The Crown: Um aprendizado de atitudes embrulhado em bom gosto.

Arquivado em (Serie) por Pablo González Blasco em 11-02-2018

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The Crown: Um aprendizado de atitudes embrulhado em bom gosto.

Creador: Peter Morgan. Claire FoyMatt SmithVictoria Hamilton, Vanessa Kirby, Pip Torrens, Pip Torrens, John Lithgow, Jared Harris, Alex Jennings, Eileen Atkins, Harriet Walter, Jeremy Northam, Harry Hadden-Paton.

 

Não sou de assistir séries. Assusta-me o risco de quase assumir um compromisso que envolve tempo, o que nem sempre tenho. Aliás, nunca tenho; a menos que haja uma rotina saudável que te proteja da adição incontrolada. Mas fiz uma exceção nas férias, e encontrei uma rotina. Foram vinte episódios, cobrindo as duas temporadas. Um capítulo por dia; resistindo a avançar no seguinte, aprendendo a ficar com o gostinho de quem quer mais. E degustando cada um deles, digerindo os ensinamentos embutidos em cada episódio, como se de um curso de férias se tratasse.

Fascinou-me, fez-me pensar, e aprendi. Muito. Por isso escrevo estas linhas: um tributo justo, o reconhecimento necessário a um aprendizado com o cinema, em formato de série, que é quase teatro. Enfim, uma homenagem ao aprendizado humanista, através das artes. Porque isto é arte, bom gosto, clareza e, antes de mais nada, reflexão. Um mês após finalizado o meu “curso de férias” as cenas, sobretudo os diálogos, acodem à memória ilustrando as situações que me cercam no quotidiano. Porque humanismo é isso: a luz que as humanidades e as artes trazem para o nosso dia a dia; não é uma fuga, um oásis para escapar por alguns momentos do deserto ou da selva da rotina diária, mas perspectiva luminosa que acende o nosso caminhar humano.

Já o disse, aprendi muito; desde o primeiro momento, em cada um dos episódios. Aprendi a importância de estabelecer as prioridades verdadeiras; quer dizer, o que se espera de cada um de nós, qual é a missão concreta que nos cabe. Logo no início, uma jornada de caça. O rei Jorge VI, já doente e sabendo que lhe resta pouco tempo, conversa com o genro, Philip. “Os títulos, o ducado de Edimburgo, todas essas coisas…. Isso não é teu trabalho…. O teu trabalho é ela! She is the job! Cuida dela, apoia-a, e não te percas com outras coisas. Essa é a tua missão”. Clareza imensa que qualquer um agradeceria para manter o foco no que deve fazer na vida, sem perder-se em quimeras inúteis.

Mesmo assim, a clareza não nos protege da nossa própria debilidade que, aliada ao orgulho embutido, reclama seus direitos, embrulha-se em complexos, fica espicaçada pela inveja. A jovem rainha sente que lhe falta instrução, que carece de cultura, e afinal -como diz o título de outro episódio-  o conhecimento é poder (scientia potentia est). O professor traz a clareza de volta: você está preparada para a tua missão, sabes o que tens de saber. O resto, no teu caso, é puro detalhe. Continuei aprendendo. Aprendi a não ter complexos de não saber. A rejeitar as tentações de ser superado pela juventude, pelos especialistas. De novo o ensinamento essencial: é preciso ter clara a missão -a de cada um- para entender quais são as competências que precisamos desenvolver. Não aquelas que gostaríamos (ou que nos causam inveja nos outros) mas as que nos permitem servir melhor.

Aprendi que essa missão se enfrenta frequentemente com a vida pessoal, com os direitos dos que aparentemente se abre mão, para atender o que se deve realmente fazer. Ensinamentos em forma de conselhos da avó, a velha rainha, Queen Mary, à jovem Elizabeth. “Estás um luto pelo teu pai, meu amado filho. Mas há outra pessoa pela qual terás de guardar luto. Elizabeth Mountbatten, que já não existe; ela deu passo à Elizabeth Regina. E na tua vida sofrerás sempre as oscilações dessas duas personagens que se debatem. Mas lembra-te: a coroa sempre deve prevalecer!” São os permanentes dilemas do homem público -ou de qualquer um que tenha responsabilidades de comando- entre a vida pessoal e o serviço. É preciso uma vida única. Sem exceções. Nada corre por fora da nossa missão.

Com atuação limitada a poucas cenas, Queen Mary é de fato um poço de sabedoria pratica. Com ela aprendi o que tenho que fazer e, mais importante, o que não devo fazer. Aprendi a evitar a tentação que supõe meter-se no operacional que cabe aos outros. Saber que o não fazer nada e sorrir, não é passividade ou omissão, mas a postura que se espera de quem está no comando de algum empreendimento, a abertura necessária para que os outros tomem a iniciativa sem receio, em ritmo fisiológico, com responsabilidade. A inatividade aparente da liderança é o espaço necessário, de espera e de silêncio, para que todos atendam as suas funções.

Mas isto não será um risco? -parece-me ouvir uma voz lá dentro, que evoca experiências passadas, nem sempre favoráveis. A resposta -continuo aprendendo- vem nos diálogos enriquecedores que salpicam vários capítulos. Aprender a montar o time certo, a confiar nas pessoas. Os conselhos da avó e as aulas de Elizabeth criança sobre os poderes que comandam o reino, e a quem deve responder cada um deles: ao povo, aos cidadãos, aos eleitores e, em último termo, a Deus. Saber ensinar as pessoas a que se enfrentem com a sua consciência; o melhor modo de governar.

