O Gênio e o Louco: Um dicionário de paisagens da alma e das possibilidades humanas.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 29-05-2019

The Professor and the Madman. Diretor: Farhad Safinia. Mel GibsonSean Penn, Eddie Marsan, Jennifer Ehle, Natalie Dormer, Jeremy Irvine. 2019. 124 min.

 

A indicação, desta vez, veio de um amigo, muito exigente, não assiste qualquer coisa. Imagino que gosta dos meus comentários porque as sugestões dele são quase um desafio: estou esperando para ver o que você tem a dizer deste filme. Ainda bem que, pelo seu gosto apurado,  não me faz muitas, porque eu não daria conta do recado. Limitou-se a dizer que era uma obra de arte, com grande conteúdo. O resto -pensei- deve ser comigo.

A trama apoia-se numa história real. E como todas as histórias, quando bem contadas -como o cinema de classe sabe fazer- cativam. Mesmo sem saber o porquê. Neste caso, um jovem diretor iraniano, com a tradição que nessas latitudes tem de contar histórias, seja também uma explicação.

Enquanto rascunhava mentalmente estas linhas, falei do filme com algumas pessoas. Durante uma reunião, um colega médico -volto a ele daqui a pouco- perguntou-me qual era a síntese do filme. Não soube lhe dizer; confessei apenas que tinha sido uma experiência estética e cultural, um mergulho antropológico e que senti-me identificado. “Para ser franco- acrescentei- estou alinhavando o comentário, e ainda não tenho claro o título do ensaio”.

O filme relata a largada para confeccionar o Dicionário de Oxford, numa tentativa colossal de compilar todas as palavras dos autores de língua inglesa;  sua gênese, emprego, e citações ao longo dos séculos. E para tal, não basta um pequeno time de expertos; é preciso convocar os súbditos do Império Britânico, que se estende por mais de um quarto da superfície do planeta. Estamos já avançada a segunda metade do século XIX, no meio da era Vitoriana, quando Oxford dispara este apelo “urbi et orbe” para todos os anglofalantes.

O argumento é simples e poderia supor-se tedioso. Mas as personagens -com magníficas interpretações- conferem força imensa à produção. Um professor escocês autodidata -sem título universitário, mas dominando mais de uma dezena de idiomas e defendendo-se bem em outros tantos- é um dos elementos desta equação singular. O outro é um veterano da guerra civil americana, médico, culto, com brotes de esquizofrenia, condenado por um crime cometido numa das suas alucinações. Um mano a mano que destila cultura, respeito, e se debruça sobre  as profundezas da alma humana. Essa é a marca do filme.  Suponho que foi isso o que encantou o amigo que me desafiou, e a mim envolveu-me completamente.

Nesse passeio pelas paragens da alma -a dos personagens, que muito bem podem ser a nossa própria- surge a dor, a tragédia, os itinerários do perdão, construídos com esforço. E o calor da família unida, costurado pelas mulheres protagonistas que são um verdadeiro monumento, um alicerce sólido, insubstituível. Aparentes coadjuvantes -no filme e na história- mas com tremenda voz de comando que ajuda a superar os obstáculos que a vida e os homens de boas intenções se empenham em colocar.

Paixões que incluem a inveja e o orgulho: os embates da academia com os não letrados, que vão construindo o dicionário como um gigantesco quebra-cabeças. “Como é possível, um homem sem qualificações acadêmicas e um criminal louco fazerem isto?’ -perguntam-se os acadêmicos. E lembram, repetidas vezes, que “Oxford não pode falhar, porque Oxford nunca se engana”.

Confesso que essa variante da arrogância acadêmica me seduziu, pelas não poucas histórias já vividas com esses interlocutores. O colega médico que me perguntou sobre a síntese do filme o fez enquanto desenhávamos um projeto de certa audácia. O pano de fundo era como vencer o desafio de construir uma ponte entre os acadêmicos (no caso, os professores da faculdade de medicina) e a prática médica diária. Porque, de fato, existe um divórcio de pensamento, nos melhores dos casos pautado por uma cláusula de não agressão, mas sem diálogo eficaz.

Que médico queremos formar? Essa seria a pergunta lógica dos formadores; pode parecer retórica mas se ilumina quando formulada diretamente com descarado personalismo: afinal, que tipo de medico quero que me cuide a mim, à minha família, aos meus seres queridos? Se os que nos dedicamos à educação médica saíssemos do terreno teórico -tantas vezes exigido e até imposto pelas normas acadêmicas- e descêssemos do olimpo institucional até o campo de batalha, as repostas ao questionamento seriam claras e diáfanas. Optaríamos, sem dúvida por um médico competente, cientificamente atualizado, capaz de escutar nossas solicitações com empatia e compaixão. Um médico que nos conforta sempre, nos cuida com esmero e, quando possível, nos cura.

