Fabrice Hadjadj: ¿Que es una família?

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 17-08-2018

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La transcendência em paños menores ( y otras consideraciones ultrasexistas). Nuevo Inicio. Granada. 2015. 210 pgs.

 

Tinha anotada esta referência há algum tempo, e finalmente encontrei o livro numa viagem passando por Espanha. Leio a versão em castelhano, comento-a em português com a quase certeza de que dificilmente será traduzido ao nosso idioma. Não porque careça de interesse, mas porque seria questão de compatibilizar o peculiar estilo do autor, com um público disposto a comprar suas obras. Um equilíbrio nem sempre fácil.  O autor recolhe nesta obra uma série de conferencias proferidas diante de público diverso. Ocorre-me pensar que se a leitura não é fácil, mais complicado será acompanhar seu raciocínio ao vivo. Salvo que seja um comunicador nato, que consegue esclarecer com a linguagem corporal a densidade do seu pensamento. Não porque seja conceitualmente árduo, mas porque é essencialmente chocante e direto. As vezes a clareza pode ser tanta que deslumbre o espectador.

Logo no início já nos adverte que sua obra dista muito do que ele gostaria que fosse. “Me perguntam: como faz você para publicar tantos livros tendo uma família numerosa (6 filhos), casado com uma atriz, Siffreine?. Na verdade não o faço como gostaria, deixo que as crianças invadam meus livros, ao tempo que enquanto escrevo gostaria de estar mais disponível para eles. Mas vai ver que isso é a vida: os livros perdem em perfeição, mas ganham em verdade de vida; verdade manca, mas real”.

Os capítulos do livro são as diversas conferências. Em todos eles, como já advertido, prima a clareza impactante, abordando temas tremendamente atuais, com perspectiva diferente, crua. “O que é uma família? Mesmo com as falácias modernas -afirma- o essencial não se pode descontruir. Embora surgem propostas de famílias que não passam pelo sexo normal, o produto final quer se assemelhar à família que arranca da paixão e da cama do casal. São sempre adultos com crianças (adotadas, fabricadas, importadas). Ninguém propõe família com n adultos, ou acasalamento com outra espécie animal ou vegetal, ou variações curiosas (robô e chimpanzé, top model e planta carnívora)…Mantem uma ordem que imita a natural: sua subversão aparente é submissão, e suas ofensivas são no fundo homenagens inconscientes”.

Hadjadj é um defensor contundente da dimensão corporal do homem, tudo passa por lá, também o espírito. “Custa para alguns chegar na essência da família, porque seu princípio é muito elementar, humilde, demasiado animalesco. O herdeiro do trono sempre descende dos amassos reais na cama, a pomposa árvore genealógica tem seus galhos entre as pernas da mulher. O princípio da família está no sexo. Simples e cru, desse jeito. O filho chega como acréscimo do amor sexuado, não como o resultado de uma intenção direta. Se o filho pode dizer: eu não escolhi nascer, os pais poderiam lhe espetar: não também não te escolhemos, nos foi dado enquanto estávamos envolvidos em outros assuntos mais carnais (…) O leito conjugal é mais profundo e criativo que o laboratório do Dr. Frankenstein, e a mesa familiar é um objeto técnico melhor que qualquer computador ou tablet. Como dizia Anatole France, cama e mesa são móveis que é preciso ter em alta estima”.

A família é sempre um desafio, porque arranca de uma base carnal. A sublimação vem depois, se o homem for capaz de projetá-la.  “A família é o cimento carnal da abertura à transcendência! Buscamos a transcendência no longínquo, no extraordinário…..Na top model deslumbrante e não na mulher que temos do lado, e que está lá sempre para nos lembrar. A transcendência é o mais comum que existe. Uma transcendência vulgar que encontro cada vez que olho minhas partes íntimas. Sempre me remetem além de mim: o umbigo que me lembra a minha vida intrauterina, meus genitais que se projetam para a posteridade (…) A família sempre é um desafio. O imprevisto. Excede-se a ela mesma com os nascimentos e com as alianças externas que surgem: a sogra, e depois a sogra do nosso filho, e por ai afora  (…) Uma liberdade sem independência que nos empurra a uma aventura e mesmo a um drama. Gostaríamos de viver somente de contratos e ajustar as relações conforme as nossas conveniências, comprometer-nos quando visualizamos o lucro, dar o fora quando sentimos que o bicho vai pegar”

