Filmes fantásticos: Destilando valores dos fotogramas de ficção.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 19-03-2019

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Filmes fantásticos: Destilando valores dos fotogramas de ficção.

Aquaman. (Aquaman) Diretor: James Wan. Jason Momoa, Amber Heard, Nicole Kidman, Patrick Wilson, Dolph Lundgren, Willem Dafoe, Graham McTavish, 143 min. 2018.

Máquinas Mortais (Mortal Engines). Diretor: Christian Rivers. Roteiro: Peter Jackson. Hera Hilmar, Robert Sheehan, Hugo Weaving, Jihae, Ronan Raftery, Leila George, Patrick Malahide, Stephen Lang. Duración: 128 min. 2018.

Pantera Negra  (Black Panther). Diretor: Ryan Coogler.  Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis, Florence Kasumba. 144 min. 2018.

Ao longo das últimas semanas, foram entrando no meu radar alguns filmes diferentes daqueles que costumo comentar. Nem saberia dizer por quê: fantasias na tela, comics que viram filmes (comics com os quais não estou familiarizado, diga-se de passagem), super-heróis. Não posso dizer que nada sabia deles pois alguma dica tinha me chegado: uma candidatura ao Oscar acompanhada de alta bilheteria, a realização bem conseguida de um Comic clássico….e um diretor que está sempre na minha lista de gente séria no comando de mais uma das suas ficções.

O fato é que, entre um filme “oficial” e outro, acabei assistindo estes três….e gostei. Não somente gostei, mas senti o impulso de filosofar em cima deles, de dar corda ao pensamento vital, de tirar conclusões para a vida. Parei, e refleti: não tem como fugir, meu caro. Você pensava que estava assistindo alguma coisa para relaxar…..e eis que estás aqui escrevendo, espremendo as cenas e os diálogos, enfim, destilando valores desses fotogramas de ficção. E todos juntos, ao mesmo tempo, porque a imaginação que é obrigada a voar durante a projeção, atua como batedeira que mistura em saborosa combinação, este mousse de pensamentos, uma mélange de considerações que se traduzem em atitudes perante os desafios que nos cercam. Para isso servem as histórias, e os heróis: para educar-nos na pedagogia do exemplo. Os gregos que o digam.

Uma saga mitológica leva-nos até Aquaman, o herói entre dois mundos, com dupla cidadania oficial, produzido por conta do amor -essa força que une os mundos, e que agora novamente estão separados. Enfrentados, em obstinado antagonismo. Não é fácil ser herói, o ônus é  tremendo,  os superpoderes estão sempre   no limite, entre o possível e a missão a cumprir. Parece que a conta não fecha. E o herói, que não gostaria de sê-lo, quer viver a sua vida, tirar férias, mas não consegue. Lembrei dos comentários que fiz num dos enormes filmes de Batman a este respeito: o herói sem direito a férias.

E também veio à mente uma instigante consideração que li recentemente num magnífico livro de Julián Marías, filósofo espanhol, discípulo de Ortega falando da missão de cada um: “A vida se move entre dois elementos que não se escolhem: um deles é a circunstância que nos é imposta, com a qual nos deparamos, querendo ou não; o outro é a vocação, que não nos é imposta, porque frente a ela somos livres, mas nos é proposta, e se somos infiéis a ela, uma vez que a descobrimos, a consequência é a inautenticidade, a falsidade da nossa vida”. Um belo corolário do postulado Orteguiano “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Frase muito citada, mas a maior parte das vezes de modo incompleto, pois a frase continua “…. e se não salvo ela (a circunstância) eu também não me salvo”.  Coloca-se frequentemente a circunstância como uma desculpa, e não como um desafio que é preciso salvar, redimir. Por isso acrescenta Ortega: “Temos que buscar para nossa circunstância o que tem de peculiaridade, o lugar acertado na imensa perspectiva do mundo. Não nos deter diante dos valores fixos, mas conquistar na nossa vida individual o local oportuno entre eles. Em resumo: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem”.

Os mortais comuns, não somos desse reino de Atlântida, onde o mar leva nossas lágrimas, mas desta terra onde precisamos senti-las, e redimir nossas circunstâncias. Unir mundos, que é promover a solidariedade e compreensão, abrir-se em cordialidade para todos. E a toda hora, sem tirar férias. Um belo desafio para viver no quotidiano, sem efeitos especiais, mas com os mesmos desafios: as paixões humanas, as misérias dos outros e as nossas próprias.

