Fabrice Hadjadj: “La Profundidad de los Sexos. Por uma mística de la carne”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 03-03-2016

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Fabrice Hadjad: “La Profundidad de los Sexos. Por uma mística de la carne”. Nuevo Início. 2010. Granada. 302 pgs.

La profundidad de los sexosUm amigo, que também se delicia com os livros deste filósofo desconcertante, emprestou-me este. Desconcertante, porque sua escrita é uma verdadeira gangorra que oscila do Marques de Sade ou Madame Bovary até os Padres da Igreja (S. Clemente de Alexandria, S. Basílio de Cesaréia), passando por Tertuliano, Charles Peguy, Leon Bloy, sem dispensar cineastas como Billy Wilder, e o pensamento político antropológico de Hannah Arendt. Multidão de citações –não gratuitas, porque  nota-se que Hadjadj conhece e leu os autores- que associadas à ironia fina e às entrelinhas tornam a leitura complexa. Na perspectiva de conjunto –às vezes é preciso abrir mão de querer compreender todas as nuances para ficar com o quadro geral- resulta sempre sugestiva, por vezes genial, mas nunca fácil.

O autor aponta a tese principal do livro: A matéria do homem está amassada com espírito e seu sexo, longe de ser uma relíquia animal, é uma espécie de relicário exorbitante.  Por isso afirma que a desordem moral provém não de um instinto animal (que por sinal estão muito bem ordenados nos seus respectivos donos, cada um obedece à sua formatação de fábrica: porcos, gatos, cachorros, aves…). A desordem não é consequência de um corpo animal que controla um espírito soberano, mas de um espírito perverso que se aproveita de um corpo desarmado. Quer dizer, que a imoralidade não decorre do lado animal do homem, do seu corpo;  mas de um espírito fraco que é incapaz de sublimar, guiar, conduzir em unidade, o corpo do homem –a tal profundidade dos sexos que consta no título- para uma finalidade sublime.

Fabrice Hadjadj faz uma apologia da corporeidade do homem, mergulha na sua dimensão sexual, que considera intrinsecamente unida à alma. Opõe-se assim a espiritualismos desencarnados que  se desvinculam do corpo, que mal toleram o sexo. E o faz de modo contundente… e com ironia. “O homem procria, não apenas se reproduz. Reproduzir-se é mais próprio de bactérias ou de xerox. O ato sexual tem como finalidade gerar um ser distinto que seja semelhante. O ato sexual completo é, pois, um ato sexual fecundo. Aquele que implica uma sogra e a esperança de uns netos (…)  O que afeta a minha carne, afeta a minha alma em profundidade, e pode ter uma repercussão espiritual maior que as conclusões do meu discurso. Mas essa repercussão se opera de modo escuro, enquanto o que articulo na reflexão se mantém dentro de certa claridade”.

Bem é verdade que para alcançar essa profundidade  é preciso ter a paciência da contemplação, e hoje somente temos a impaciência da técnica. Seria preciso a humildade da oração e somente temos a vaidade da conquista. Talvez por isso, aventura o autor, vulgarizou-se a vida sexual com a revolução industrial, com o corporativismo técnico. “O homem das cavernas aparece no século XIX quando se perde a liturgia do sexo, de modo corporativo,  proletário e industrial. Os antigos eram litúrgicos no amor. O homem primitivo aproximava-se da mulher seguindo um ritual detalhado: imaginemos a surpresa, ele derrama nela esse licor, e nove meses depois o devolve convertido em homem, o futuro Xamã da tribo. Como não surpreender-se com esse alambique prodigioso?”

Os capítulos, sempre inaugurados por títulos sugestivos, trazem surpresas embasadas em realidades evidentes, mas que dificilmente paramos para considerar. Essa é talvez uma das habilidades de Hadjadj:  despejar uma enorme carga de ironia para dar relevo ao óbvio. “A proximidade –diz- requer o táctil, tocar-se. A filantropia se contenta com uma foto e o envio de um cheque: a caridade exige a proximidade até o pugilato.  Os Sacramentos são tácteis, não se pode comungar por correio eletrônico , nem dar absolvição por telefone. É preciso impor as mãos. É preciso tocar a língua”.

Igualmente quando fala do horror da vida conjugal regular, da rotina. E coloca o desafio: “A verdadeira relação conjugal , a vida comum, tem de estar à altura da morte. É preciso espírito de aventura para enfrentar a vida. Não é apenas uma fusão , mas acolher o outro até a sua partida definitiva”. Ou do papel insubstituível da mulher: “A mulher é o único ser humano que é capaz de levar outro homem dentro dela. Seu corpo é habitável, o primeiro miniapartamento do futuro estudante. E completamente climatizado, adaptado ao usuário”. Entre a multidão de autores citados, invoca até Pasolini numa defesa da vida: “Estou traumatizado com a legislação sobre o aborto, porque o considero um homicídio. Nos meus sonhos e no meu comportamento quotidiano vivo minha vida pré-natal, minha imersão nas águas maternais: sei que ali eu estava vivo”. Comportamento, poderíamos acrescentar, nada exemplar mas que se nega a abdicar da sua condição humana. Esse ser amassado em espírito e sexo, a tese do livro personificada no cineasta italiano. E que se faz extensiva a todos os humanos, independente da sua condição: “O monge não é um ser assexuado. Nem a freira. Embora toda uma literatura monástica a compare com os anjos é somente uma metáfora. Os castrados estão na corte, não no convento”.

A ironia beira o chocante, que chama a atenção e quase escandaliza, mas faz pensar. “É preciso confessar que a linhagem carnal de Jesús é estarrecedora. Poucos homens, tiveram tantos antepassados criminais. Carnalmente criminais. E entre as poucas mulheres incluídas, prostitutas e gente torta. Isto é o que, em parte, dá ao mistério da Encarnação todo o seu valor, toda a profundidade. Esse é o estado civil da Redenção. Não há outra matriz para esta moral dramática. O pecado também serve”.

Hadjadj se define como um católico, de origem judia, e nome árabe. E não nega a cultura que o amamentou, quando  invoca os rabinos de Israel. É tocante o relato do Rabi A Y Karelitz que punha-se sempre de pé, com solenidade, na presença de um trissómico: se o Eterno privou-o de poder estudar a fundo a Torah é porque ele é o bastante perfeito.

As considerações sobre o amor são também um prato forte neste conglomerado de ideias originais e sugestivas. “Amor é um vocábulo vazio e confuso, prostituído. Amamos a Deus, mas também amamos a Dalila, como Sansão. Amamos a nossa mulher e amamos os mexilhões ao vapor (tem até quem os adora).É preciso definir o amor, especificando o seu objeto. Sem isso, com um amor sem o ser, é simples recheio, uma desculpa universal”.

E a seguir uma consideração de fácil aplicação prática, útil como recado final deste difícil resumo:  “Mais vale amar do que conhecer, disse Tomás de Aquino. Quando conhecemos uma coisa a calibramos com a medida do nosso espírito: se ela o supera, a coisa conhecida fica diminuída. Mas o amor dirige-se à coisa inteira, até aquilo que permanece no escuro e que não emerge na superfície”.  Na dúvida, quando falta a compreensão, quando nos escapa, a resposta é amar. Como Santo Agostinho, que sugere amar e fazer o que queiramos, porque o amor é o nosso peso, a medida, a densidade da nossa alma.

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