Mary Ann Shaffer & Annie Barrows “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 19-12-2018

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Mary Ann Shaffer & Annie Barrows “A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata”. Rocco. 2009. Rio de Janeiro, 303 pgs.

(The Guernsey Literary and potato peel pie society).

Deparei-me com uma crítica do filme do mesmo título, assisti à fita  e comentei com um amigo, grande leitor. Disse-me: “melhor ler o livro, original, inspirador”. Um par de dias depois entregou-me o livro que desentocou da sua biblioteca. “Penso que pode ser uma boa opção para o teu projeto da tertúlia literária”. Assim começou esta aventura com um romance epistolar -construído à base de cartas, como uma colcha de retalhos- onde as peças desaparecem para surgir, em plenitude, o tecido magnifico. Não é fácil essa originalidade, onde as partes perdem protagonismo para integrar-se num argumento construído com pequenas peças. Como esses mosaicos que encontramos nos templos orientais: uma catequese viva, envolvente na sua unidade, que não deixa perceber as milhares de pequenas pedras que o formam.

Mas aqui, tudo seja dito, o romance não tem nada de oriental: é muito britânico, com sabor de império, e muito feminino. As reflexões de Juliet, a protagonista, e dos interlocutores das diversas cartas, não dão lugar a dúvidas: “Não quero me casar só por casar. Não consigo pensar em solidão maior do que passar o resto da minha vida com alguém com quem não possa conversar ou, pior, com alguém com quem não possa ficar em silêncio (…) Acho que tenho um pretendente, mas ainda não me acostumei direito com ele. É incrivelmente charmoso e me faz a corte com refeições deliciosas, mas às vezes acho que prefiro pretendentes nos livros em vez daqueles de carne e osso. Que coisa horrível, atrasada, covarde e mentalmente deturpada, se for verdade. Os homens são mais interessantes em livros do que na vida real”.

E o toque britânico: “Ele sempre teve um bocado do que nós chamamos de atrevimento e que os americanos chamam de espírito empreendedor (…) Não tinha nenhuma imaginação -algo fatal para alguém encarregado de educar uma criança (…) Durante o jantar, conversamos sobre Jonathan Swift, porcos e os julgamentos de Nuremberg. Isso não revela uma enorme amplitude de interesses? (…) Algum de vocês já se deu conta de que foi mais ou menos na época em que a noção de ALMA desapareceu que Freud surgiu com o EGO para pôr em seu lugar?” E o genuíno feminismo britânico: “Se você estava querendo me deixar morta de ciúme, não conseguiu. ….Vocês dois tem algo em comum: ambos querem me ver infeliz. Talvez vocês pudessem fundar um clube”

Por alguns imprevistos, o dia agendado para nossa tertúlia -onde saboreamos os comentários e perspectivas da cultura compartilhada- foi tumultuado, e tivemos de encurtar o tempo. Somente me restou colocar um desafio, seguindo o modelo do romance epistolar: escrever uma carta para os outros participantes anotando as impressões de cada um. O resultado saiu melhor que de encomenda, magnífico, e muitas “cartas” chegaram no meu e-mail, iluminando aspectos desta obra. Prometi ler todas -o que fiz- e tentar recolher alguns dos comentários nestas linhas, sempre uma empreitada difícil.

Houve quem entrou de cheio no clima do livro: “Queridas; me permitam chama-las assim, me sinto intima depois da leitura desse livro. Vocês só podem ter vivenciado muito de perto situações, lugares, pessoas para descreve-las dessa forma. Ri e quase chorei com os personagens. Tive vontade de socar o nariz daquele seu primeiro pretendente…. Andei pelos campos Guernsey, fiquei com água na boca com os patês e até com o porco. Vou tentar fazer uma torta de casca de batata mais saborosa que aquela (sou boa cozinheira). Sofri com Elizabeth e me deliciei com Kit. Todos os personagens de uma forma ou outra me cativaram até a coitada da bruxa fofoqueira que não conseguia aproveitar a vida”. A tal bruxa é a personagem de quem se comenta com encantadora ironia: “A senhorita não conhece a srta. Addison, e tem sorte de não conhecer -ela é demais para uso diário”. E acerca da cozinha, lemos numa das cartas: “Era isso que o meu livro de receitas era -pura poesia na panela”.

O tema da ocupação alemã -o lado triste da história, que embasa o argumento, a gênese da sociedade literária- também foi tocado com acerto e delicadeza: Gostei da forma da autora escrever sobre a guerra, um assunto tão denso, deixando mais leve, conseguindo ressaltar o lado bom de alguns soldados alemães. Apesar de tratar sobre a guerra suas razões e consequências, um tema universal, este romance retrata bem como viviam bem os habitantes desta ilha assim como seus costumes e o modo peculiar de se viver. Confesso que não pretendia mais ler sobre assuntos relacionados a 1° e 2° guerras mundiais. Sinto-me muito mal e não consigo entender o ser humano capaz e inteligente, sentir prazer em praticar atrocidades e maus tratos a seus semelhantes. Mas apreciei o livro, muito.

A percepção dos nossos leitores da Tertúlia coincide com as reflexões plasmadas nas cartas do livro: “Durante a Ocupação, conheci muitos soldados alemães decentes. Não podia ser diferente, convivendo com alguns deles por cinco anos. As pessoas acabam se conhecendo”. Isso me fez pensar na importância das histórias de vida, que é o que nos leva a realmente conhecer o interlocutor. Encontrar em tempos de guerra, momentos de consolo e aconchego, porque as dificuldades unem, mesmo que se lute em bandos diferentes: “Alguns ilhéus nunca pensaram no tédio daqueles anos como sendo um motivo para confraternizar com o inimigo. O tédio é um motivo poderoso, e a possibilidade de se divertir é um atrativo poderoso  -especialmente quando se é jovem”. Anota uma leitora que gostou das passagens relativas aos soldados alemães e as moças namoradeiras da ilha: “ elas voltavam das festas com pães, patês, frutas…e suas famílias tinham uma refeição completa no dia seguinte.”

