Fabrice Hadjadj: Puesto que todo está en vías de destrucción

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 28-06-2017

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Fabrice Hadjadj. Puesto que todo está en vías de destrucción.  Nuevo Inicio. Granada (2016). 186 págs. 

Puesto que todo está en vías de

Este é o terceiro livro que enfrento do autor. E digo propositalmente, enfrentar, porque os escritos de Fabrice Hadjadj não são um passeio cultural sem compromisso, mas verdadeiras cargas de profundidade. Escritor, filósofo, professor na França, nascido numa família judia de origem árabe e de formação maoísta. Convertido ao Catolicismo, impregna a letra (e, no caso, a palavra, porque o livro reúne um conjunto de conferências) com sua trajetória peculiar e desconcertante. Aliás, este é o adjetivo que a meu modo de ver melhor descreve omodus docendi de Hadjadj: o desconcerto e o paradoxo. Quase uma variante semita de Chesterton.

O título desta obra é extraída de uma epístola de S. Pedro, que em livre tradução diz: já que tudo está para acabar, vejam que tipo de homens tem de ser, e qual deve ser vossa conduta. Esse é o leitmotiv destas reflexões: a atitude que devemos assumir nestes dias em que a cultura e a modernidade agonizam. Uma tónica comum que alinhava as conferências aqui recolhidas que, inicialmente, não pensava publicar mas reconhece que “a expectativa do outro, fazendo-me escrever me entregava um porvir que não estava contido no meu futuro. Enriquecia-me não com os meus recursos, mas com a generosa veia de ouvidos que me escutavam atentamente”.

Esse é o primeiro e interessante recado. Os projetos que fazemos (o futuro) podem ser modificados por aquilo que nos vem de fora (o porvir), que é preciso incorporar, em abertura sincera. “O futuro tem a ver com o meu projeto. O porvir com o que me vem dado. É preciso estar aberto ao que vem, para não morrer com o próprio projeto. Hoje padecemos uma hipertrofia do futuro às custas do porvir. Trata-se de acolher o dom, o porvir -que escapa ao nosso controle- para que seja mais importante do que o futuro, o que nós controlamos (ou pensamos controlar) ”. O poema do Fernando Pessoa acudiu à minha mente: “A vida é o que fazemos dela”, assim como a expressão vitalista de Ortega, quando afirma que a vida nos é disparada a queima-roupa. Porque saber viver, não é só programar, mas encaixar e assimilar o que nos chega, em resposta madura e íntegra. Ao invés de reclamar dos obstáculos que surgem na vida, o que nos faz amadurecer é incorporar os obstáculos e dificuldades, transformar as lombadas que nos fariam tropeçar, em degraus que permitem enxergar de maior altura.

Na reflexão sobre a pós modernidade, a cultura tem um papel essencial. Anota o autor:  “A cultura é sempre a irrupção do atemporal no meio do tempo. Cultura vem do latim colere, que significa também cuidar, honrar, habitar. Algo que tem a ver com a natureza e o cultivo da terra. Não é produção ou fabricação. Não é formatar nem normatizar; é uma operação que consiste em cuidar do espaço, em liberar os recursos do pleno desenvolvimento, permitir a frutificação de um ser (por isso tem muito a ver com a cultura da terra, onde se facilita que ela de os frutos, e não com algo que fabricamos) ”.

Por tanto a cultura, cultivar as pessoas -base da verdadeira educação- é cuidar, não fabricar, ou formatar. Permitir o desenvolvimento das potencialidades em ritmo fisiológico, para chegar à plenitude das possibilidades de cada um. “A cultura é o que faz o homem cuidar da sua própria natureza, chegar a ser o que é, de maneira inventiva, a partir do dado inicialmente, que é carne e espírito, não escolhida por ele mesmo, mas dada por um Donante que o lança a uma aventura que ultrapassa seus planos. Os produtores não imaginam que a cultura consiste em acompanhar um dinamismo natural; pensam que consiste em reunir materiais e codificar as coisas, para que estas lhe obedeçam. Pensam que o homem é o único criador de formas, já que consegue extrair do silício a inteligência artificial…Mas esquece as frutas e verduras que come, sem as quais não conseguiria pensar”.

