Jaques Maritain: “Humanismo Integral”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 14-07-2018

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Jaques Maritain: “Humanismo Integral”. (Español:  Palabra. Madrid. 1999. 371 pgs). (Português: Cultor de Livros. São Paulo. 2018. 310 pgs)

 Leio a versão espanhola desta obra clássica de Maritain. Estava na minha estante há bastante tempo esperando o momento adequado. Pouco depois fico sabendo que acaba de ser publicado recentemente no Brasil: esse é o motivo da dupla referência nos dados do livro anotados acima. Escrevo em português, o que significa tradução livre, com a permissão dos profissionais que devem ter feito uma versão mais adequada da obra do filósofo francês. Mas como se trata de transmitir o recado -o que o livro me ensinou e o que me fez pensar- parece-me que funciona.

Já no prefácio, anota-se uma interessante reflexão de Maritain. “Quem sou eu? Um professor? Penso que não: ensino por necessidade. Um escritor? Talvez. Um filósofo? Isso espero. Mas também sou uma espécie de romântico da justiça que imagina, após cada combate, que ela e a verdade triunfarão entre os homes. E também um zahori (um adivinho, um vedor) com a cabeça grudada na terra para escutar o ruído das fontes ocultas e das germinações invisíveis”. É uma ótima contextualização para as páginas subsequentes, pois é isso que ele se propõe: levantar questões latentes, fazer pensar, empurrar ao compromisso pessoal.

Vale dizer que o livro recolhe seis lições ditadas na Universidade Internacional de verão em Santander, em 1934. Maritain quis construir com esta obra um novo projeto de ação política e social para os cristãos do século XX, que rompesse com o paradigma da Cristandade medieval como modelo, buscando uma união entre cristianismo e sociedade. Na Idade Média a dimensão transcendente era vivida, mas nem sempre de modo consciente ou reflexivo. Um modo ingênuo -talvez no piloto automático- que é preciso atualizar. Quer dizer, o modelo de S. Luis Rei da França, ou mesmo do cristianíssimo imperador da Espanha -Carlos V, Felipe II- não são os adequados para o mundo que o cristão ocupa hoje. É preciso atualizar o modelo, encontrar um Humanismo moderno e integral. Essa é a proposta.

As considerações do filósofo gravitam em volta dessa busca e nos oferece um passeio pela história do humanismo, seus acertos e seus desvios. Por isso adverte que no humanismo do renascimento -uma reação aos moldes medievais- se produz um giro radical para colocar o homem no centro. O modelo não funciona porque se perde a transcendência. “Propor ao homem metas apenas humanas é atraiçoar o homem e querer sua desgraça, já que pela parte principal de si mesmo, que é o espírito, o homem está chamado a algo melhor que uma vida puramente humana.  O vício radical do humanismo antropocêntrico é por conta do que tem de antropocentrismo, não de humanismo”. Nesse ponto o humano se degrada, porque lhe falta sustentação transcendente. “Deixa de haver personalidade, e somente ficam as larvas polimorfas do instinto e do desejo –acheronta movebo, dizia o próprio Freud- e toda a bem regulada dignidade da nossa consciência pessoal parece uma máscara enganosa. O homem seria apenas o cruzamento conflitante de uma libido e de um instinto de morte”.

Fugir do mundo – a tentação medieval, agora de cara nova- também não é solução. Refugiar-se numa bolha, para evitar “contaminações” é improcedente. Anota Maritain: “O mundo cristão moderno carece de presença no mundo. Encerrou a verdade e a vida numa parte limitada da sua existência, nas coisas do culto e da religião, e nas coisas da vida interior. Abandonou a vida social, econômica e política à sua própria lei carnal, subtraída da luz de Cristo”. Pode se entender este absenteísmo, mas não se justifica. Continua o pensador: “O que tem faltado neste tempo às partes vivas do mundo cristão não é o espírito evangélico, mas a consciência explícita dos campos da realidade onde esse espírito deve ser aplicado”. O desafio que isso implica -colocar as mãos na massa- não justifica a ausência dos cristãos no mundo. “O temor de se manchar por entrar em contato com a história é um temor farisaico. Não é possível tocar a carne do homem sem sujar-se os dedos. Mas sujar-se os dedos não é sujar o coração.  O cristão não pode se ausentar de nenhum domínio da conduta humana, pois em todas elas, se faz necessária sua presença”.

Esse programa de presença temporal do cristão implica compromisso com as realidades do mundo, ao tempo que exige maturidade espiritual.  “Para a comunidade cristã há dois perigos inversos, numa época como a nossa: o perigo de somente buscar a santidade no deserto e o perigo de esquecer a necessidade do deserto para a santidade; o perigo de fechar num claustro as virtudes privadas que devem oferecer-se ao mundo, e o perigo de conceber o mundo dissipando-o num heroísmo completamente exterior. O adquirir consciência do ofício temporal do cristão reclama um estilo novo de santidade que se caracteriza como santificar a vida profana”.

O livro inclui uma análise longa do Marxismo, oportuna nos anos 30, mas ultrapassada nos dias de hoje, após a derrubada dos paraísos comunistas. Tem interesse histórico, mas são 100 páginas dispensáveis, que até podem embaçar o recado principal que, esse sim, permanece atual. Como o mesmo autor anota em outro lugar, e que serve para o aqui comentado: “Nossas reflexões se referem ao tempo em que nos encontramos, ao que encontramos no presente momento, e o que temos de fazer neste instante”.

Daí que o que temos de fazer neste momento, é repensar e construir a postura que cada cristão tem de assumir nas suas responsabilidades temporais para fazer da sua teologia vida diária. Uma responsabilidade que cabe “não a Igreja, mas aos cristãos como membros temporais deste organismo temporal a quem corresponde de um modo direto e imediato transformá-lo e regenerá-lo segundo o espirito cristão”. A proposta de Maritain é de promover iniciativas de inspiração cristã, não iniciativas oficialmente cristãs, confessionais.

Citando a Péguy lembra que a revolução social será moral ou não existirá. E contrapondo-se à afirmação de Marx (é fácil ser santo quando não se quer ser humano) sublinha que essa postura nada teria de santo, nem de humano; seria a mentira do farisaísmo. E ser humano sem querer ser santo -a aparente proposta de Marx- é a mentira do humanismo ateu. “Nascemos para o amor que envolve a universalidade dos homens, sem deixar lugar ao ódio contra nenhum deles, e transforma nosso ser chegando à santidade”.

Essa é a essência do Humanismo Integral de Jacques Maritain: aquele que se nutre de um Amor Maior, e consegue chegar a todos os homens. Com um respeito análogo ao que Deus tem pela pessoa que, atuando dentro do homem, com delicadeza extrema, solicita-o sem força-lo. O verdadeiro humanista entende que a violência e a força não procedem, já que nem o próprio Deus força o homem. Solicitar, conquistar com amor envolvente.  Eis um parágrafo contundente a modo de fechamento: “O amor é força selvagem, e quando chega no ser humano a regiões cujas portas estão fechadas, troca-se em horror e ódio mortífero. Para ter a chave dessas portas e passar adiante, o homem necessita amar no homem aquilo que o vivifica, o Amor e o mesmo Dom”.

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