William Saroyan: “Um dia na tarde do mundo”

Arquivado em (Livros) por Karoline Barbosa em 07-08-2018

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William Saroyan: “Um dia na tarde do mundo”. Artenova. Rio de Janeiro 1977. 178 pgs.

 O livro entrou na lista da Tertúlia Literária, por conta de uma breve resenha que caiu nas minhas mãos. Vi que estava disponível à distância de um click na internet, adquiri, li e o recomendei à nossa audiência de pensadores. Não vou dizer intelectuais da terceira idade, porque a cultura nada sabe de idades, trabalha com outros parâmetros.

Como sempre que leio um livro, fiz anotações num papel solto -é o que utilizo como marcador, esteticamente criticável, mas de enorme utilidade. Logo de cara assinalei  a abertura do texto: “Um dia no entardecer do mundo, mortal tristeza tomará de assalto o país do seu espírito. Você fugirá, então, sentindo esse toque gelado e a sombra da morte.  Com um pouco de sorte, porém, tal presença apenas irá tornar mais profunda a musicalidade da vida e a inconsútil natureza do amor”. Pensei tratar-se de algum poema, e fui buscar o autor. Não o encontrei; conclui que era do mesmo Saroyan, e entendi que lá estava a modo de overture, um prelúdio do que espera ao leitor.

O protagonista é um imigrante armênio, como o próprio Saroyan. Ou talvez seja ele mesmo, seu alter ego que também escreve; neste caso, roteiros de teatro. O mundo dos imigrantes armênios fez me evocar aquele filme de Elia Kazan, outro armênio americanizado, Terra do Sonho Distante, que tem por título original América, América! Enfim, variações sobre o mesmo tema, e pano de fundo desta obra literária que transcorre com diálogos ágeis, diretos e tocantes, como se nos encontrássemos no teatro. Sem descrições, tudo é revelado através de diálogos em mano a mano dos protagonistas. Porque é o ser humano, em suas variadíssimas versões, o argumento do livro e das peças de teatro que Yeb Muscat, o  protagonista, escreve: “Como você diz que essa peça não tem enredo? Tem enredo, sim; gente. O enredo é sempre gente. Não existe outro tipo de enredo”.

O livro me surpreendeu. Na verdade, não foi o livro -afinal fui eu quem escolheu a pauta- mas sim os comentários, riquíssimos, acontecidos na tertúlia literária. Escutei elogios a esse homem sensível, prático. Firme nas suas convicções. Tem ideias claras, diretas. Não hesita, nem negocia. É pegar o largar. “Discutir o que? Ele não gosta do título, eu gosto. Quero apenas minha peça de volta”.

Demostra um amor peculiar e delicado com a filha, um carinho todo especial (algo que me passou desapercebido, foi um fotograma que apareceu-me através do líquido revelador da plateia feminina na tertúlia).  “Rosey nunca fora fácil -porque era uma dama, uma jovem, uma mulher, a filha de sua mãe, uma outra espécie, pertencente a outra nomenclatura, o membro de uma raça diferente -essa raça adorável, irresistível, inexplicável e complexa”. Amor que se transforma em indulgência com Laura, a mulher, uma eterna adolescente, “pura futilidade, desvairada, sem foco nenhum. ‘Vou colar seu telegrama no espelho do camarim, como fazem as estrelas….Você vai me dar notícias suas sempre-sempre?’ . Laura jamais soubera dizer adeus, não sabia se despedir de pessoa alguma. Ficaria sentada no taxi por toda eternidade protelando a hora de ir-se. Ele fechou a porta do carro, o motorista deu partida. Ela voltou no assento, acenou várias vezes, enviou beijinhos”.