Descobrir o poder das cartas, o grande bem que podem fazer, foi outro ponto alto: Lembrei que eu fui criada até os 17 anos em sítio, mesmo estudando na cidade. E no sítio tinha muita gente que não sabia escrever e pediam para escrever cartas para seus familiares. Eu escrevia bastante na introdução e depois dava as notícias que eles me ditavam. E com isso me lembrei também que sou do tempo que se escrevia cartas. Eu  escrevia muitas cartas e gostava. Às vezes escrevia para alguém que estava triste e a pessoa me dizia que ria muito com as coisas que eu contava.  (…) Quando comecei a leitura, fiquei triste ao pensar que ninguém mais poderá escrever um livro baseado em cartas, porque atualmente são poucos os que as escrevem. Que pena… Muito interessante também é a frequência com que estas cartas eram escritas; em dias subsequentes ou a cada 2 ou 3 dias elas eram enviadas ou recebidas. Foi um prazer lê-las e conhecer tantos personagens e tantas histórias (…)O personagem que menos me interessou foi Sophie, também…. não fez nada. No decorrer do livro, ela recebeu em torno de 15 cartas de Juliet, não respondeu nenhuma……afinal, era a melhor amiga de Juliet, e esta estava desabafando. Lembrei do Cardeal Newman que afirmava serem as cartas escritas por alguém a melhor fonte para uma biografia, porque nelas encontramos a pessoa no seu natural, no seu molho. Nesse contexto, entende-se bem a força que é capaz de transmitir um romance epistolar como o presente.

As anotações que me chegam, se misturam com as minhas próprias, e tudo é batido no liquidificador para cozinhar o bolo de casca de batata, cuja essência é a mesma da nossa Tertúlia: compartilhar o que se leu, o que se pensou, crescer todos juntos. Anota uma das nossas leitoras, imagino que identificando-se com uma das personagens:  “ A princípio eu não queria ir a nenhuma reunião sobre livros. Minha fazenda dá muito trabalho e não queria desperdiçar meu tempo lendo sobre gente que nunca existiu (…). À resistência inicial, segue-se à conversão: “ nós nos agarramos aos livros e aos nossos amigos, eles nos faziam lembrar que havia um outro lado em nós.

Descobrir o horizonte enorme que a leitura proporciona. É Juliet falando: “Frequento a livraria há anos….Sempre encontro o livro que queria – e mais três que eu não sabia que queria. É isso que amo na leitura: uma pequena coisa o interessa num livro, e essa pequena coisa o leva a outro livro, e um pedacinho que você lê nele o leva a um terceiro. Isso vai em progressão geométrica -sem nenhuma finalidade em vista, e unicamente por prazer”.  Os participantes da Tertúlia na mesma sintonia: A leitura nos enriquece e nos transforma… A Tertúlia, tem me transformado numa pessoa melhor. Tudo isso me deixou encantado. Como é bom fazer uma leitura de um livro que vai marcar a minha vida e a do grupo que conheci. Pertencer e frequentar o grupo da Tertúlia Literária me traz muito orgulho e satisfação. Ao comentar com os meus familiares e amigos sobre um clube de leitura onde discutimos e analisamos os conteúdos de livros sinto-me muito importante e vaidosa sem contar com o bom estado de ânimo e alegria que essa atividade me proporciona.

O bem é difusivo e a cultura também. Interessante este fato que me chegou entre as muitas anotações: A sociedade literária formada por Elizabeth e seus amigos  mudou a vida das pessoas que viviam naquele pacato lugar… propiciando reflexão, conhecimento e estreitando os laços. Enfim, gostei muitíssimo desse livro, e ao devolvê-lo à biblioteca, disse isso à funcionaria que o recebeu. Ela disse que irá ler esse e outros livros. Então aproveitei e passei o nome de alguns livros que nosso grupo já leu. Temos mais uma leitora… Nota-se um sabor de conquista, envolvendo -como no romance- novos elementos no projeto de leitura.

Finalidade esta -envolver pessoas no aconchegante manto da cultura- que está perfeitamente alinhado com o propósito do escritor, que lemos no final: “Espero que o meu livro possa ilustrar minha crença de que o amor pela arte -seja poesia, prosa, pintura, escultura ou música- permite que as pessoas ultrapassem qualquer barreira inventada pelo homem.”  Uma das nossas leitoras já o tinha adivinhado quando anota: Um escritor não escreve somente para ver sua obra publicada, muitas vezes sente a necessidade de escrever para si próprio, como se os seus sentimentos estivessem transbordando e só se sentisse melhor expondo tudo em um papel”. Magnifico ensinamento que um outro amigo, experto nestes cenários de leitura compartilhada, comentava-me certa vez: “faça as pessoas escrever! Quando falamos, nos tornamos claros para os outros; mas ao escrever, nos fazemos claros para nós mesmos!”.

Um último recado, consenso entre os leitores: o filme, embora agradável e de bom gosto, não chega perto da qualidade do livro. Confirma-se a advertência do meu amigo, e a norma geral nestas disputas: onde há livro por trás do filme, salvo raríssimas exceções, o livro sai sempre vencedor. Não há filme que consiga concorrer com a imaginação espicaçada por uma boa escrita!

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