Francesco Salvarani. Edith Stein: Hija de Israel y de la Iglesia

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 14-12-2017

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Francesco Salvarani. Edith Stein: Hija de Israel y de la Iglesia. Palabra. (2012). 381 pgs.

Um livro que é, simultaneamente, uma biografia e um acompanhamento do pensamento filosófico e teológico de Edith Stein, escrito por um esperto, como fruto de 20 anos de investigação. Maneja uma ampla bibliografia que inclui os próprios escritos da filósofa, muitos outros sobre ela, e obras afins. Um belo trabalho muito bem alinhavado. Não me atrevo a dizer que seria uma biografia definitiva, porque isso sempre é uma pretensão. E, em tratando-se de personagem tão singular, com certeza uma incorreção, porque basta adentrar-se um pouco na sua vida, para saber que as surpresas continuarão a surgir. Haja visto aquele ensaio sobre a trajetória filosófica de Edith Stein, que já é uma avalanche de informações, dada a densidade do seu pensamento.

Edith nasce no dia 12 de Outubro que, naquele ano de 1891, coincidia com a festa da expiação no calendário judeu. A mãe dela, dona Augusta, sempre considerou essa festa como o verdadeiro aniversário de Edith, sua filha caçula. Perde o pai com menos de dois anos, e Augusta assume o comando do negócio. “O único centro de gravidade da família era agora esta mulher bíblica, com sua coragem e energia. A situação era dramática (com 7 filhos vivos, três outros já falecidos), mas não desesperada para alguém que sempre tinha confiado em Deus”.

Muitos dos dados biográficos são tirados das memórias que Edith escreve. De lá sabemos que com 6 anos diz quer sair do jardim da infância para entrar na escola de gente grande: esse era o presente de aniversário que pediu. E anota, “com 7 anos a razão predominou sobre o meu temperamento rebelde e convenci-me que minha mãe e minha irmã Frieda sabiam melhor do que eu aquilo que me convinha”. Gostava de escrever redações, pois conseguia exprimir o que sentia por dentro. “Não me preocupava entregá-las aos professores, mas não gostava que as lessem em casa, ou mostrassem para as visitas. Nos dias de festa, que não íamos à escola, minha maior alegria era poder ler um livro sem limite de tempo”. Era, desde criança, uma leitora voraz. Sem tirar o mérito, isso também explica como conseguiu devorar numa noite o Livro da Vida, de Teresa de Jesus, quando chegou a ocasião.

Vivenciou o suicídio de alguns familiares ainda adolescente. Gente que se tirou a vida por quebras econômicas. “Refleti como era possível algo semelhante e me perguntei porque entre os judeus o suicídio acontece com relativa frequência. Penso que a sua incapacidade de encarar com tranquilidade a ruina da vida exterior é consequência de um defeito de perspectiva em relação à vida eterna. Um judeu pode trabalhar duramente, de modo infatigável, suportar as maiores privações enquanto veja um objetivo diante de si. Se isso falta, sua energia desaparece, a vida se lhe apresenta sem sentido. A imortalidade da alma não é um dogma para eles”. Lendo isto lembrei imediatamente de Viktor Frankl e da busca de sentido de que nos fala no Psicólogo no Campo de Concentração, que depois tomou forma na sua Logoterapia. Resistem mais e melhor -no campo de concentração e na vida- não os aparentemente mais fortes, mas os que têm um sentido para continuar vivendo e lutando.

Edith era, ao seu modo, uma feminista convencida, no sentido construtivo da expressão: queria que fossem reconhecidos para as mulheres os mesmos direitos políticos e jurídicos que ao homem.  Não gostava de privilégios e, por exemplo, não via com bons olhos as facilidades que tinham se concedido às maestras para ingressar na universidade, obtendo assim a habilitação para o ensino médio ou superior.

Uma juventude ativa, em diálogo com o estudo, com inquietude permanente. Não havia tempos mortos na sua vida. “A falta de motivação é o que faz da vida um tédio”. É o mesmo que diz Frankl, com outras palavras.  Um caráter forte comandava essa atividade intelectual. Quando um amigo lhe faz uma correção, apontando o seu temperamento crítico, reconhece: “fiquei nocauteada com essas palavras, não estava acostumada a ser corrigia. Vivia na ingênua ilusão de que tudo ia muito bem, como costuma acontecer com as pessoas não crentes, que tem um forte idealismo ético. Basta que se entusiasmem com o bem para acreditar que já são boas”.

