Hostiles: Categoria e Valores Clássicos num Faroeste Moderno

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 07-10-2018

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Hostiles. Direção: Scott Cooper. Christian Bale, Rosamund Pike, Wes Studi, Jesse Plemons, Rory Cochrane. Duración: 133 min. USA. 2017

Aqueles que desfrutamos a infância-adolescência nos anos 60, e fomos nutridos com faroestes clássicos, olhamos com desconfiança quando aparece um novo filme que alguns situam nessa categoria. Um faroeste moderno… será? Sempre penso que tentam me vender um Rolls Royce, com perfume britânico…. made in China.

Nada a ver com aqueles filmes ingênuos onde o mocinho ganhava depois de eliminar, sem efeitos especiais, manadas de índios, ou a turma de bandidos em quem era impossível encontrar um pingo de humanidade. Ou aqueles outros, mais densos,  maduros, psicológicos. Mistura-se com as lembranças da infância a metodologia do baixinho durão, Alan Ladd, em Os brutos também amam “Como fazem os bandidos de verdade?” – pergunta o garoto. Shane sorri: “Alguns usam dois revólveres, outros os colocam ao contrário, tem quem pendure no ombro… mas basta um quando se sabe atirar”. Esse é o tema: para fazer um faroeste é preciso saber atirar. De nada adianta preencher com perfumaria.

Lá desperta também nas recordações Gary Cooper, com Grace Kelly vestida de noiva, e a trilha sonora – Do not forsake me oh my Darling – naquele emblemático filme em tempo real, Matar ou Morrer. E, com lugar privilegiado John Wayne, a estrela carro chefe do diretor John Ford, que transita desde a sela de copiloto xerife na diligência até o filósofo caolho de Bravura Indômita: “Se eu soubesse que para ganhar um Oscar tinha de colocar um tapa-olho teria feito isso 35 anos atrás” – declarou na noite da premiação.  A versão moderna desse filme (2010) é completamente dispensável… made in China.

Por algum descuido, ou talvez pela curiosidade de ver Batman (Christian Bale) com fantasia de capitão ianque, me aventurei a pulsar o botão sobre  este filme na tela da poltrona do avião, coisa que dificilmente faço. Geralmente leio, ou durmo, porque no dia seguinte a vida continua. Mas -nem lembro direito- devia ser um voo diurno, ou com tempo por diante. Impacto, surpresa agradável e novamente lembranças, desta vez não desbotadas mas reatualizadas, como uma nova versão de um clássico. Rastros de Ódio, se chamava (The Searchers). John Ford e John Wayne, num filme duro, peculiar, de um velho caubói procurando a garota que foi raptada quando criança pelos índios. Homem seco, de poucas palavras, independente de tudo e de todos, cumpridor do seu dever, com enraizado sentido da honra. Esse era Ethan Edwards- John Wayne, no filme dos anos 50. Esse é, como um alter ego, o capitão Joe Blocker- Christian Bale em Hostiles.

Agradou-me, senti firmeza, marcou. O que para tratar-se de filme assistido em voo de classe econômica, tem mérito, pois somente voltei para a realidade da poltrona estreita nos créditos finais. Semanas depois, deparei-me com um comentário de uma revista de cinema espanhola, elogiando o filme, e criticando o fato de que, por motivos que não entendi, não passaria em cartaz: para assistir, somente comprando. Fiz-me com uma cópia e assisti de novo, agora em local confortável, com um grupo de amigos que me convidaram para dar uma palestra num curso de liderança. Cenário perfeito para degustar, com calma, as cenas e diálogos, em reprise sossegado.

Confirmei o diagnóstico semi- onírico que tinha feito no avião.  Um faroeste de muita classe. Denso, sólido, com interpretações magníficas e verossímeis. Personagens bem definidos, pulso com classe na direção, fotografia excelente, com perspectivas que lembram, muito, os faroestes clássicos. Cavaleiros que se recortam no horizonte, no topo da colina, com o por de sol no plano de fundo, laivos vermelhos ao redor: um fotograma que poderia ser assinado confortavelmente por John Ford.

Atores que incarnam valores, transpiram propósito. O capitão Blocker, mostrando obediência e  sentido de missão, sobrepondo-se a velhos rancores. Recordei uma história bélica que escutei há tempo: um general discordava da estratégia dos seus pares; sugeriu-se uma votação, e o dissidente advertiu a priori: se triunfa a opção contrária á minha, peço que me coloquem à frente da missão, para não ter chance de voltar atrás. Eu sou um soldado, e sei cumprir as ordens. A mulher embrulhada em tragédia familiar -estonteante e fabulosa Rosamund Pike- que dá a volta por cima, ajuda, colabora, sabe que o mundo está além da sua dor. Os índios, sofridos, mas com densidade humana, porque afinal somos todos material análogo, perpassado de misérias e grandezas. Mesmo os maus -também aparecem- onde a miséria parece ter estabelecido o seu reino, sempre com a chancela do egoísmo destrutor, de pensar no próprio umbigo, do “eu sou dono do meu nariz e não levo desaforo”.

Blocker, um cavalheiro, que saber trabalhar os silêncios, a cortesia, lê César na guerra das Galias -creio lembrar que em latim- e com uma paciência enorme, própria de um líder. Fazendo memória, parece-me lembrar que o meu encontro com este filme foi num voo da Air France, e sorrio com as coincidências: os franceses fazem da paciência, não apenas um substantivo, mas um verbo, uma ação: Patientez! se lê no visor da máquina quando se coloca o cartão de crédito. Um metodologia a seguir, uma virtude a exercitar.

Ação medida, sóbria, na dosagem necessária. Diálogos que em momento algum caem no lugar comum, ou no maniqueísmo simplista. Densidade humana, nos sentimentos, na postura, nas crises vitais.  E a boa vontade, o gosto pela integridade e honradez que vai se abrindo caminho entre as desconfianças, e transforma as diferenças em apoio para superar, de braço dado, as agruras da vida alavancadas pelas maldades alheias. Uma jornada longa, ate as terras de Montana, onde as magnificas paisagens se sobrepõem à topografia da alma humana, eterna peregrina em busca da paz de espirito. Essa é a viagem, a interior, com sabor de missão, a que no final importa. Trajetória vital em narrativa épica, convenientemente vestida de faroeste. Moderno, mas com sabor clássico, onde ecoam -entre vales, montanhas e cânions- as vozes e caráteres dos heróis de sempre. Um filme necessário.

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