O autor promove a desconstrução de um falso “romantismo” e nos foca no quotidiano que temos entre as mãos. A pista de decolagem é absolutamente carnal, a roupa íntima, o embrulho da lingerie que raramente é fascinante. Ai é preciso encontrar a transcendência, esse é o desafio. “Pela sexualidade o homem volta-se para a mulher sem reduzi-la a si mesmo, pela inteligência o ser humano volta-se para o real, sem igualá-lo a si mesmo. Para a vida intelectual, o perigo é o objetivismo que reduz o ser àquilo que posso compreender; para a vida sexual, existe um perigo análogo, que é reduzir o outro sexo a um objeto para mim. A ideologia é como o machismo da ciência”.  Os desafios arrancam da origem da família, e seguem-se com a educação, algo que não se pode dar por suposto. “Como dizia Huxley, em admirável mundo novo: ‘Por que um homem que se limita a dormir com uma mulher vai ficar habilitado para educar um filho? Em que sentido a sua libido lhe confere habilidades educacionais?”.

A complementação dos sexos, na sinfonia da família, é tema que também aborda com originalidade: “A sexualidade vincula seres incomparáveis. Homem e mulher possuem a natureza humana, mas cada um a leva à perfeição por caminhos diferentes (….) O homem centra-se no objetivo, a mulher no pessoal. O homem se desenvolve especificamente, unilateralmente, enquanto a mulher o faz de modo homogêneo. Como disse Chesterton: as mulheres se falam, os homens se dirigem ao tema do qual falam. E pode ser que envolvidos no tema esqueçam dos amigos que lhes rodeiam, algo impensável para uma mulher. Eu pergunto: Como vai esse trabalho?, enquanto a minha mulher Siffreine diz: Como vão esses amores?”

Em outro capítulo, variações sobre o mesmo tema,  sugestivas, provocadoras, para falar do modos masculino e feminino: “O tempo sexual masculino é curto: o que vai do abraço até a ejaculação. O feminino é muito mais demorado, envolve tempos fisiológicos como as regras e a gestação. O tempo curto é o da façanha particular, do macho que pensa ser um herói. Mas é preciso contrapor sempre uma Penélope que tece o tempo longo, a fidelidade, que transforma o herói solitário em pai de família (…) A mulher no lar é um cliché. Mas é preciso admitir que o primeiro lar é mesmo o útero da mulher…Isto se apalpa na geração. Para o homem o outro sempre está fora, enquanto que para a mulher também está dentro, com um peso mais forte. O homem está frente a mulher grávida antes que ver ao seu filho. A mulher está habitada pelo filho. O homem vê, ela sente, escuta seu corpo. O homem associa a transcendência ao exterior, enquanto na mulher a transcendência é interior”.

O respeito pela profundidade desses modos de ser faz que com que aborde de modo original os temas de confusão de gênero. “Posso ser transexual, posso me afeminar. Mas ser mulher é o contrário de ser afeminado. Ser mulher é um dom físico, enquanto que afeminar-se implica destacar certos traços da feminidade mais do que a própria mulher. Afinal, ser mulher não é o somatório de traços femininos; quem adota esses traços e até os força, pode conseguir como resultado uma caricatura, mas nunca uma mulher.  Os afeminados veiculam os estereótipos do feminino, porque os fundamentam num ideal, não no ser real. Para mim como marido, não há ideal feminino, mas a mulher concreta com a qual me encontro diariamente, que acaba desfazendo todas minhas projeções”

