Henry Marsh: “Sem Causar Mal”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 12-10-2016

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Henry Marsh: “ Sem Causar Mal”. (Histórias de vida, morte e neurocirurgia). nVersos. São Paulo, 2016. 287 pgs.

Sem causar malÉ uma convicção que me acompanha faz tempo, e que tenho comprovado diversas vezes: quando um cirurgião envereda pelos caminhos da educação médica, é objetivo, tem impacto, entra para consertar. E costuma dar-se bem. Este livro não é propriamente um tratado de educação médica, mas de fato educa, porque faz refletir.

Henry Marsh, conhecido neurocirurgião britânico, escreve com estilo familiar, e sem nenhuma pretensão literária, uma espécie de memórias. Ou talvez, as memórias dos seus equívocos profissionais, sobre os quais reflete com sinceridade, e nos faz pensar ao tempo que também nos educa enquanto descreve a técnica operatória de um determinado caso: “Meu aspirador se está movendo por entre o pensamento, pela emoção e pela razão; e ocorre-me pensar que as memórias sonhos e reflexões são tão consistentes como gelatina”.

Gostei, sim, e muito do livro. Algo diferente ao que estamos acostumados quando lemos as memórias dos médicos, onde a emoção -que está sempre presente-  pode tirar realismo da situação que, no momento, nada tem de poético. A ironia e o ceticismo estão presentes; o autor não faz questão de esconde-los, e talvez por essa sinceridade nos educa mostrando que há caminhos para melhorar quando expomos nossas limitações. “Não há evidências de que as raspagens totais que fazíamos no passado, que faziam com que os pacientes se parecessem com presidiários, tinham qualquer efeito sobre as taxas de infeção. Eu suspeito que a verdadeira -embora inconsciente- razão era o fato de que desumanizar os pacientes facilitava para que os cirurgiões os operassem. ”

São doses de realismo cru. Uma empatia construída a partir da reflexão, mesmo sem haver uma inclinação para isso. A medicina não é um conto de fadas. Dor e morte nos acompanham. O tempo todo, se estamos a postos. Queremos fugir disso, é natural. Mas o sentimento de missão, do dever a cumprir -que nada tem de romântico, e as vezes se apresenta de modo antipático- sobrepõe-se a essa repulsa e lá estamos nós, no batente, cumprindo o dever com consciência de missão, mesmo que a repulsa embace o lado poético da medicina. “Pesquisas na área de psicologia demonstram que o caminho mais confiável para alcançar a própria felicidade é fazer com que outras pessoas sejam felizes.  Eu trouxe a felicidade a muitos pacientes, com operações bem-sucedidas, mas houve também muitos fracassos terríveis. E a vida de um cirurgião é pontuada por períodos de desespero profundo. A maior de nossas conquistas como cirurgiões ocorre quando nossos pacientes se recuperam por completo e se esquecem totalmente de nós. Todos os pacientes ficam imensamente gratos num primeiro momento após uma operação bem-sucedida, mas, se a gratidão persiste, isso geralmente significa que eles não foram curados do problema subjacente e receiam que podem precisar de nós no futuro”

O autor, nas suas descrições austeras, no modo como diz a verdade aos pacientes, lembrou-me Humphrey Bogart, um durão que pretende esconder o coração, impermeável às emoções, mas que no fundo tem seu toque sentimental. Um sentimento e uma compaixão que vai se construindo com a reflexão e amadurecendo com os anos. “Acabei me empedernindo da maneira que os médicos devem se empedernir, e passei a encarar pacientes como uma raça inteiramente diferente dos pomposos e invulneráveis jovens médicos como eu. Agora que estou chegando ao fim da minha carreira, esse distanciamento começou a se desfazer. Tenho menos medo do fracasso; consegui aceitar sua existência e sentir-me menos ameaçado por ele e talvez, aprendi com os erros que cometi o passado. Posso me atrever a ser um pouco menos distante. Além disso, com o avançar da idade, não consigo mais negar que sou feito da mesma carne e sangue que os meus pacientes, e que sou igualmente vulnerável. Assim, hoje, sinto uma piedade ainda mais profunda por eles do que no passado, e sei que, cedo ou tarde, também ficarei preso como eles a um leito em um hospital abarrotado de gente, temendo pela minha vida”.

Relata as próprias doenças, a doença e morte da sua mãe, o tumor que o seu filho teve. E também daqui tira consequências: “Parentes ansiosos e furiosos são um fardo que todos os médicos precisam suportar, mas ser uma dessas pessoas foi uma parte importante da minha educação médica. Médicos, eu sempre digo aos meus residentes com uma risada, nunca sofrem o bastante”.

