Cesar Vidal: “El Médico de Sefarad”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 11-01-2016

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Cesar Vidal: “El Médico de Sefarad”. Debolsillo. Madrid. 2004. 330 pgs.

el medico de sefaradEis um livro ameno, escrito em espanhol, mas de simples compreensão. Por isso anoto estas linhas em português, para animar o leitor brasileiro a se defrontar com a vida de Moises bem Maimon, conhecido como Maimónides. Ele é o médico de Sefarad, (Espanha em linguagem judaica) nascido em Córdoba, apaixonado pela sua terra, que foi obrigado a abandonar.

O autor romanceia a vida de Maimónides, filósofo e médico, homem profundamente religioso, que pratica uma medicina cientifica, e ao mesmo tempo carismática e confessional. Sabe-se instrumento de Deus, mas entende que o instrumento tem de estar bem calibrado para ser útil. Uma atitude profissional onde se une o humano e divino, de modo natural, quase fisiológico.

Talvez por isto, enquanto passava as páginas do livro, lembrei de um amigo médico, também oriental, que em certa ocasião me perguntava porque os ocidentais separamos a medicina em alopatia, homeopatia, praticas alternativas, etc. Para nós –dizia ele- a Medicina é uma coisa só. E eu penso agora se teremos de fazer uma viagem ao século XII para resgatar o que perdemos com a metodologia cartesiana na prática da medicina. E a dimensão também divina que nos foi confiada.

Seriedade profissional e estudo é algo que Maimónides não dispensa. “Aprender é uma das atividades mais nobres que podem experimentar os homens.  Os animais não contam com essa possibilidade, os anjos também não. Por ser algo exclusivamente humano exige disciplina e esforço. Quem não este disposto a pagar esse tributo nunca deveria aproximar-se da mesa da sabedoria”. Mas tudo temperado com empatia, com verdadeira dedicação compassiva para com o paciente: “Passei um pano branco na testa dela e sorri. Sei que os dois gestos não servem para nada, salvo para fazer sentir à parturiente que não está só”.

Compaixão e compreensão da pessoa que perpassa capilarmente sua filosofia e sua prática médica.  “Nada permite encontrar uma lógica no amor. Os homens encontram salgada o sal, doce o mel, mas quando falamos do amor percebemos que uma pessoa desejada por alguém, pode ser repulsiva para outro  (…) Amar o que é amável é próprio dos homens (dos filhos de Adão, diz ele literalmente) mas amar o que não é digno de ser amado somente pode derivar de uma faísca maior ou menor do amor de Adonai”. Para Maimónides está claro que sem ajuda divina não é possível amar ninguém como merece, nem cuidar dele medicamente.

Amor e conhecimento se fundem maravilhosamente na vida deste médico exemplar. “Poucas circunstâncias unem tanto os homens como compartilhar o gosto por um conhecimento concreto…Nenhum filho de Adão deveria sentir-se só enquanto possa encontrar em algum lugar do mundo alguém com que compartilhar seu amor pela sabedoria”. Não é possível a sabedoria sem a humildade, que é também pré-requisito para o amor. “Há néscios que acreditam somente naquilo que veem.  Sua necedade é uma perigosa mistura de ignorância e de cegueira, mistura esta que lhes impede ver porque não sabem como olhar”.

Reconheço que em alguns momentos me comovi lendo as reações do médico judeu diante do sofrimento: “Quando o vi tão disposto e, ao mesmo tempo, tão frágil e temeroso, senti como uma onda de compaixão me inundava o peito”. A mesma emoção que por vezes eu sentia quando, ainda adolescente, lia A Cidadela à espera de entrar na faculdade de medicina. E pensei: agora não é ficção, levo 35 anos na profissão, não apenas lendo romances mas apalpando o sofrimento humano….e me comovo. Quase não me atrevi a perguntar-me se os vestibulandos de hoje tem essa capacidade de emocionar-se…..porque intuo a reposta negativa.

A medicina não é para qualquer um. Não porque os médicos somos melhores, mas simplesmente porque temos vocação. Quando não se sabe avaliar corretamente esta condição sine qua non, o resultado é catastrófico: as escolas médicas são inundadas por candidatos que carecem de condições para cuidar do próximo. O problema é antigo, e de não fácil solução, como aponta o tribunal de muçulmanos que confere a Maimónides o título para exercer a medicina, “após examinar o que sabes mas, sobre tudo, o que tens no teu coração. É o coração do médico o que manda, e temos pesar de que nem todos os estudantes do nosso arte tenham um coração como o teu”. Palavras sábias, de tremenda atualidade. O que muda é a atitude da banca examinadora, do sistema de ingresso na faculdade de medicina que carece dessa contundente sinceridade que tinham os sábios do século XII.

Os Cordobeses rendem homenagem e este judeu-espanhol insigne com uma estátua no bairro judeu da cidade. Um cenário onde todos os médicos gostamos de nos fotografar quando por lá passamos.

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