento –se pudéssemos lograr- não poderia aniquilar o seu testemunho acabrunhante”. Compreensível, desculpável no contexto em que viviam, mas nem sempre atrativo.

Se o modo em que se critica o vício e a miséria quase incomoda, o elogio da virtude converte-se num panegírico sem medida. A protagonista, a mulher pobre, sempre pontual e submissa –os pobres são pontuais, sublinha Bloy- embebida em virtude que transforma os que dela se aproximam. Um predicado que se destaca sem nenhum pudor: “Quanto mais uma mulher é santa, mais ela é mulher”.

A descrição da conversão de um dos personagens, fala por si só. Sentindo-se repleto de misérias pela vida passada, acolhe-se àquela que virá a ser sua esposa. Ela o consola e lhe traça o plano a seguir, sem hesitações:  “Escuta-me agora, meu amor. Amanha irás ter com um pobre sacerdote que te vou dizer. Ele tem o poder de arrancar do teu peito esse velho coração que tanto te faz sofrer e de te dar um coração novo. Depois, se andares ligeiro, quem sabe? Receberemos talvez o sacramento do matrimônio antes que tenham recolhido as últimas bandeiras e se tenham apagado as últimas luminárias”. Estes dois seres como já não há casaram-se, com efeito, uma semana mais tarde. Leopoldo, logo após o seu matrimônio com Clotilde, passou por incríveis transformações. Os seus modais, as suas atitudes, o seu próprio rosto se modificaram. Entrara para a vida conjugal como um corsário ajoujado de despojos no botequim dum cambista….e recebera em troca um córrego de ouro muito puro que só refletia um único rosto. Depois, aquilo que se convencionou chamar a Vida retomou tranquilamente o seu caminho”.

Fecho o livro e reflito. A trama é boa, a história destila valores. Mas falta-lhe o crédito para circular no nosso meio, alcançar divulgação. Talvez seja a linguagem difícil, talvez  o contraste entre o mal e o bem em estado quase puro. Ou talvez sejam as circunstâncias: os interlocutores que temos à volta, não são precisamente os frequentadores da casa de Leon Bloy no Paris do início do século XX.

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