Paul Glynn: “Réquiem por Nagasaki”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 17-04-2017

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Paul Glynn: “Réquiem por Nagasaki”. Palabra. Madrid (2011). 316 págs. (Versão espanhola, do original A Song for Nagasaki; em português: Um Hino a Nagasaki, Ed. Loyola)

Um Hino a NagasakiA tertúlia literária nos oferece esta vez uma oportunidade diferente: conhecer a vida de Takashi Nagai, um sobrevivente à bomba atómica de Nagasaki, e no vácuo da sua biografia -ou do seu livro (Os Sinos de Nagasaki)-  aspectos da cultura japonesa nem sempre conhecidos. Eu pelo menos não os conhecia, porque carecem do aspecto folclórico -que é sempre o que os curiosos e turistas comentam- para adentrar-se numa dimensão espiritual de profunda densidade.

Nagai, médico especializado em radiologia, não por gosto, mas por opção. Perdeu a audição num dos ouvidos durante a guerra na China, tinha dificuldade para utilizar o estetoscópio, e um velho professor lhe propôs dedicar-se a essa especialidade que era o futuro. Não andava equivocado o professor de Nagai, basta ver hoje a dimensão incrível de avanços tecnológicos que nos brinda o diagnóstico por imagem.

Mas o que hoje, fruto da sedução tecnológica, muitos profissionais perdem -a dimensão humana do médico- Nagai a conservou sempre presente, e se manteve atuante. “A ajuda do médico é autentica -anotou no seu diário- quando serve para que alguém recupere a dignidade”. Um pensamento que poderia ser a base para todo um curso de relação médico paciente, e para que os médicos refletissem sobre a sua missão. Atitude esta que manteve em momentos críticos, como a medicina de guerra: “A guerra consegue extrair o melhor e o pior de cada homem. Não vim à China para vencer ninguém nem para ganhar uma guerra. Vim para ajudar os feridos, sejam eles chineses, japoneses, civis ou combatentes (…) Um médico deve ser alguém que sinta no seu próprio corpo tudo o que os seus pacientes sofrem no corpo e no espírito. Compreendi que a Medicina é uma vocação de Deus: isto é, que o estudo de cada paciente, fazer um RX, administrar uma injeção faz parte do reino de Deus. Quando o entendi, me surpreendi rezando por cada paciente que estava tratando”.

Evidentemente tudo isso não é apenas fruto do altruísmo humanitário de Nagai, mas sim consequência da sua dimensão espiritual. As raízes vinham de longe, da educação materna. Anota Nagai: “Os olhos da minha mãe me fizeram saber que o espírito do homem continua vivendo após a sua morte. Soube mediante uma intuição, uma intuição carregada de convicção. Chokkan, é a palavra em japonês, composta de choku, imediato, e kan, sentimentos”.  Seu percurso do agnosticismo até a conversão, da mão dos escritos de Pascal (aquele que falava das razões do coração que a razão não entende), construiu sobre o médico e cientista, um pensador, um escritor, um cristão profundamente comprometido com a sua fé. No prólogo a “Os sinos de Nagasaki” William Johnston, resume a trajetória deste homem singular: “O Nagai científico, o Nagai patriota, o Nagai humanista converteu-se no Nagai místico. Um místico da paz dos nossos tempos”

Viver a fé, não é para Nagai abandonar as ocupações habituais; é uma fé que deve ser praticada no meio das tarefas profissionais. Nagai pensava que o laboratório pode ser o mesmo que a cela de um monge. “O estudo de qualquer aspecto da Criação divina deve-se empreender com profundo respeito e certa honestidade. O autêntico científico que experimenta no seu laboratório é como um monge na sua cela. A experimentação converte-se em oração (…). Se realmente o desejamos podemos converter nossas ocupações e as vinte e quatro horas do dia num poema. Para isso é preciso criar um coração responsável, saber olhar por debaixo da superfície das coisas, buscar a beleza escondida que há em todas as partes”.

O contato habitual com a radiologia, sem as proteções que hoje são conhecidas e usuais, fez com que Nagai adoecesse de leucemia. E já doente, lhe surpreende a bomba atómica, onde perde a sua esposa, apoio essencial para a sua vida, e para a sua fé. Nagai não se encolhe, e enfrenta as dificuldades do desastre atômico, e do desgaste do próprio corpo com uma categoria que faz arrepiar. Não para de escrever, de publicar, de exortar ao perdão -nunca à vingança- para com aqueles que provocaram o caos em Nagasaki. Mesmo limitado, tendo que permanecer deitado no leito, vai na frente, dando exemplo, e escreve: “a dor aceitada com elegância aperfeiçoa o coração do homem e a experiência da escuridão afia os olhos do espírito (…) Se não sofres-te nem choras-te não conheces o que é a compaixão nem podes dar consolo àqueles que sofrem. Se não choras-te não podes enxugar as lágrimas do outro Se não caminhaste na escuridão não podes ajudar quem está perdido a encontrar seu caminho. Se não olhas-te a morte de frente e não sentiste seu respirar de perto, não poderás ajudar outros a levantar-se de entre os mortos e desfrutar da alegria de estar vivo”.

Este homem singular chamou a atenção do próprio Imperador Hirohito que foi visita-lo já doente, de pessoas que tinham familiaridade com a dor, como Helen Keller que também o visitou, e até do próprio Papa Pio XII que lhe enviou um terço por meio de um Cardeal.

Onde está toda essa força de Nagai, nos perguntávamos já nos momentos finais da tertúlia literária? Alguém lembrou de uma significativa frase do livro, confirmada por alguma das assistentes que tinha visitado o Japão. “Hiroshima grita, Nagasaki reza”. Enquanto o memorial de Hiroshima transpira dor e laivos de ódio contra os agressores, em Nagasaki o clima é de oração. Nagasaki foi a responsável pela atmosfera espiritual na resposta à bomba atômica, pelo Hansai, o sacrífico, o holocausto, que leva ao perdão. Nessa compreensão sobrenatural, nesse entendimento que vai além da vingança ou do lamento para erguer-se como um gigante espiritual e que Nagasaki protagoniza, a figura de Nagai tem um papel essencial.

Acabamos a tertúlia com alegria, e com reflexão. É inevitável se perguntar se diante das dificuldades que a vida nos coloca -diariamente, a toda hora, sempre- nossa reação será a de Hiroshima (vamos encontrar os culpados) ou a de Nagasaki: vamos crescer, perdoar, amadurecer. Um ambicioso projeto de vida, na qual o Doctor Nagai tem também parte da responsabilidade com o seu colossal exemplo.

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