Educar é, pois, cultivar, não fabricar. Respeitar os ritmos das colheitas e das estações. Cuidado esmerado, não produção em série. Considerações estas que iluminam e apavoram quando contemplamos o cenário educacional que vivemos hoje. Alunos que são clientes, diplomas comprados em prestações mensais, metodologias de avaliação próprias de um sistema de produção em série. Enfim, produção eficaz da máquina educativa, que inunda o mundo de analfabetos diplomados. A crítica do autor não perdoa: “Oferecemos hoje uma visão do homem que oscila entre o consumidor espetacular ou o macaco evoluído. O segundo busca uma redenção pela técnica, enquanto o primeiro satisfaz sua curiosidade, diverte-se contra a angústia de uma vida sem sentido”.

Hadjadj trabalha o tema da educação em perspectiva filosófica, e aponta que educar entranha risco, o risco da liberdade humana. Mas é o único caminho. Uma educação sem risco, se reduz a puro treinamento de autômatos que não pensam. “Educar, e-ducere, é trazer para fora. Ensinar, In-signare, colocar algo dentro. Educa-se trazendo para fora o que se encontra no coração do educando. Ensina-se algo concreto, mas educamos a alguém (…) A educação nos resgata do animal, mas quando faz possível o humano também torna possível o diabólico. A plena posse das nossas faculdades e talentos nos permite emprega-las para o bem ou para o mal. E para não correr este risco, alguns fazem da educação um simples treinamento (adestramento de animais)”.

Cultura, educação e, naturalmente, a dimensão religiosa, em colocações sempre instigantes, que fazem pensar: “Frequentemente tenho dito que é preciso crer em Deus para ser verdadeiramente materialista, para acolher a matéria, o corpo e o tempo não como materiais ou substratos biológicos inferiores, mas também como uma ordem que faz referência ao espírito”. Lá vem as ironias críticas aos supersticiosos, que “se servem dos Deuses para obter favores, como nos servimos da técnica para obter o bem-estar”.

E não poupa os humanistas agnósticos:  “quando se pretende fundamentar o humanismo sobre o homem, ocorre o que aconteceria se edificássemos um prédio à margem de qualquer apoio: cairia. Para o edifício se elevar é preciso um chão. Para que o homem possa se elevar é preciso um Céu. O Céu é uma esperança. Os animais geram por si mesmos, o homem precisa de razões para dar a vida. (…) O homem deve buscar razões para viver que estão além de ele próprio”

Variações sobre o mesmo tema, nestas conferências que golpeiam de modo contundente a modernidade, e o homem pós-moderno. “A modernidade fabrica seus próprios evangelhos -uma verdadeira proliferação (segundo Hitler, segundo Marx, segundo Mónica Bellucci) – em função do mercado. Mas a modernidade mais do que anunciar, dedica-se a denunciar. Mais do que reconhecer a dignidade, indigna-se. Possui uma majestade totalmente negativa, e por isso é eficaz. E quando tem de oferecer uma via positiva, volta às banalidades mais insípidas (…) A modernidade consiste em fazer da esperança cristã algo antropocêntrico. A pós modernidade consiste em propor falsas transcendências. A primeira sonhava com um homem sem Deus; a segunda sonha algo pior: um homem sem o humano”

Uma leitura provocante, e sempre enriquecedora. Fecho o livro e me pergunto: o que sobra de tudo isto? Perguntas, dúvidas, questionamentos, um estado de sadia desconfiança contra os messianismos humanos, riqueza de ideias que, como a cultura, em ritmo fisiológico, nos ajudam a pensar o mundo em que vivemos. E, também uma dimensão poética, até romântica, do ideal de uma vida vivida em plenitude, como esta declaração final: “A verdadeira grandeza não está na extensão horizontal do nosso poder, mas num grito vertical; a vida verdadeira não está na acumulação e em ter, mas na oferenda do ser; a verdade mais elevada não é um saber que domina, mas uma hospitalidade que acolhe e se surpreende com a sempre incompreensível presença de um rosto”.

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