O estudo e a busca intelectual rendem, naturalmente, encontros com pessoas que lhe marcaram. “Tinha se topado com Reinach e descoberto o reflexo de um mundo superior. Conheceu Husserl e aprendeu a liberar-se dos preconceitos e encaminhar-se às coisas com ânimo aberto. Encontrou Max Scheler e se lhe abriu um mundo que ignorava, e que os preconceitos racionalistas lhe impediam enxergar”. Tudo isto foi terreno fecundo para a sua produção intelectual, sua criatividade filosófica com contribuições originais e, também, para a sua conversão posterior.

Anota o autor numa bela síntese: “O relato da vida de Stein não pode prescindir das pessoas que conheceu e das amizades que teve, nem da dedicação a cada uma delas. Assim como não é possível ignorar o ambiente em que viveu, seu modo de relacionar-se. Não se pode pensar que Stein é grande somente pelo que aconteceu depois, com a virada completa da sua vida, iniciando-se pela conversão. As circunstâncias que acompanharam sua vida -desde pessoas, até situações como o trabalho de enfermeira na Cruz Vermelha durante a primeira guerra mundial- foram caminhos de preparação e amadurecimento desta figura monumental. Por isso a própria Stein nos deixa uma vida da sua família repleta de detalhes que tem, todos, sua importância (A vida de uma família judia e outros escritos autobiográficos) que escreve nos anos finais da sua vida. Intui-se uma honestidade intelectual e moral, assim como uma generosidade de propósitos e decisões, que em nada diminui a ação de Deus na vida dela, mas que certamente prepara o caminho da Graça”.

O perfil de Edith como professora é também abordado no livro. Quando começa a dar classe e diz que nunca fez isso antes, o professor lhe diz: “Querida senhorita, sempre foi capaz de qualquer coisa, também fará esta muito bem”. Aprendeu no seu labor docente que “poucas vezes se consegue melhorar aos outros dizendo a verdade; isto somente acontece quando os interlocutores sentem de algum modo a exigência de ser melhores e concedem o direito a que se lhes critique e ajude.”

A trajetória religiosa de Edith Stein não é algo divorciado da sua aventura intelectual.  Husserl e alguns amigos do círculo filosófico, tinham dado o passo da conversão em direção ao protestantismo. Mas outras eram as inquietudes de Stein. Conclui a licenciatura em Friburgo, sob a orientação de Husserl, com a máxima nota possível, um êxito também para a fenomenologia. Entre os amigos próximos figura Roman Ingarden, que a admirava. O mesmo Ingarden que décadas depois, em 1948, era um dos professores da banca quando um jovem sacerdote polonês, Karol Wojtyla, apresenta sua tese doutoral: uma ética cristã embasada no sistema filosófico dos valores de Max Scheler. Quando li todos estes nomes juntos num mesmo parágrafo, confesso que senti um arrepio ao comprovar essas coincidências, que não o são, porque, como diz o ditado espanhol: “Deus cria eles, mas são eles mesmos os que se encontram”

Sempre atenta e observadora, não deixa escapar os recados que Deus lhe envia. Entra numa catedral com uma amiga, imagino que por interesse cultural, e vê uma mulher com a bolsa das compras entrar e ajoelhar-se. “Era algo novo para mim. Nas sinagogas e igrejas protestantes somente se vai para ofícios religiosos. Aqui alguém tinha entrado, no meio das ocupações diárias, para um colóquio íntimo”.

Observa e se questiona: “Estamos no mundo para servir a humanidade. E, como podemos servi-la, da melhor maneira possível senão fazendo algo para o que temos verdadeira predisposição”. Uma pergunta tremenda para cada um de nós, complemento necessário daquelas outras que costumo levantar nas minhas atividades de educação médica: Quem sou eu? O que eu quero? Porque sem resolver estas questões, qualquer atividade profissional estará fora de foco. Agora vejo que é preciso incluir mais uma, já que não basta saber quem sou e o que eu quero, se não tenho claro para que sirvo.

Durante a investigação e sendo assistente de Husserl, Stein se abre ao cristianismo. Vê as reações serenas da viúva de Reinach, morto na guerra. Se antes a vida lhe parecia um inferno, e nem sempre digna de ser vivida, agora a aceita com gratidão. Pouco depois, em casa de uns amigos protestantes, encontra o livro da vida de Teresa de Jesus e o lê numa noite. É o ponto de inflexão na sua conversão; mas não é um fato isolado, uma surpresa. O trajeto recorrido, relatado por ela mesma nos escritos autobiográficos, fazem ver que se tratou de uma busca fatigosa e assídua. “A minha sede de verdade era toda ela uma oração em si mesma”.

