Ítalo Calvino: “O Visconde partido ao meio”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 01-06-2017

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Ítalo Calvino: “O Visconde partido ao meio” Companhia das Letras. 1997. 90 pgs. (incluído na trilogia: “Os Nossos Antepassados”)

o visconde partido ao meioA tertúlia literária mensal traz à tona esta pequena-grande obra de Ítalo Calvino. Um escritor que faz da fantasia recurso para analisar o ser humano, ajuda a entender melhor o homem contemporâneo e, naturalmente, dá recados que nos acompanham na aventura singular do conhecimento próprio

O narrador -que é o próprio Calvino, incarnado num adolescente- conta-nos as desventuras do tio dele, Medardo de Terralba, o visconde que figura no título, e que na guerra contra os turcos, recebe uma bala de canhão sendo deste modo seccionado em duas metades. Uma presidida pela maldade, enquanto a outra faz da bondade seu guia. Um absurdo aparente que, já no prólogo Calvino faz questão de advertir: “Partido ao meio, mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo é o homem contemporâneo”.

A figura fictícia do visconde secionado, “aquele perfil que continuava a ser um perfil mesmo visto de frente”, dividido em curioso maniqueísmo, é uma metáfora que dá pano para manga, como comprovamos nos comentários, magníficos e surpreendentes, que se sucederam na tertúlia. E como bem nos adverte o narrador, quando se é jovem, os sentimentos e as intenções se misturam:  “Meu tio se achava então na primeira juventude: a idade em que os sentimentos se misturam todos num ímpeto confuso, ainda não separados em bem e mal”.

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Paul Kalanithi: “O último sopro de vida”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 22-05-2017

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Paul Kalanithi: “O último sopro de vida”. (When Breath becomes air) Sextante. Rio de Janeiro, 2016. 167 pgs.

o ultimo sopro de vidaUm médico escrevendo sobre doenças e morte não é novidade. Aliás, cada vez mais são os médicos que se aventuram a escrever sobre este tema.  Faço questão de centrar a temática, porque a escritura e a medicina sempre correram paralelas.

Há quem diga que os médicos escrevemos para compartilhar o universo que levamos dentro, fruto das experiências com nossos pacientes. Um mundo velado pelo sigilo profissional, que na escrita assume forma de ficção ou, pelo menos, nomes fictícios. Eu pessoalmente penso que escrevemos para nos entender melhor, para clarificar essa avalanche de vivências que carregamos, e poder apalpar a dimensão fascinante e ao mesmo tempo tremenda do nosso trabalho. Como diz Abraham Verghese -outro médico escritor- no prólogo da presente obra referindo-se ao autor, entender a feroz convicção da dimensão moral do seu trabalho.

Mas este livro é sim uma novidade. Porque o médico que escreve de doenças e de morte, o faz contemplando a própria morte que se aproxima. É, pois, um livro quase póstumo ou, se preferirmos, um testamento. Paul Kalanithi nos deixa um legado muito especial, porque este médico escritor tinha uma formação prévia em Literatura Inglesa, e um mestrado na área de filosofia da ciência. Quer dizer, além de ser um neurocirurgião de prestígio, possuía os recursos necessários para se exprimir com maravilhosa clareza.

E aqui vai a primeira reflexão. Todo médico tem vivencias que merecem um relato. Muitas, inúmeras. Mas nem todos conseguem descrever, talvez porque lhes falta esse recurso de expressão. É preciso aprender o idioma, para exprimir-se, e para entender o paciente. “Os livros se tornaram meus confidentes, com suas lentes me propiciando novas visões de mundo” -diz Kalanithi no seu relato. As humanidades, a literatura em particular, permitem entender a linguagem em que o paciente nos fala. A comunicação fica impedida quando se desconhece o idioma. E também não se ajuda ninguém, por mais boa vontade que se tenha. Recentemente tive a oportunidade de integrar uma banca de doutorado em medicina sobre narrativas médicas, onde a pesquisadora confirmava esta hipótese: a literatura, e as histórias dos pacientes nos permitem aprender o idioma com o qual nos comunicamos com as pessoas que solicitam nossa ajuda como médicos.

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A Chegada: Uma apologia da Comunicação

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 16-05-2017

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(Arrival). Direção; Denis Villeneuve. Amy Adams, Jeremmy Renner, Forest Whitaker. 117 min. USA, 2016.

