Lamberto Maffei: Alabanza de la Lentitud

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 22-12-2017

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Lamberto Maffei: Alabanza de la Lentitud. Alianza editorial. Madrid (2016).128 pgs.

Um pesquisador italiano de neurociências, com vertente humanista, faz uma reflexão em voz alta sobre a lentidão. Isso é este livro: uma advertência de que as coisas realmente importantes e substâncias requerem um tempo que o mundo atual não parece disposto a conceder-lhes.

Sua reflexão inicia-se num museu em Florença onde observa pintadas no teto umas tartarugas com uma vela acoplada. E o lema clássico: Festina lente! (apressar-se com lentidão). Quer dizer, não atropelar as coisas, refletir, ponderar, e aí sim, decidir e ir atrás, sem hesitar. O ímpeto irreflexivo é tão nocivo como a decisão pela metade. Isto nada mais é do que as partes clássicas da virtude da prudência. Mas parece que o museu lhe inspira: “um museu de arte produz mais serotonina do que qualquer fármaco”.

A proposta de Maffei é clara: refletir sobre os mecanismos cerebrais que conduzem as reações rápidas e as lentas. E sua interação com uma civilização que prima pela rapidez. Adverte que a rapidez da evolução técnica -muito rápido, com um pulsar de botão- nada tem a ver com o ritmo fisiológico do organismo, e do cérebro. Uma sociedade que compete com a biologia está destinada a perder.  Discorre depois sobre um tema que domina: a neurofisiologia. O desenvolvimento do cérebro humano, a plasticidade que possui, que permite ir sendo moldado através de décadas. Enquanto que a maturidade do cérebro do rato precisa de apenas algumas semanas e o de outros mamíferos de vários meses, somente no homem a plasticidade que permite atingir a maturidade estende-se por anos.

Mas há uma resistência a esse crescimento fisiológico rumo à maturidade, oprimidos pela avalanche técnica e de consumo. O pensamento de quem usa habitualmente instrumentos digitais não segue o percurso temporal que se deriva da linguagem, mas interage com a máquina que o vai moldando. Não temos tempo racional de digerir o progresso, e ficamos por conta dele, sem incorporá-lo fisiologicamente. Produz-se uma desarmonia entre o progresso das técnicas e sua metabolização. Esta desproporção faz com que a estratégia técnica queira construir um cidadão que atue como uma pequena engrenagem na máquina global; que diga sim a tudo, que não venha com problemas, que encontre satisfação na aquisição de bens para igualar-se com os outros e estar à altura da modernidade; e mais nada. Essa é a fonte da estratégia do êxito econômico. O consumo se caracteriza por um pensamento rápido (vejo, compro, substituo, jogo fora), sem perder tempo em reflexões. Uma bulimia irracional de consumo que se alinha com a estratégia de sucesso econômico. E anota, citando Einstein: “Há duas coisas infinitas, o universo e a idiotice; e da primeira não estou muito certo”

Por isso Maffei nos lembra que a paciência é a mais heroica das virtudes; justamente porque não tem a menor aparência de heroicidade.  A paciência é o guia seguro para incorporar de modo fecundo o progresso técnico. Esse é o caminho que permite a criatividade que é, em frase de Poincaire, consiste em unir elementos existentes com novas conexões que são também úteis. Por que a criatividade é própria de alguns indivíduos e não de outros? Todos têm ideias criativas, para a vida quotidiana. Mas para fazer de algumas dessas ideias objeto da vida e do trabalho, é preciso preparar-se pacientemente, fazer tentativas, esperar a grande ideia que nem sempre chega. Uma atitude que o autor denomina “monges do conhecimento e da beleza” que dedicam a vida a exprimir sua verdade com paixão e sacrifício pessoal, e numerosas renúncias. A capacidade de sacrifício e de renúncia tem muito a ver com o entusiasmo com que se acomete a tarefa: Existem certas atividades, como a do artista e a do inventor, muito comprometidas e com recompensas emotivas, onde o cansaço não se percebe e perde-se a noção de tempo.

Reflexões simples, de assuntos conhecidos, mas não por isso menos importantes. Uma advertência, dizíamos, ou um convite a imitar a lentidão fisiológica que rende organismos maduros, bem formados. Uma exortação atraente para vestir, com regularidade, o hábito do monge do conhecimento e da beleza.

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  • Jose Alves Silva

    Excelente. Considerações que ajudam os que vivem atropelando e atropelados na competição das burguesias entre si e com outros grupos burguêses.

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