O capítulo onde expõe a necessidade do convívio cada vez mais ameaçada pela tecnologia é excelente e muito oportuno. O jogo de palavras em francês –la table, (mesa familiar) e  le tablette ( Tablet)- dá pano para manga. “O cara a cara direto é impossível. O encontro humano exige uma posta em situação, um entorno propício, um ritual. É preciso aproximar-se do próximo, não pular por cima dele. A mesa familiar proporciona este espaço de proximidade, com a comida, a distância justa (..) O fast food sempre está associado à banda larga. Comer rápido, de qualquer maneira, para continuar conectado…..com o que? (…) É fácil admitir um amigo num chat, numa rede social. O desafio é admitir alguém na própria mesa. Para acessar a mesa é preciso desconectar o tablet. Do contrário o adolescente vira o chefe de família, o tecnológico substitui o genealógico (…) A mesa une porque se mantém na escala humana. O tablet pretende ser global, o indivíduo reclama e denuncia nos fórum virtuais, mas não se senta à mesa, como os conspiradores. Cada vez manipulamos mais, e manejamos menos. Sabemos utilizar as coisas, mas não sabemos usá-las. Um mundo no bolso: não sou mais homo sapiens, nem faber. Mas world marsupial! Os amigos -do nosso lado- que não queremos ter no Facebook porque suas realidades superam todas nossas ficções. Uma realidade desafiante”

Este assunto não é aspecto isolado, porque Hadjadj facilmente o conecta com o tema dominante do livro. “Estar enamorados não é nada; o difícil é mesmo estar juntos. Somos bolsas de tripas, nunca nos arranjaríamos com os sentimentos sem esse ritual (..) A mesa e o progresso: as comidas típicas, as receitas da avó, a denominação de origem. Enfim, parece que o progresso até pode atrapalhar. As boas maneiras se aprendem ao redor da boa sopa. Ocupamos um lugar e deixamos lugar para os demais. Assumimos nossa animalidade e a fazemos humana. Um ritual que não é só boas maneiras, mas horários, e liturgias. Conversas que mudam do primeiro prato até a sobremesa”.

O capítulo sobre o nascimento e as pessoas disformes traz a originalidade correspondente. “Um trissômico nasce, mas não pode ser fabricado. Nascer é sempre um desafio. Quem planejaria conscientemente ter um filho com deficiência? Uma mãe sim pode concebê-lo e permitir que nasça. Onde se encontra a criatividade mais elevada: in vitro ou in vivo? Na proveta ou no abraço de união? (…) Nosso nascimento escapa a nós mesmos. Mais do que a nossa morte. Posso matar-me , mas não posso gerar-me a mim mesmo. Meu nascimento é fato anterior a mim, insuportável para quem quer ter controle de tudo (…) A arte do camponês permite que se veja que a cultura é melhor que a técnica do programador, e a arte da parteira revela o que seja a filosofia melhor do que o laboratório do geneticista”.

Chocante e provocador:  esses são os adjetivos que surgem na minha cabeça cada vez que enfrento um livro deste autor. Nesta obra, penso que até ficam curtos, porque há momentos onde se torna revolucionário. E faz pensar: essa é sua grande contribuição. Um professor relativamente jovem, pai de uma família numerosa, com uma erudição tremenda -parece que leu tudo o que tinha direito, nem sei de onde consegue tempo para isso. Enfim, um pensador que expõe os saberes clássicos de forma moderna e atual. Num espectro que traduz desde o pensamento de Tomás de Aquino – A alma está unida a um corpo para alcançar sua maior perfeição; quem quer passar por um anjo nem sequer chega a ser um animal- até os experimentos com computadores que nunca serão homens porque lhes falta a dimensão carnal: “A máquina não será inteligente como o homem, não porque careça de poder de cálculo, mas porque não tem sexo. Os seus bits nunca poderão suprir essa falta. Limita-se a funcionar, mas nunca é desgarrada com o desejo do outro”. Ler Hadjadj é sempre uma aventura vital. E uma erupção vulcânica de ideias que iluminam  a realidade.

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