A chegada - capaA primeira notícia pipocou no grupo de WhatsApp dos colegas da faculdade. Como em todos os grupos, fala-se de tudo, cada um coloca o que quer, nunca temos tempo de ler quase nada e, muito menos, de ver os vídeos que acabamos eliminando para não entupir o telefone. Mas, o tropismo pelo cinema, me fez reparar no chamado. Um filme interessante, que faz pensar, dizia. Ou algo assim. Alguém falou em alienígenas -que são, logicamente, os que chegam, e dão título ao filme. Mas a conversa derivou depois para linguística e os entendidos -ou aficionados, não sei ao certo- iniciaram palpites e opiniões. Até aí, alienígenas e linguística; confesso que o meu interesse era mínimo.

Nos dias decorrentes, tropecei com alguma outra opinião, a flexibilidade do tempo, a generosidade da protagonista em doar-se. Muita mistura para meu gosto. Fosse pouco, alguém solicitou no tal grupo a minha opinião. É o que dá comentar filmes; as pessoas te creditam, equivocadamente, como experto na sétima arte. Não havia mais como escapar. Sentei confortavelmente e apertei o play. O filme envolveu-me completamente. E me deixou pensando dias, semanas, até agora, que alinhavo estas linhas para ver se me livro dos pensamentos -escrever é o único modo de ordená-los e de entender-se a si mesmo- e da convocação que já atendo com imensa demora.

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(Español) Juan Manuel de Prada: Mirlo Blanco, Cisne Negro.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 09-05-2017

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Theodore Dalrymple: “Podres de Mimados”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 24-04-2017

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Theodore Dalrymple: “Podres de Mimados. As consequências do sentimentalismo tóxico”. E Realizações. São Paulo. 2015. 200 pgs.

Podres de MimadosTranscorridos pouco mais de 8 meses do meu primeiro encontro com Dalrymple e da sua crítica da sociedade atual decido enfrentar uma nova entrega, seduzido pelo título impagável. Costumo deixar passar um ano antes de ler outra obra do mesmo autor, para sedimentar as ideias (dele, na minha cabeça), e cozinhar as próprias, que são as que em definitivo permanecem. Mas reconheço que o apelo do tema -e as vivências diárias saturadas de espasmos emotivos pipocando à nossa volta- encurtaram a minha rotina de quarentena.

Como sempre, o autor embasa seus comentários em histórias reais, muitas delas fruto da sua experiência como psiquiatra em cadeias, prisões e cenários análogos. Apresenta relatos pontuais, dos quais arranca para desenvolver uma ideia; ou uma explicação, que acaba se convertendo numa análise sociológica. Os relatos são a pista de decolagem para essa construção antropológica.

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Paul Glynn: “Réquiem por Nagasaki”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 17-04-2017

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Paul Glynn: “Réquiem por Nagasaki”. Palabra. Madrid (2011). 316 págs. (Versão espanhola, do original A Song for Nagasaki; em português: Um Hino a Nagasaki, Ed. Loyola)

Um Hino a NagasakiA tertúlia literária nos oferece esta vez uma oportunidade diferente: conhecer a vida de Takashi Nagai, um sobrevivente à bomba atómica de Nagasaki, e no vácuo da sua biografia -ou do seu livro (Os Sinos de Nagasaki)-  aspectos da cultura japonesa nem sempre conhecidos. Eu pelo menos não os conhecia, porque carecem do aspecto folclórico -que é sempre o que os curiosos e turistas comentam- para adentrar-se numa dimensão espiritual de profunda densidade.

Nagai, médico especializado em radiologia, não por gosto, mas por opção. Perdeu a audição num dos ouvidos durante a guerra na China, tinha dificuldade para utilizar o estetoscópio, e um velho professor lhe propôs dedicar-se a essa especialidade que era o futuro. Não andava equivocado o professor de Nagai, basta ver hoje a dimensão incrível de avanços tecnológicos que nos brinda o diagnóstico por imagem.

