José Ortega y Gasset: “Meditaciones del Quijote”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 14-05-2018

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José Ortega y Gasset: “Meditaciones del Quijote”. Revista de Occidente. Alianza Editorial. Madrid. 1981. 165 pgs.

Um tremendo gosto de reler este livro de Ortega com o qual tinha estabelecido um diálogo -há marcas no livro que o provam- talvez há mais de 30 anos. Agora, aproveitando uma viagem de avião, encontro as marcas; e as lembranças acodem a memória, assim como a clareza dos conceitos que, confesso, andei utilizando com bastante frequência, sem nunca omitir a fonte de inspiração. É notória a minha admiração pelo pensamento do filósofo. Rabisco aqui estas linhas, em livre tradução do original em espanhol, e vejo na internet que a obra está traduzida ao português, embora desconheço a qualidade da tradução.

Os ensaios -ou meditações do Quixote- são fruto do que o autor denomina amor intelectual. E com a figura Cervantina como pano de fundo, Ortega lança um grito para acordar Espanha e os espanhóis, talvez muito conformados com uma situação medíocre. O filósofo insistia em cutucar continuamente pois, no entender dele, era outra a posição que Espanha deveria assumir no cenário intelectual. E para tal, a tomada de consciência -dos erros, e das possibilidades- tornava-se necessária. Não era -nunca foi- suficiente dormir em cima dos louros de passadas conquistas, e lamentar os erros sem extrair deles o frutuoso aprendizado.

Anota Ortega: “É preciso que libertar-se da superstição do passado, e não se deixar seduzir como se Espanha estivesse atrelada ao seu pretérito. São precisas novas experiências, e uma destas experiências essenciais é Cervantes. Uma plenitude espanhola. Se soubéssemos em que consiste o estilo de Cervantes a maneira cervantina de se aproximar das coisas, alcançaríamos grandes conquistas: poesia, solidariedade, filosofia moral, ciência e política reinam nesse estilo. Se soubéssemos prolonga-lo sobre os outros problemas coletivos despertaríamos para uma nova vida”

Mas os conselhos não servem apenas para os espanhóis das primeiras décadas do século XX. São recomendações universais, como este desafio de tomar o leme da própria vida: “Bem poderão os encantadores tirar-me a ventura (a sorte) mas o esforço e o ânimo são impossíveis diz D. Quixote. Se resistimos a que a herança e o meio nos imponham ações determinadas, é porque procuramos assentar em nós mesmos -somente em nós- a origem de nossos atos. Quando o herói quer, não são os antepassados ou os costumes do presente os que querem, mas ele mesmo. A heroicidade consiste justamente neste querer ser ele mesmo quem tem de ser”

Encontramos nas páginas deste ensaio -em verdade anotações de várias conferências- a atitude realista necessária para comandar a própria vida. “De querer ser a crer que já se é, vá a distância do trágico ao cômico. E a passagem da sublimidade para o ridículo. Isto acontece com D. Quixote quando não satisfeito com afirmar sua vontade de aventuras, obstina-se em crer-se aventureiro. A novela imortal está a ponto de se converter em comédia (…).  Em toda obra de arte existe pairando sobre ela como uma aspiração do que poderia ter vindo a ser. Em ocasião coincidem, e o projeto se identifica com a obra: são as obras clássicas. Mas não tem sentido a crítica estética entre as obras boas ou más. Na verdade, o mau é o pouco, quando não estamos de acordo com ela, porque ela mesma não chega no projeto do que queria ser. O estético não é esteticamente bom nem mau. A maldade estética é a insuficiência”. Sugestivo comentário que aponta a maldade como a falta de realização, de assumir o compromisso, de tornar-se cada um o que se espera dele, a sua missão no mundo. Não é uma questão quantitativa, mas de qualidade, de plenitude. É saber dar cada um o seu melhor, como dizemos na linguagem coloquial. A mediocridade, o poupar-se é caminho certo para a insuficiência e, no fim, para a maldade de quem falhou no seu projeto de vida.