Talvez o melhor recado do livro seja a necessidade de encontrar, na vida profissional do médico, e no trato com os pacientes, o equilíbrio entre o realismo e a esperança.  “Conseguir encontrar um equilíbrio entre a esperança e a realidade. Cirurgiões devem sempre dizer a verdade, mas, se for possível raramente devem extinguir as esperanças dos pacientes. Pode ser muito difícil encontrar o equilíbrio entre otimismo e realismo (..) Aprendi, com o passar dos anos, que ao dar as “más notícias”, como chamamos, provavelmente o melhor a fazer é falar o mínimo possível. Essas conversas, por sua própria natureza, são lentas e dolorosas; eu preciso controlar o meu impulso de falar sem parar para preencher o silêncio triste (..) Médicos precisam ser responsabilizados por seus atos, pois o poder corrompe. Deve haver procedimentos para queixa e processos judiciais, comissões de inquérito, punições e compensações. Ao mesmo tempo, se você não esconder nem negar seus erros, se os seus pacientes e suas famílias souberem que você ficou incomodado pelo que aconteceu, é possível até mesmo, se a sorte ajudar, receber a dádiva preciosa do perdão”.

Evidentemente isso é algo que não se incorpora num curso, nem muito menos na sala de aula, mas na linha de frente, no fogo cruzado, quando se aprende a digerir as experiências, quando se instala a reflexão sistemática sobre a atuação, que se examina com sinceridade, evitando “a forma plural que é tão amada por policias, burocratas e médicos, que nos absolve de responsabilidades individuais e nos alivia do fardo terrível da primeira pessoa do singular”.  Somente assim é possível lidar com a incerteza, o maior desafio do médico consciente: “A coisa que mais tortura os médicos é a incerteza, e não necessariamente o fato de lidarem com pessoas que sofrem ou estão prestes a morrer. É muito fácil deixar alguém morrer quando temos certeza de que a pessoa não tem salvação; se o médico for uma pessoa decente ele vai demonstrar simpatia, mas a situação é clara. A vida é assim e todos temos que morrer, mais cedo ou mais tarde. É quando não sei ao certo se posso ajudar ou não, ou se devo ajudar ou não, que as coisas ficam bem mais difíceis”.

Ironia e humor britânico salpicam estas memórias neurocirúrgicas com a mesma naturalidade com que se descrevem os relatos clínicos. “Invejo a maneira pela qual a geração que me educou podia aliviar o intenso estresse do seu trabalho perdendo a paciência, às vezes e maneira bastante escandalosa, sem medo de serem repreendidos por assédio moral e bullying.  Trinta anos atrás os hospitais britânicos sempre tinham um bar para os residentes onde você podia tomar um drinque ao final de um longo dia de trabalho, ou onde -se tivesse tempo- você poderia passar a noite fumando e bebendo quando estivesse de plantão”. E as reclamações como professor:  “É cem vezes mais difícil e angustiante treinar um cirurgião novato do que operar por conta própria”.

Marsh é um homem cético, que se diz agnóstico, mas com grande poder de reflexão. Isso é o que confere crédito especial ao seu relato.  “A casa era administrada por freiras católicas e dedicada a cuidar de pessoas que haviam sofrido danos cerebrais catastróficos. O contraste com o hospital onde eu operei aquele paciente que estava agora nesta casa não podia ser maior. A equipe católica devota não aceitava o sombrio ponto de vista da neurociência, de acordo com o qual tudo que somos depende da integridade física do nosso cérebro. Em vez disso, sua fé antiga em uma alma humana imaterial fez com que elas criassem um lar gentil e afetuoso para esses pacientes vegetativos e suas famílias”.

Sinceridade, reflexão, reconhecimento dos erros com simplicidade, agilidade para mudar. Importantes ensinamentos que permeiam as páginas deste livro. E, no meio do que parecem queixas, a paixão pela medicina, a vocação de pode ajudar os outros… mesmo reclamando, como Bogart em Casablanca. Realismo e esperança em combinação sábia e difícil: “Alguns dos diálogos que tenho no consultório são alegres, outros são absurdos, e alguns são de cortar o coração. Mas nunca são entediantes”.

Não é o trabalho, nem os fracassos, nem mesmo os erros o que pode acabar com a vocação médica. O perigo é mesmo a rotina, perder a perspectiva. O livro deste cirurgião educador é uma boa vacina para prevenir esse tédio mortal. Cabe a cada um, com a leitura pausada e a reflexão, gerar os próprios anticorpos, melhorar a imunidade contra a mesmice e o desencanto.

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