O binômio feminino -esposa e filha- não é fácil de articular. A mãe tem suas diferenças com a garota, permanente lembrança de quem ela é, ou deveria ser e não consegue: “Essa coisinha é às vezes tão parecida comigo que chego a ficar furiosa. Não a concebo igual a mim e nem tampouco quero ser parecida com alguém, embora de vez em quando isso aconteça”. Yeb a defende com um argumento contundente: “Deixe a nossa filha em paz. Já que não temos competência para compreendê-la, falta-nos o direito de puni-la”

Em perfeita sintonia com as nossas intelectuais da Tertúlia a jovem Rosey nos descreve, de modo ingênuo e muito feminino, esse modo de ser do pai,  cuja aparente desordem é facilmente perdoada. “No momento em que nos sentávamos alguém se aproximava de nossa mesa -um desses seres completamente desconhecidos- dizia a meu pai que havia lido seu último livro, pedia licença para apresentar esposa e filhos. Logo, logo, havia uma multidão, uma festa. Papai bebia falava, contava histórias. Suas melhores histórias jamais foram escritas: eram as que contava a esses desconhecidos”

Muscat vai se enganchando nas pessoas, que no fundo é o que lhe seduz. E Saroyan, seu alter ego, tece tudo isso com comentários, diálogos rápidos, cômicos, espirituosos, agudos. “Alguns deles cursaram colégios ingleses em países do continente europeu. Eram simpáticos, atenciosos, empreendedores, metódicos, chatos. O tipo de gente que prolifera pelo mundo atual. Participam de todos os governos. Dirigem movimentos de solidariedade comunitária, reformas. Grandes escolas, hospitais asilos. Penetram em tudo vagarosa e sistematicamente.(…) Realizam coisas, sim, às vezes até mesmo cumprem extensas tarefas que a nada conduzem…..”. Uma prosa fácil e agradável. “Os anos passavam e nada ali parecia mudado. Havia sempre um russo pesadão, de movimentos lentos, a barba negra com marcas de nicotina em volta da boca. Junto dele o indefectível rapazelho magro, respeitoso, agitado…E com ambos, como sempre, mais duas mulheres, uma bem jovem e bonita, falando macio; a outra velhusca, corpo liso mas alegre e sorridente. Jamais estivera no Automat sem que lá se encontrassem esses quatro, não os mesmos quatro– mas eram quatro e todos falavam um idioma estrangeiro, como se estivessem em sua confeitaria favorita em S. Petersburgo, ou Varsóvia, ou Budapest ou Berlim”.

O gosto pelo ordinário, pelo quotidiano de onde ele sabe tirar brilho – outra característica destacada nos comentários- rende momentos de reflexão. A tarde do mundo são os momentos de reflexão, para colocar a vida em ordem. Ele volta para isso, para arrumar a vida, porque -disse alguém- chega um momento na vida em que é preciso ordenar as coisas, saber a que temos de nos ater.  Impõe-se a reflexão que, por vezes, chega a assustar; “Essa coisa de ficar lembrando o passado….Acabo achando que já não sou o mesmo” Cumpre resgatar a verdadeira proporção das coisas, o que realmente importa, mesmo que temporariamente se perca a cabeça pelo beisebol, “o maior drama tribal de todos os tempos, para o qual há milhões de pessoas que surpreendentemente não ligam”.

Contar histórias e escutá-las é o modo de dar relevo ao quotidiano. Para isso servem os escritores. Saroyan dá o recado num diálogo tão divertido como profundo:

– Esse é o vosso problema de escritores. Vocês desconhecem a finalidade da vossa obra.

-Qual é?

– Ajudar os homes a ser homens.

– E as mulheres?

– Ajudar a ser mulheres da mesma forma.

– E as crianças? Elas sabem ser crianças. Não precisam do auxílio dos escritores.

A variedade de estilos nada resta a essa nobre missão. “Sempre houve escritores rápidos. De qualquer sorte, o ato de escrever nada tem em comum com velocidade ou tempo. Relaciona-se mais intimamente com a capacidade de concentração das pessoas. Se um escritor leva um ano para escrever algo e outro apenas uma semana, ambos usaram o mesmo volume de concentração, o montante necessário à produção de uma nova obra”.

O último comentário da tertúlia, chegou novamente em tonalidade feminina reveladora, para fechar o ciclo de surpresas que me rodearam nessa agradável manhã. É a sequência do diálogo anterior, que dispensa qualquer esclarecimento:

– E os ratos?

– Não precisam dos escritores para nada. Apenas os homens e as mulheres precisam deles, principalmente os homens. Se existissem verdadeiros homens no mundo, as nossas pobres mulheres não andariam desamparadas como andam…..

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