Dessas mesmas paixões, fala-nos Máquinas Mortais comandada por Peter Jackson e seus mundos fantásticos  que transitam do Senhor dos Anéis até King Kong. Jackson faz os filmes que gosta, diverte-se filmando e colocando na tela os sonhos da infância (a ideia de fazer King Kong já estava presente quando criança).  Cidades sobre rodas, que avançam e fagocitam as pequenas, numa sobrevivência darwiniana. Londres , a cidade imperial, onde os habitantes parecem uma torcida de Hooligans, o que faz sentido. Quando se perde a compostura, a politesse e os protocolos britânicos -tão celebrados- quebram-se as barreiras, e eles voltam à sua origem normanda. A observação -uma vez mais- é de Ortega que apontava a razão última da fleuma protocolar inglesa: era a única barreira que poderia salvar eles de transformar-se nos bárbaros que foram outrora. Quando se suprime o chá das cinco…..corre-se o risco de virar Hooligan.

Paixões puras -vingança, avareza, inveja, enfim um fatorial demonstrativo dos pecados capitais- e por cima de todas, redimindo-as,  o amor. O amor desvenda o mistério, paralisa as decisões trágicas, torna o olhar de Shrike – o morto vivo que ama a garota e quer poupar ela do sofrimento- doce e compreensivo. “Você está chorando….Você o ama”, um sedativo que acalma e conforta no meio do caos. Qualquer semelhança com o olhar de King Kong, sobre o Empire State Building, olhando para a bela mulher não é mera coincidência: são as fantasias de Jackson e o amor que se doa, resgata, e salva.

As paixões, o amor, a missão e a vocação nos levam ao terceiro filme desta trilogia fantástica: Pantera Negra. Um trono que precisa de um rei, o parente que usurpa o reino tornando-o cinzento e sombrio. Espera-se a volta messiânica de quem é rei por direito, e tem de assumir seu papel. Mas é complicado, porque além de vencer o malvado, exige-se primeiro vencer-se a si mesmo, redimir as circunstâncias, agarrar-se à vocação para abraçar a missão. Tudo isso no coração da Africa negra. Parece familiar este relato?

Sim, é isso mesmo. E a saga do Rei Leão contada de outro modo, visualmente poderoso e direto. É a história do leão brincalhão , Simba, que tem de se encontrar com o seu pai, levar um puxão de orelhas, a assumir a responsabilidade que lhe cabe. Como não lembrar dos entranháveis animais de Disney que acompanharam nossa infância, nos humanizavam com suas atitudes  e todos entendíamos o recado?  Um paradoxo -animais humanizando pessoas- cuja falta de lógica a ninguém incomodava. Aqui não são animais, mas homens de Wakanda, imaginário pais que deve a força a um  misterioso metal. Ou, mais do que homens, mulheres que são as verdadeiras protagonistas, em formato de mães, guerreiras e conselheiras. Quer dizer, mensagens poderosas em formato politicamente correto: mulheres no comando, africanas, minorias oprimidas, o imperialismo desterrado, e todos os acessórios para ninguém reclamar.

O mousse filosófico dispara, e me leva até um pensamento que li há muitos anos e reproduzi em outros comentários  a propósito dos filmes que se atrevem a falar com franqueza. Dizia o pensador que a simplicidade que conquista e se impõe é própria das crianças, dos loucos e dos santos. As crianças falam o que pensam porque não tem discernimento nem conhecem a vergonha. O louco perdeu a crítica que governa as boas maneiras e o relacionamento social. O santo não se preocupa com a plateia humana, pois atua de cara a Deus. Para dizer verdades contundentes, fazer filmes de santos -leia-se gente que tem a virtude por bandeira- teria pouco marketing, daí que o cinema utilize crianças e loucos para transmitir ideias sem incomodar ninguém. Às crianças e aos  loucos (ou atípicos – Rain Man, Forrest Gump, Muito além do Jardim,  por exemplo) acrescentamos agora os animais de Disney, e toda essa sinfonia africana que o filme nos brinda, banhada de molho nativo -músicas, danças e um colorido exuberante- para despertar-nos com a estética, estimulando  a decisão heroica. Para tornar-nos de fato o que devemos ser, como escuta Simba da voz paterna: “Lembre-se de quem você é”.

Vale assistir as 6 horas longas desta trilogia, com direito a prestações, intervalo, e pipoca. Relaxar, divertir-se, o tempo passa voando mas…..as reflexões virão depois, instigantes, com o paladar salgado da Atlântida, as engenhocas pilotadas por heróis que combatem o mal em plenitude de amor, e o ritmo da Africa profunda latindo, como estribilho, na consciência que desperta a vocação, e empurra para redimir as circunstâncias de cada um.

 

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