Sombra: A Missão que nos constrói e nos engrandece.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 26-06-2019

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Diretor: : Zhang Yimou. Deng Chao, Sun Li, Ryan Zheng, Guan Xiaotong, Wang Qianyuan, Hu Jun, Wu Lei, Wang Jingchun. 116 min. 2018.

Forçoso é reconhecer que não sou um amante do cinema oriental. Admiro-o, deixo-me envolver por ele, procuro abrir mão das minhas perspectivas latinas -quase uma categoria a priori de enxergar as coisas, como diria Kant- mas não me conquista. Respeito-o e o aproveito para mim mesmo, mas – a diferença das produções ocidentais- pouco consigo articular com as cenas que chegam embrulhadas em perfumes do oriente. Deve ser uma limitação, como reconheci há muitos anos quando me perguntaram a respeito. “Você que é um homem de formação cultural europeia, ampla, porque utiliza somente filmes de Hollywood e dispensa os mestres orientais, suecos, europeus?” Respondi de bate pronto: “Admiro o cinema de autor. Kurosawa, Bergman, tantos outros. Mas meu tempo para ensinar é limitado. E o que Kurosawa relata em trinta minutos, Hollywood consegue apresentá-lo em poucos segundos”. Enfim, uma limitação atrelada à metodologia docente com o cinema.

Porque, também devo confessar, que dificilmente assisto um filme sem buscar possibilidades educacionais impressas nos fotogramas. Faz muitos anos que não sei o que é ver um filme como distração. O trabalho se impõe, mesmo sem busca-lo. Não é uma maldição oriental, mas algo parecido ao que acontece com a personagem do filme que nos ocupa: a missão toma conta dele por completo. Já volto ao Sombra, mas antes duas palavras sobre o diretor chinês.

Zhang Yimou sempre me surpreende. Cativa-me, embora depois não sei o que fazer com essa avalanche de estética e valores. Mas o conjunto é fascinante. Tudo começou há quase trinta anos, quando apreciei as subtilezas do amor, em “Lanternas Vermelhas”, onde o troféu máximo das concubinas se representa pelas massagens nos pés. Novas variações delicadíssimas, em filme posterior que também anotei no meu catálogo: “A arvore do amore”. Surpreendeu-me nas lutas marciais em forma de balé, em “Clã das Adagas Voadoras” e “Herói”. E novas surpresas na hora de apresentar o compromisso da educação e do cuidado, em “Nenhum a menos” ou “Caminho para Casa”. E os sempre elegantes efeitos visuais, seja qual for a temática, que são a marca registrada desse grande Diretor, com maiúscula.

Sombra situa-nos na China, época antiga, regime feudal. Reis e senhores, sabendo das traições e assassinatos entre as fações, colocavam no seu lugar um sósia, um Sombra, que se fazia passar por eles, desempenhava a consciência seu papel, corria o risco da posição nobiliária, e depois desaparecia sem deixar rasto nas anotações da História. Este filme -diz-nos Yimou no início- é a história de um Sombra.

Assisti sem pestanejar. A lentidão descritiva -aquela que eu invoquei para me safar do questionamento onde se apontava a ausência de autores cult– nem consegui perceber. Tal é a riqueza visual da produção, a magnífica caracterização das personagens, quase em estado puro, onde virtudes e vícios se apresentam diretamente, sem eufemismos, de modo transparente. Uma variante da praticidade chinesa, seja na confecção de produtos em série, seja no cinema. Delicado, elegante, mas sem ambiguidades: tudo às claras.

Mas o que me conquistou foi a personagem, o Sombra, no seu modo sóbrio e contundente de ser. Enquanto observava o crescimento deste homem, uma capacitação a golpe de arriscados desafios, para um papel que não tinha sido previsto para ele, lembrei dos versos que Fernando Pessoa dedica em Mensagem ao rei D. Duarte de Portugal: “Meu dever fez-me, como Deus ao mundo”. Foi como um arco voltaico da memória, espicaçado pelo ambiente que diariamente respiramos, onde se ventila que o importante é fazer o que gostas, realizar-te nas competências que te agradam. Pouco se fala de aprender a amar o que tem de ser feito, e  deixa-se passar a grande oportunidade de se conformar  -no sentido clássico, fazer-se à forma- com a obrigação que em consciência nos é confiada.