O realismo de Ortega empurra para a contemplação das tarefas quotidianas, sem perder-se em quimeras quixotescas. Notável este parágrafo que já tinha incluído entre as minhas fichas quando li o livro por primeira vez. “É frequente nos quadros de Rembrandt que um humilde pano branco ou cinza, ou uma grosseira ferramenta se encontre envolvida numa atmosfera luminosa, que outros pintores somente colocam em volta da cabeça dos santos. É como se nos disse-se com delicada advertência: santificada sejam as coisas, amai-as. Cada coisa é uma fada que reveste de miséria e vulgaridade seus tesouros interiores, uma virgem que deve ser enamorada para tornar-se fecunda”

Ortega, que não era um homem externamente religioso, conserva a clareza filosófica que, quando honesta, acaba desembocando em Deus. “O ser do mundo não é matéria nem alma, mas uma perspectiva. Deus é a perspectiva e a hierarquia. O pecado de Satanás foi um erro de perspectiva. A perspectiva se aperfeiçoa com a ampliação dos seus termos, e pelo modo como reagimos diante deles. A intuição dos valores superiores fecunda nosso contato com os mínimos e o amor para com o que é próximo e miúdo provoca em nosso peito realidade e eficácia para o sublime. Para quem o pequeno não é nada, não é grande o que é grande”.

De novo: atenção ao que temos entre mãos, sem perder-se em sonhos ou fantasias. Viver o que temos, nas nossas condições e circunstâncias. Daqui nasce a conhecida frase do filósofo: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo ela, eu também não me salvo”. Frase muito citada, mas a maior parte das vezes de modo incompleto. Coloca-se -na cultura popular- a circunstância como uma desculpa, e não como um desafio que é preciso salvar, redimir. Por isso acrescenta Ortega: “Temos que buscar para nossa circunstância o que tem de peculiaridade, o lugar acertado na imensa perspectiva do mundo. Não nos deter diante dos valores fixos, mas conquistar na nossa vida individual o local oportuno entre eles. Em resumo: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem”

O convívio com os outros, a capacidade de compreensão: “Desconfio do amor de um homem pelo amigo ou pela própria bandeira, quando não vejo nele nenhum esforço por compreender o inimigo ou a bandeira hostil”. E saber apontar as próprias misérias que são fruto das desavenças, como aqui anota com elegância e clareza: “O rancor é uma emanação da consciência de inferioridade. É a supressão imaginária de quem não podemos realmente suprimir com nossas próprias forças. Na nossa fantasia, aquele por quem sentimos rancor, tem o aspecto lívido de um cadáver, o matamos, aniquilamos, com a nossa intenção. E depois, quando o encontramos na vida real, tranquilo e firme, parece-nos um morto indócil, mais forte do que os nossos poderes, cuja existência representa como uma burla personificada, o desdém personalizado para com nossa débil condição”

Uma volta ao realismo, à sensatez do que somos, temos e podemos. “Alguns homens negam-se a reconhecer a profundidade de alguma coisa porque exigem que o profundo se manifeste como o superficial. Não aceitam que haja várias espécies de clareza, se atêm exclusivamente à peculiar clareza das superfícies. Não advertem que é essencial para o que é profundo, ocultar-se atrás das superfícies, permanecer latente em baixo dela (…).  Desconhecer que cada coisa tem sua própria condição e não aquela que nós queremos exigir dela é, na minha opinião, o verdadeiro pecado capital, que eu chamo pecado cordial, porque é uma falta de amor. Nada é tão ilícito como empequenecer o mundo por meio das nossas manias e cegueiras, diminuir a realidade, suprimir imaginariamente pedaços daquilo que é. É o que acontece quando pedimos ao que é profundo que se manifeste do mesmo modo que o superficial”.  O mundo não é como nós queremos, ou gostaríamos. É o que nos vem dado, e o que temos de trabalhar: sem reclamações, com afinco, com persistência e humildade.

Uma viagem de avião, com muitas lembranças, inúmeras ideias, e sempre a clareza da escritura Orteguiana, iluminando as realidades que nos cercam, sugerindo novas abordagens nos problemas e desafios de sempre. Para isto serve o humanismo e a cultura que ele carrega. Não é uma conquista nem solução definitiva, mas o exercício de refletir e ponderar como diz o filósofo: “Cultura não é vida toda, mas somente o momento de segurança, de firmeza, de claridade”. Momentos de claridade inspiradores, que desabrocham na sempre necessária leitura dos textos de Ortega.

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