Alice Munro: “Felicidade Demais”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 05-07-2018

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Alice Munro: “Felicidade Demais”. Companhia das Letras. São Paulo. 2010. 341 pgs.

Desta vez a partitura da nossa tertúlia literária foi uma coletânea de contos de uma escritora canadense, que ganha o prêmio Nobel (2013) com 82 anos. Esse contexto já nos oferece motivo para reflexão: a data de validade das pessoas não é aquela imposta pelo mundo corporativo, quando descarta pela idade aqueles que não dão esperança de alta produção. Cervantes escreve a primeira parte de D. Quixote com quase 60 anos, Alice Munro leva o Nobel com mais de oitenta. Não há motivos -na nossa plateia seleta, de terceira idade- para aposentar-se na alma, e ficar de pijama fazendo palavras cruzadas. Trata-se, isso sim, de encontrar novas funções adaptadas às limitações que os anos impõem.

Munro fala de mulheres, todos os contos estão embrulhados em perspectiva feminina. Escreve muito bem – a tradução lhe faz justiça-, e descreve ainda melhor, atenta aos detalhes, desenhando as personagens.  Assim, a postura corporal: “Ela é uma mulher seca de olhar ansioso com um cabelo que parece um esfregão cinza-chumbo e uma discreta inclinação que poder ter nascido de tanto abraçar o seu instrumento (violoncelo), ou simplesmente do costume de ser uma ouvinte prestativa e uma interlocutora solícita”. A figura elegante, sem afetação: “Sua imensa e generosa sobriedade impessoal tirava daquelas roupas toda alegria invasiva, toda ofensa”. E o caráter frívolo e iletrado: “O problema é que ela não tinha onde se agarrar. Não sabia o que era vitoriano, ou romântico, ou pré-colombiano. Tinha estado no Japão, Barbados, vários outros países de Europa, mas jamais poderia localizá-los num mapa. Não saberia dizer se a Revolução Francesa veio antes da Primeira Guerra Mundial”.

Descreve com maestria a sintonia entre as mulheres: “Quando se conhecem e simpatizam particularmente uma com a outra sentem necessidade de estabelecer quais são as informações relevantes os grandes acontecimentos públicos ou secretos, e depois vão preenchendo as lacunas entre eles. Quando sentem esse calor e essa avidez é totalmente impossível ficam entediadas uma da outra. Darão risada de qualquer detalhe ou bobagem que estão contando, ou com a revelação de um egoísmo assombroso, uma frustração, crueldades, puras maldades”. De fato, um panorama pictórico da alma feminina.

Consegue juntar as formas com as percepções, o realismo com os sentimentos, o objeto descrito com a forma interna do receptor que o acolhe: comparações e metáforas giram bem na sua mão. “Sua voz era rouca e desentoada, separando estranhamente as palavras, como se houvesse blocos de linguagem presos em sua garganta (..) Acho que eu a odiava como algumas pessoas odeiam cobras ou taturanas ou ratos ou lesmas. Sem nenhum motivo razoável (..)”. Esta é talvez a principal caraterística da escrita de Alice Munro, pelo menos nesses contos.

Esse estilo mesclado, realidade com percepção, torna-se particularmente duro quando descreve defeitos físicos, personagens aleijados, conferindo-lhes uma viveza que a deficiência penetra até a alma de cada um deles. “O golpe fatal que aleija um homem, a brincadeira maldita que transforma olhos claros em pedras cegas (…)Nos dois éramos defeituosos, obvias vítimas de adversidades físicas. Seria o caso de pensar que duas pessoas assim tivessem uma causa em comum, mas o mais provável é ocorrer o contrário. Um fazia o outro se lembrar de algo que gostaria de esquecer”. Tremenda afirmação onde se apalpa a miséria da condição humana.

A nossa plateia, talvez um pouco perplexa por conta dessa mistura de realidades e sonhos, de fantasias e fatos, apontou isto como um desafio: parece que estás ouvindo uma história de alguém no ônibus, e de repente a pessoa desce no ponto e tudo fica em suspense, querendo mais. E até houve quem disse tratar-se de personagens esquisitos, complicados, com pouca lógica. “Houve um momento em que achava que não conseguiria viver sem café, mas acabou percebendo que era a caneca grande e quente nas mãos que ela na verdade queria, esse auxilio do pensamento ou do que quer que seja a que ela se dedicava ao longo da procissão das horas, ou dos dias (..) O cabelo dela era de uma cor que para mim confirmava um coração duro, combinações imorais, uma longa e agitada trajetória pelos becos escuros e sórdidos da vida (…) Ela era capaz de roer uma ideia até chegar no osso, e, portanto, podia vir a ser uma advogada (…) Ninguém importava para ela, nem eu, nem seus críticos ou defensores. Não passavam de insetos em volta da lâmpada (…) Como era melhor trabalhar com madeira ou sozinho -o assistente não contava- do que com os imprevisíveis jovens humanos”.

Mas a nossa reflexão mergulhou fundo nessa caraterística da escritora, que sabe dar voz ao que habitualmente permanece oculto, sentimentos, ideias, dúvidas. Daí a estranheza aparente das personagens, onde as fronteiras entre a realidade que aparece e as percepções que, também reais, permanecem latentes dentro de cada um, se dissolvem. Não será essa mistura a vida real? Já pensou -comentou alguém- se nossos pensamentos fossem publicados em voz alta? Quem seria “normal” depois dessa experiência? A força narrativa de Munro é como líquido revelador -aquele que se usava nos filmes fotográficos- que expõe o evidente, e o muito que estava oculto, impresso na película da alma de cada um. Os fatos e, com eles, em avalanche, os sentimentos, os sonhos, os futuríveis da criatura humana, saturados de misérias e também de heroísmos e nobreza. Um bom exercício para crescer em conhecimento próprio: por fora e por dentro!

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