Thornton Wilder: “A Ponte de S. Luís Rei”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 04-05-2018

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Thornton Wilder: “A Ponte de S. Luís Rei”. Companhia Editora Nacional. 2002. São Paulo. 95 pgs. (tradução de Monteiro Lobato).

A tertúlia literária mensal leva-nos hoje até uma das obras mais conhecidas do escritor americano, que lhe valeu o Prêmio Pullitzer de ficção. Uma obra curta, com uma tradução magistral por conta do nosso Monteiro Lobato que, certamente, faz toda a diferença. A advertência não é supérflua, pois não são poucas as obras que nos chegam destroçadas por terem sido submetidas a traduções lamentáveis.

Logo de início as opiniões dos ilustres leitores me colocaram em situação de alerta. Houve quem disse que estava esperando o desenrolar da história, o que nunca acontece. Cadê o Frey Junípero que investiga o porquê do desabamento da ponte, arrastando para o abismo, aquelas cinco pessoas? Chegou a alguma conclusão? Porque também sai de cena, sem deixar-nos saber a solução. Alguém, do outro lado da sala, acrescentou: mas existe solução para estas coisas? Por que a gente se pergunta pelos motivos somente quando acontecem desastres e não no dia a dia, onde parece que vamos tocando a vida no piloto automático?

Alguém falou de personagens complicados, onerados com o seu próprio modo de ser. A Marquesa de Montemayor em permanente conflito com a filha: “Mãe e filha torturaram-se mutuamente a ponto de fazer aquele encontro mutuamente insuportável”. E, na ausência surge o melhor, a correspondência materna que é o prato forte do relacionamento destas duas mulheres curiosas: “Foi então que teve início a correspondência epistolar famosa, precioso derivativo emocional de duas personalidades que não podiam viver juntas. A marquesa também teria se admirado de saber que suas cartas eram realmente boas como literatura, porque os grandes autores vivem tanto dentro da obra que elas não passam de emanações naturais e espontâneas dos respectivos temperamentos”

E os gêmeos, Manuel e Estevam, “que existiam um para o outro- sendo o resto do mundo o inimigo”. E tio Pio, personagem magnificamente desenhada por Wilder, que nos é apresentada com todo o colorido através da tradução notável. “Seis dos seus tributos de aventureiro destacavam-se nele – boa memória para nomes e caras (junto com a aptidão de mudar a sua cara e o seu nome conforme as conveniências), o dom das línguas, grande riqueza de inventiva, discrição, talento de sustentar conversa com estranhos, e uma soltura de consciência que o fazia desprezar os ricos por ele depredados (..) Não perdia teatro, tendo admissão franca em todos; seus aplausos valiam pelos de dez espectadores comuns. Jamais fez a mesma coisa duas semanas seguidas, ainda quando os lucros eram grandes. Parecia estar escrito na sua personalidade que jamais se ateria com fixidez a coisa nenhuma, nem se amarraria a contratos. Conseguiu graças à esperteza, escapar de todas as polícias do mundo -só não escapou da língua dos inimigos. (…). Toda essa atividade, porém, não enriqueceu Tio Pio. Era o caso de dizer-se que abandonava uma empresa logo que ela ameaçava prosperar”.

São realmente complicadas essas personagens ou é um reflexo da nossa própria vida? Alguém apontou que justamente quando decidem mudar de vida, tomar um rumo, encontram-se na ponte e, a seguir, na eternidade. Afinal, comentou outro dos leitores, a ponte é a nossa passagem. Antes ou depois cairá, sem avisar, e nos encontraremos do outro lado. Sábio aquele -complementou o nosso pensador-leitor- a quem a queda da ponte lhe surpreenda com a decisão do rumo certo na vida. Qual seja esse rumo certo era a pergunta que pairava no ambiente da nossa sala de conversas…..

Entretanto, sucedem-se as idas e vindas das personagens e dos comentários; a atriz Perichole que, junto com a abadessa, é a dobradiça sobre a qual giram as personagens, pois todos tem a ver com elas duas. O amor silencioso e sofredor de algum deles até lhes fazer afirmar que “muita gente não cairia em amor, se jamais ouvisse falar dele (..) A dor nos transtorna a razão”. O amor paternal de Tio Pio pela atriz a quem “tudo ensinou, e a instruiu nos mil nadas que formam os grandes todos”. E a filosofia desta mesma personagem que entende as mulheres. “Ninguém mais insaciável a respeito da alma e do cérebro feminino do que Tio Pio. Mas nunca se atrevia a ser amado. Tinha-se como antipático e incapaz de seduzi-las. As grandes mulheres formavam a sua paróquia -e veio disso adquirir o nome de Tio Pio, uma criatura que aparecia justamente quando elas se achavam em embaraços e necessitadas de socorro”

E, nas entrelinhas, entre os destroços da ponte e a saudade dos desaparecidos, a afirmação do amor, a única ponte capaz de perpetuar nossas vidas. De novo, creditando o pensamento ao Tio Pio, a personagem de maior envergadura filosófica, talvez um alter ego do escritor.  “Dividia os habitantes do mundo em duas partes -os que tinham amado e os que não tinham amado. Aparentemente constituem uma trágica legião os que não têm capacidade para o amor (ou antes, para sofrer por amor), visto que não vivem e muito certamente não viverão depois da morte. Formam uma população detrital que enche o mundo com seus risos e lágrimas sem significado, que se agitam e desaparecem no ar. (…) Olhava o amor como uma espécie de doença cruel por que todos têm de passar na mocidade e da qual os afetados emergem pálidos e abatidos, mas finalmente aptos a viver a sério a vida”

Retificar a vida, para que a ponte -que antes ou depois cairá na vida de cada um- nos surpreenda na atitude que tem sabor de eternidade: a capacidade de amar. Bela conclusão dos nossos comentários que me fez lembrar aquele pensamento do místico espanhol, S. João da Cruz, quando afirmava que “no entardecer das nossas vidas -quer dizer, quando a ponte está prestes a cair- seremos julgados no amor”. Esse é o saldo que permanece, o único que conta e que pode ser creditado do outro lado. Um belo estímulo para examinar onde estamos colocando nossos investimentos.

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