Um outro bom amigo -que seria de nós sem os amigos!-  cirurgião e professor de ética numa importante Universidade Latino Americana o apontava com precisão: uma coisa é a teoria da ética na aula, e outra a “ética da trincheira”, a que temos de viver de madrugada quando o paciente chega na emergência. Os dilemas éticos e o profissionalismo que se requer para resolvê-los surgem na prática diária, não na sala de aula, no conforto da biblioteca acadêmica. Como fazer chegar a ciência atualizada até a linha de frente é o papel dos professores -a ponte do projeto que meu outro colega quer construir. Para tal são necessários os docentes que transitam confortavelmente nos dois mundos: o acadêmico e a trincheira assistencial.

Há algumas semanas tive oportunidade de conversar com um paciente de instrução muito elementar. Tinha trabalhado como pedreiro e mestre de obras numa importante obra de engenharia há quase 50 anos. E lembrava com carinho que em várias ocasiões, em tardes de chuva, o Presidente da empresa, homem bilionário, aparecia no meio das obras para animar os seus funcionários. “Ele estava lá, com a gente, na laje…..não no escritório”. Provavelmente, aquele homem de negócios não tinha nada operacional a executar nesses momentos, mas lá estava ele motivando o seu time, fazendo-lhes sentir parte do projeto. Na laje, na trincheira, na linha de frente: um cenário para os acadêmicos que tem a sabedoria de construir pontes com a realidade e as necessidades da sociedade.

Sabedoria, e também desprendimento da própria imagem -sujar-se as mãos-porque se descobre o privilégio de servir os outros. Essa é a função real dos que possuem o conhecimento e, com generosidade, o levam até a ponta da linha de produção. Acadêmicos e doutores, que entendem a etimologia da palavra -afinal estamos falando de dicionários: doutor, de doceo, do latim, ensinar. Para isso deveriam servir as qualificações acadêmicas: para ensinar e fazer um mundo melhor.

Voltando ao nosso filme. O professor, com paciência de ourives, vai montando o seu puzzle linguístico, e o médico esquizofrênico, desde a prisão psiquiátrica onde está recluído, colabora com milhares de entradas no dicionário. Um médico onde a cultura é elemento natural, parte das suas habilidades clínicas. Outro tema que daria pano para manga…..visto o analfabetismo cultural que respiram os médicos de hoje…….

Nasce uma amizade, consanguinidade dizem eles, irmãos num projeto cultural que beneficiará o mundo. E os livros que aproximam do criminal a viúva e os órfãos num aconchego enternecedor. “Sou livre com os livros, viajo com eles, caminho até o fim do mundo. Quando leio, ninguém me persegue. Quando leio sou eu quem persegue a Deus. Acompanhe-me nessa perseguição”. Um grande amigo disse-me que essa cena retratou o sentimento vital que ele tem quando lê. “Foram precisos 56 anos de vida -comentou-me- para encontrar a melhor definição do que é para mim a leitura”. A leitura, a cultura que nos salva do naufrágio vital, como dizia Ortega. Lembrei de Mandela, magnificamente retratado no filme Invictus, escrevendo na sua cela, inspirado pelos versos do poeta: “sou o mestre do meu destino, sou o capitão da minha alma!”

Autodidatas, analfabetos, doentes mentais, criminosos, famílias numerosas na penúria: toda uma variedade das paisagens da alma humana. Cabe perguntar-se ao compasso dos fotogramas: O que podemos esperar das pessoas? Creio recordar que foi Goethe quem afirmou: “Quando as tratamos como o que são, as fazemos piores; mas se as tratamos como deveriam ser -como são capazes de ser- as ajudamos a melhorar”. Devemos, por justiça, esperar sempre o melhor!

Porque melhoram eles e nós também, nesse empenho por ajudar e colocar metas audazes para os que dependem de nós. Mas é preciso diligência, como nos lembra a encantadora esposa do professor. Diligência que, no dicionário de Oxford como ela aponta, significa “constância e aplicação naquilo que se persegue. Esforço constante e sério. Mas também trabalho e dor”.

A boa senhora não vai mais longe -nem sei se o dicionário mergulha nas raízes da palavra- mas é bom lembrar que diligência vem do latim, diligere, que significa amar. Não um amor qualquer, mas amor dedicado, fino, elegante, incondicional. Um amor que é no dizer de Agostinho de Hipona, meu peso e minha medida: amor meus, pondus meus! Minha densidade, o tamanho dos meus sonhos, minha capacidade de ajudar a todos e de transformar-me numa pessoa melhor. Belo elemento para construir as pontes acadêmicas, pois afinal, como dizia Gregorio Marañón, “esquecemos que a sabedoria não é somente saber as coisas, mas principalmente amá-las”. Pontes que instruem para saber amar a realidade que temos entre as mãos. Na laje, na trincheira diária!

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