Também aprendi que é preciso saber quando falar com as pessoas; onde falar, e de quê modo. E até a postura física, e o entorno. Porque somos diferentes, os assuntos a serem tocados são muito diversos. Com alguns pode se falar de uma declaração de guerra enquanto descemos uma escada, enquanto com outros é preciso marcar hora e tomar chá para sugerir que ficariam melhor se tirassem o bigode. Enfim, porque é preciso conseguir servir com eficácia. É disso que, afinal, trata esta experiência humanística em formato de série: do serviço em várias posições e lugares. Sem que o embrulho, ou a falta dele, atrapalhe.

Recordei com novo brilho, e por isso também aprendi, que é preciso proteger a bandeira, a verdade, o ideal sem permitir dilui-lo para adaptar-se às nossas próprias limitações e misérias. Veio à memória um magnífico ensaio -li há muitos anos- que elogiava os grandes “sem vergonhas”. São aqueles que reconhecem os seus erros e misérias, dizem que querem mudar, não conseguem, e continuam tentando. Mas, e aqui está o núcleo do assunto, nunca mudam a percepção da verdade. Sabem o que é certo e errado, mesmo que se mantenham no erro, por fraqueza. Isso é autenticidade e não ir mudando o gabarito para que se adapte, de modo confortável, as nossas respostas que oscilam com as veleidades do dia a dia.

O duque de Windsor, que foi o rei Eduardo VIII antes de abdicar por conta do seu casamento fora do protocolo, é uma figura que transpira aprendizado. Lembro que meu pai -acho que também o meu avô, o que significa que era consenso entre os homens da família- dizia que o Duque e Windsor era o homem mais elegante da Europa. De fato, a personagem da série faz jus a esses predicados, o que não deixa de ser outro duplo aprendizado: o bom gosto no vestir, e acreditar no que aprendes quando criança, que sempre tem fundamento.

Entre a elegância e a proteção a bandeira, chegam outros aprendizados. No momento da coroação de Elizabeth, o duque de Windsor está em Paris atuando como comentarista capacitado desse momento solene, transmitido por televisão. A dor que carrega de ter sido excluído da cerimônia, e de nunca ter sido coroado ele próprio, em nada embaça o respeito enorme pela solenidade do momento. Percebe-se o respeito tremendo que tem pelo ritual, atua como um verdadeiro mestre de cerimônias numa liturgia sagrada, porque assim a considera. Sabe que ele não se encaixa nesse contexto, mas também sente palpitar -e assim o afirma- a veneração pela monarquia. Não a despreza, nem muda o gabarito para estar confortável. Tempos depois, quando a Rainha lhe telefona para lhe falar do romance da sua irmã Margareth com um oficial divorciado, responde com uma clareza magnífica: “Entendo ela, e a apoio. Descobriu o amor. Como eu. Mas, Lilibet, eu tenho outro amor: a coroa. Sou um rei sem reinado. Mas você tem um reinado. Proteja-o”. Quer dizer, não deixe degringolar, nem mude as regras do jogo, porque eu amo esse jogo, levo-o no sangue.

O respeito pelo protocolo, pelas regras, que nos salvam de perigosas improvisações foi um aprendizado que já tinha ecos antigos. Há muitos anos, não me lembro em qual das  obras de Ortega y Gasset, entendi o gosto britânico pelas normas protocolares e pela tradição. Os ingleses, vinha a dizer Ortega, são originalmente normandos que invadiram a ilha, quer dizer bárbaros, vikings. Eles têm de se proteger deles mesmos com essa tradição protocolar. Sair-se dela é arriscar-se a voltar ao que são: bárbaros. Não me lembro se o filósofo espanhol dava exemplos, mas a imagem que guardei foi a dos Hooligans destroçando estádios, porque tinham se saído das normas. Se desprezamos o chá das cinco horas, corremos o risco de cair na barbárie.

Aprendi a importância dos sonhos, que aqui cristalizam na monarquia. “A monarquia lhes faz sonhar, lhes dá segurança, e sabem que têm alguém cuidando deles”. Para os que sempre vivemos em Repúblicas ou variantes, isso pode parecer muito forte. Mas o recado é outro: importa ter no comando alguém que mereça respeito, para que a admiração se transforme de algum modo em emulação. O tamanho do sagrado, do real, produz uma vertigem saudável e incita em nós anseios de transcendência.

Os aprendizados continuam até agora, e devem ter seus desdobramentos. Porque as cenas e diálogos ecoam com não pouca frequência alternando-se com o que temos entre mãos no dia a dia. Estaremos atentos para continuar aprendendo. Mas vale uma advertência final, para evitar mal-entendidos. O fascínio desta magnífica série não é por conta de uma apologia à monarquia como sistema de governo. Alguém poderia pensar que por discordâncias políticas nada teria a aprender. Não é verdade.  A coroa, a monarquia britânica no caso, é uma oportuna desculpa para apresentar com subido bom gosto toda uma série de lições de vida. Os aprendizados e reflexões decantarão ao ritmo dos episódios pausadamente degustados. Enfim, um elogio tremendo à postura, à atitude, ao modo de se posicionar no mundo. God save the Queen! Um grito que arrepia porque, de algum modo, é também um pedido de ajuda, para que Deus nos tire da mediocridade vulgar que nos cerca a todo momento.

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