Afinal, o que é um Sombra? Um substituto, um anteparo para receber os golpes que o nobre quer evitar. Um cinto de segurança para atrelar-se ao poder, sem correr riscos. Condições para ser Sombra? Parecido físico, mais nada. Mas a função cria o órgão, quando existe docilidade e se incorpora com profissionalismo a nova função. E chegam as surpresas decorrentes das imensas possibilidades humanas.

Novo arco voltaico -agora de cinema japonês- me desloca para aquele singular filme de Kurosawa (quem disse que eu não gostava de Kurosawa? ) onde outro sósia, substitui o rei morto: Kagemusha- A Sombra de um Samurai. O mendigo recrutado pelo senado para substituir o morto tem como objetivo impedir que um parente do falecido venha ocupar o trono. O tal parente é um mau caráter, e ninguém quer correr o risco. O mendigo, a sombra, reina com serenidade, deixa os exércitos lutar, não se envolve no operacional, e quando os seus soldados no meio da batalha hesitam, basta com que olhem para ele que observa em cima da montanha, e conseguem, uma vez e outra virar o jogo, ganhar as guerras. O tempo passa, descobre-se a substituição, e o parente, herdeiro legítimo do trono, joga o mendigo na sarjeta -de onde tinha vindo- e assume o comando. Mas falta-lhe sabedoria; não consegue observar e animar os homens com sua presença. Envolve-se nas batalhas -afinal quem poderia lutar melhor do que ele que é o novo Rei- e acontece o desastre, perdem a guerra, são subjugados. Um filme gigante, que vale lembrar e rever, repleto de recados para os que tem papel de comando. Uma reflexão necessária para as  lideranças  descobrirem qual é exatamente a função a desempenhar. O mesmo aprendizado -novo arco voltaico de memória- que se extrai daquela magnífica séria britânica, The Crown.

Voltamos ao nosso Sombra, um aparente Zé ninguém que se transforma e cresce em dimensões nunca sonhadas. Escuta, aprende, incorpora a missão, torna-se uma só coisa com ela. Descobre que esse é o sentido real do seu existir: não ser um substituto, mas desempenhar a incumbência, enfrentar os desafios, com coragem, sem por limites. Não é um emprego, mas a sua vida real. E por isso se transforma num empreendedor.  Marañón dizia que o dever que se nos exige é apenas um pretexto para inventarmos outros deveres. E que o essencial para cumprir a missão que nos é confiada não é a simples aptidão ou gosto, mas a dedicação intensa que se identifica com a vocação, e consegue sobrepor-se à eventual falta de aptidão. O ser humano -diz o médico espanhol- consegue fazer o que se propõe com dedicação, que é afinal vocação, amor ao dever. Aqui os arcos voltaicos são tantos  -acerca da mentalidade de empregado e do espírito empreendedor- que prefiro omitir para não perder o fio da meada.

Vocação, sentir-se chamado e abrir-se à transformação do chamado, é aprender a amar o dever. Por isso aponta Ortega que o homem seleto é aquele que se impõe exigências maiores daquelas que estão na média à sua volta. E conclui: “Daí vem o lema das aristocracias, Noblesse Oblige, pois nada se pode esperar do homem que não sente o orgulho de possuir obrigações mais duras que os demais. A nobreza no homem, como no animal, é um privilégio de obrigações. O cabalo de raça é tal porque tem a obrigação de correr e de resistir mais do que o vulgar”.

O crescimento do Sombra tem uma componente essencial: as duas mulheres que longe de ser coadjuvantes são, de fato, o eixo sobre o qual se apoia o argumento. A Princesa, uma versão chinesa de Joana D’Arc, que supre com os seus predicados a mediocridade do irmão, monarca caprichoso, patife de meia sola. E a Madame, esposa do Comandante que o Sombra representa. O dublê dos momentos difíceis, encontra na mulher que respeita, conforto e aprendizado. Mulheres fortes, delicadas, decididas; um novo arco voltaico na História nos levaria até Eleonor de Aquitânia, Isabel de Portugal, a Imperatriz Leopoldina e muitas outras.

Filme belíssimo, poesia em branco e preto, com espasmos coloridos em momentos singulares. Um canto à missão que nos constrói e nos engrandece. Merecedor, em todos os quesitos, do complemento do poema de Pessoa invocado anteriormente: “A regra de ser Rei almou meu ser/ Em dia e letra escrupuloso e fundo/ Firme em minha tristeza, tal vivi/ Cumpri contra o Destino o meu dever/ Inutilmente? / Não, porque o cumpri”. A  missão é a alma da vida, o resto é decorrência. Sobram comentários.

 

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