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Lembranças de um amor eterno: uma avalanche de conteúdo rebatendo a banalidade da comunicação

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 09-04-2017

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(La Corrispondenza), 2016. Diretor: Giuseppe Tornatore. Música: Ennio Morricone.  Intérpretes: Jeremy Irons, Olga Kurylenko, Simon Johns, James Warren.116 min;

La correspondenza - capaAs tais lembranças de amor eterno é mais um caso desastroso de tradução doméstica. Por que não manter o nome original italiano em tradução literal -embora o filme seja falado em inglês- A Correspondência? Mania de inventar moda, e de colocar em risco algo que não te pertence, e que pode desestimular a assistir este filme especial. Um filme dirigido por Tornatore, com música de Ennio Morricone, e interpretado por Jeremy Irons é algo que, no mínimo, é preciso ver. Um filme em inglês, mas com alma italiana. Daí a importância do título, que forma parte de todo o pacote, ou melhor, da obra de arte.

Um título peculiar, simbólico, representativo de um filme repleto de surpresas. Um verdadeiro mano a mano -nada mais lógico em se tratando de uma correspondência- entre a atriz ucraniana, que segura com pulso mais de 70% das cenas, e o ator britânico que aparece com ritmo regular… na tela do computador! Estender os comentários sobre o argumento seria colocar em risco o filme, já ameaçado pela infeliz tradução do título.

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(Español) Arturo Perez Reverte: “El francotirador paciente”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 07-04-2017

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Cinema, humanização e educação em saúde

Arquivado em (Medicina) por Pablo González Blasco em 02-04-2017

O núcleo do processo de Humanização em Saúde consiste em promover a reflexão do profissional, o exercício filosófico da profissão. No contexto desta reflexão humanizante, é preciso considerar o que deve ser humanizado, como fazê-lo, e os custos que a humanização implica. A educação da afetividade e das emoções é condição necessária para promover atitudes duradouras e eficazes. Assim sendo, o Cinema, que ajuda a refletir sobre aspectos essências da vida, tem se mostrado um recurso metodológico eficaz para promover a reflexão. O uso do cinema, com destaque para o conjunto de cenas variadas (clips) pode incorporar-se nos projetos pedagógicos de educação em saúde, como é ilustrado neste artigo. A formação humanista do profissional de saúde é potencializada com a metodologia do cinema, buscando-se deste modo um modelo de humanismo e humanização sustentável.

Clique aqui para ler o artigo completo.

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Roger Scruton: “As Vantagens do Pessimismo” (E o perigo da falsa esperança)

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 27-03-2017

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Roger Scruton: “As Vantagens do Pessimismo” (E o perigo da falsa esperança). É Realizações. São Paulo. 2015. 207 pgs.

as vantagens do pessimismoDe que pessimismo nos fala Scruton? Na verdade, trata-se de um discernimento da realidade, de visualizar que vivemos entre seres humanos falíveis, e não num universo de sistemas e ideias que são facilmente modificáveis. Os problemas da humanidade não são questões de ordem técnica, como pensam os que ele denomina otimistas inescrupulosos. Estes são aqueles que acreditam que as dificuldades e desordens da humanidade podem ser superadas por algum tipo de ajuste em larga escala: é suficiente desenvolver um novo arranjo, e as pessoas caminharão para o sucesso. Desse modo, todos os esforços são colocados num plano abstrato e nenhum sequer é situado no campo da virtude pessoal. Essas são as falsas esperanças dos otimistas teóricos que devem ser temperadas com a dose certa de pessimismo, que não é outra coisa mais do que conhecimento real e prático da condição humana. O raciocínio de Scruton é claro, o que associado a uma tradução magnífica, permite acompanhar a lógica do seu discurso sem necessidade de comentários explicativos.

Esses otimistas perigosos e criticados são os que eliminam velhas rotinas, e querem mudar as coisas em proveito próprio. Estão tão propensos a consultar o passado como um batalhão que luta pela sobrevivência está propenso a proteger seus monumentos. O que eles querem é estar do lado vitorioso. Com o menor esforço pessoal possível. O pessimista sensato, não se deixa levar pelas correntes, enfatiza as restrições e os limites, lembra-se da imperfeição e da fragilidade da condição humana. Nas suas deliberações, os mortos e os não nascidos tem a mesma voz, porque sente-se inserido nas tradições e na história. E saber utilizar a dose de pessimismo para temperar as esperanças que, de outra forma, podem nos arruinar.

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