Na conversão e no batismo late implícito o desejo de ingressar no Carmelo. Mas lhe recomendam que espere. Tem muito que fazer ainda na vida secular.

Aceita ensinar na academia pedagógica de Munster, com o mesmo espírito de fé requerido na vida monástica. Por outro lado, havia as expectativas do mundo católico alemão que depositava nela grande confiança e esperava vê-la ainda ensinar numa cátedra na universidade.

Por isso, anos depois, a decisão de entrar numa ordem tão pouco intelectual como o Carmelo surpreendeu todos. Tinha contato com as Beneditinas, com as Dominicanas, mas foi parar no Carmelo. E apesar da disposição de serviço total para aquilo que fosse necessário, as autoridades do Carmelo sabem que aquela mulher tem ainda uma missão intelectual a cumprir. Diz Edith, com certo humor: “Para nós (as freiras de clausura) não há diferença entre descascar batatas, limpar vidros ou escrever livros. Geralmente, as pessoas empregam-se nos trabalhos que melhor realizam, por tanto é mais raro encontrar-me descascando batatas do que escrevendo livros”.  E anota a seguir: “Recomecei meu trabalho filosófico (Ser finito e ser eterno). Tenho que preparar uma obra importante, para a que me falta muito material. Não fosse porque confio na obediência e que o Senhor assim o quer, nem o tentaria, por sentir-me um instrumento débil e incapaz. Vou recobrar ânimo ao sacrário, quando me sinto fraca”. Palavras que fazem lembrar S. Tomás de Aquino, com quem já intimava Stein, que dizia ser o Crucifixo o seu melhor livro de consulta.

Já no Carmelo, morre a mãe -que nunca aceitou a conversão nem muito menos o convento- o dia em que ela renova os votos. E, pouco depois, quando o maestro Husserl morre escreve: “Estou longe de pensar que a misericórdia de Deus esteja restrita aos confins da Igreja”. Daí o título acertado deste livro, destacando que em todo momento Edith sentia-se filha de Israel. Por isso, vendo a situação em que Alemanha mergulhava sob o comando nazista e a sorte que o povo judeu correria, sentiu o chamado do Senhor para realizar o ato mais significativo da sua espiritualidade: oferecer-se a Deus como vítima expiação pelo seu povo.

Os Bispos holandeses saem em defesa dos judeus deportados, e acontece a represália com os cristãos de origem judaica. É neste momento onde os nazistas vão atrás de Edith e da sua irmã Rosa (que tinham se transferido desde Colônia ao Carmelo de Etch, na Holanda). Pouco sabemos do resto da história, a não ser algum testemunho solto. Quando estava prisioneira, escreve alguém que a visitou: “A grande diferença entre Edith Stein e as outras freiras era o silêncio. Minha impressão é que estava dolorida, não assustada. Dava a impressão de levar uma carga de dor tão grande que entristecia mesmo quando sorria”.

Edith Stein, é Canonizada por João Paulo II no dia 11 de Outubro de 1998, como Santa Teresa Benedita da Cruz, nome que adotou na entrada no Carmelo.  Sua festa celebra-se no dia 9 de Agosto, data da provável morte em Auschwitz-Birkenau. Declarada também uma das padroeiras da Europa pelo Papa João Paulo II que a elogia como a grande filha de Israel, da Igreja e do Carmelo. Uma síntese perfeita e arrepiante que nossa filósofa explicava com aquela clareza própria dos intelectuais e dos santos. Em algum momento do livro, ou talvez em uma nota de pé de página -como sem ter importância- comenta-se que Edith olhava o crucificado, e dizia emocionada: “Ele é do meu mesmo sangue”.  Precisa mais comentários?

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  • Arnulfo Irigoyen

    Neste novo ano de 2018, tenho a agradável surpresa de ler este grande comunicação Pablo González Blasco.
    Cerca de 30 anos atrás, foi quando eu ouvi alguns elementos da vida de Edith Stein … e é impressionante no texto de Paulo que Edithe Stein nasceu no “Dia da Expiação do Povo Judeu”, que por todas as contas é significativo. Eu também lembro que ela era uma das estudantes mais favorecidas e preferidas de Husserl. Finalmente, é um excelente texto que Pablo González Blasco nos oferece, o que conclui com a canonização deste grande visionária e Universal.

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