(Español) José Luis Olaizola: “A la conquista de los apaches”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 28-06-2018

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A ordem dos fatores altera o produto. Reflexões sobre educação médica e cuidados paliativos

Arquivado em (Medicina) por Pablo González Blasco em 22-06-2018

«Curar algumas vezes, aliviar com frequência, confortar sempre». Essa clássica afirmação, que resume a função do médico, apresenta-se numa ordem que encerra um equívoco educacional importante. O que se pode esperar quando a ordem recomendada para a atuação do médico é curar, aliviar e, em último caso, confortar? O lógico é pensar que se avança do mais importante para o detalhe. Quando não se consegue curar é preciso aliviar; e quando o alívio não é possível, resta providenciar conforto. Proceder nessa sequência fatalmente apresenta o alívio e o conforto como um prêmio de consolação para o médico que se deparou com uma doença incurável, dolorosa, terminal. O produto resultante desse processo equívoco — o médico — apresenta deficiências importantes. O autor faz uma extensa reflexão sobre a formação humana e técnica do médico. Inicia-se com as advertências que chegam do paciente, aborda o tema do erro médico, para adentrar-se no terreno necessário do sofrimento e da morte, cenários que o médico deve palmilhar na sua formação porque farão parte da sua atuação profissional. Adverte, a seguir, como assumir a postura correta nesse cenário requer uma antropologia médica de caráter prático, impregnada de valores filosóficos e perpassada pela ética. A reflexão desemboca sobre a medicina como ciência e arte que, também, facilita a prática dos cuidados paliativos com a competência requerida. A modo de conclusão, o autor propõe um giro hipocrático-copernicano na educação médica, para evitar esse equívoco que rende importantes deficiências formativas. Enquanto confortar é algo que deve ser feito sempre, pela altíssima prevalência, o curar apresenta uma prevalência muito menor. O processo da educação médica deve contemplar essa proporção para produzir melhores médicos. Médicos que sempre sabem confortar e que, segundo os casos e as moléstias com as que se deparam, também sabem curar quando é possível. Quer dizer, a ordem dos fatores altera o produto. A introdução dos cuidados paliativos de modo formal no curriculum médico facilitará alterar a ordem desses fatores.

 

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Alberto Manguel: “Una Historia de la Lectura”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 20-06-2018

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Alberto Manguel: “Una Historia de la Lectura”. Alianza Editorial. Madrid. 1998. 397 pgs.

 

Tinham me falado deste livro com grande entusiasmo. Demorei anos em tirá-lo da prateleira. Não é um manual de como ler um livro, mas sim uma avalanche de informações, sensações, percepções de um autor que transpira erudição. Não é um livro fácil de ler, até porque é difícil entender a atitude requerida para situar-se diante dele. Não é ficção nem romance; mas também não corresponde a um livro de análise literária. Aproximar-se-ia de uma memória pouco ordenada das leituras do autor o que, convenhamos, nem sempre é fácil de acompanhar em sintonia.

“Os leitores de livro, uma família à qual estava me incorporando. Lemos para entender, ou para começar a entender. Não temos outro remédio a não ser ler. Ler é, quase como respirar, uma função essencial”. Assim inicia Manguel seu relato biográfico, que transita por Israel, Argentina e finalmente Canadá onde reside. Vale dizer que o original deste livro foi escrito em inglês, o que me surpreendeu num argentino de família judaica.

Os registros e descrições do livro são variados e multicolores. Fala-se da leitura precoce, na infância, advertindo que o recebido nessa primeira idade e está relacionado com a vida, proporciona uma perspectiva vital. Segue-se um capítulo sobre a leitura em silêncio e descobrimos que nem sempre foi assim. Narra-se a surpresa de Sto. Agostinho quando vê o seu mestre Ambrosio ler: “seus olhos percorriam as páginas e o seu coração penetrava o sentido, mas sua voz e sua língua descansavam”.

Agostinho, grande leitor e fecundíssimo escritor, aparece várias vezes na história da leitura. Desde o momento da sua conversão –tolle, lege– (a voz infantil que lhe impele a ler), até um suposto diálogo que Petrarca imagina ter com ele, advertindo-lhe sobre um uso proveitoso da leitura: “Se fazes uma séria de anotações no local oportuno, poderás gozar facilmente do fruto das tuas leituras…. Que anotações te referes? ….. Quando leias um livro e tropeces com um fragmento que te comova ou deleite, não confies no poder da tua inteligência, mas força-te a aprendê-lo de memória, e medita o seu conteúdo. Assinala com nitidez as passagens úteis, para ajudar a tua memória, pois do contrário sairão voando”. Gostei de passagem, e confirmei a minha própria metodologia quando leio qualquer livro: um ponto na margem, o número da página anotada num papel (nunca uso marcador de livros, mas papel em branco por este motivo) e um trabalho extra no final para tomar nota do que me chamou a atenção. Leia o restante deste artigo »

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Alfonso López Quintás: “La palabra manipulada”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 04-06-2018

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Alfonso López Quintás: “La palabra manipulada”. Rialp. 2015. 117 pgs.

 Impossível fazer um resumo deste pequeno livro -pouco mais de 100 páginas- devido à sua densidade conceitual. Leio o original em espanhol e, embora faça estes comentários em português, não me consta que tenha sido traduzido.

O livro funciona quase como um índice das inúmeras obras publicadas do autor, que abordam o sugestivo tema da manipulação. E como tal, são citadas a modo de referência, para os que queiram se aprofundar nos diversos aspectos.  Pode-se, sim, anotar alguns dos pensamentos a modo de trailer que convide a ler, ou melhor, a meditar o livro: porque não é um livro para ser lido descontraidamente. Cada parágrafo, denso em ideias, exige uma reflexão digestiva dos conceitos.

Logo de cara, o autor adverte que o domínio e controle sobre os seres pessoais leva-se a cabo, com astúcia, mediante as técnicas de manipulação. E manipular é tratar uma pessoa ou grupo de pessoas como se fossem objetos, de modo a conseguir um domínio fácil sobre elas. Reduzir pessoas a coisas é a essência do sadismo que, contra o que habitualmente se pensa, não é apenas ser cruel, mas rebaixar a condição e dignidade da pessoa. Despojar a pessoa da sua dignidade é também atingível através do que López Quintás denomina a ternura erótica: se reduz o relacionamento a simples atração sexual, eliminando-se a dimensão de amizade, a projeção comunitária do amor, a fecundidade amorosa.

Quem manipula? Eis a pergunta obrigatória. E a resposta simples e direta: manipula aquele que quer vencer sem nos convencer para que aceitemos o que nos oferece sem expor nenhuma razão da sua proposta. O manipulador exerce uma influência “obliqua”, manhosa. Diz o autor: “Não te enganaram; te manipularam, que é uma forma subtil de enganar”. Leia o restante deste artigo »

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CASABLANCA

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 28-05-2018

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(Casablanca). Diretor: Michael Curtiz. Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Reins.USA. l943. l02 min.

A sessão mensal do Cinema para Todos pedia um clássico. E um clássico é muitas vezes aquele filme do qual todos falam, muitos citam diálogos e até alguma cena consagrada…..mas nunca viram o filme inteiro. Era preciso preencher essa lacuna cultural. Colocamos Casablanca na tela, a pipoca por perto, e deixamos rodar.

Quem não conhece Casablanca? Em conversas de cinema, mesmo entre os pouco versados, é passagem obrigatória. E os afiados na arte fílmica citam de cor os diálogos, e até colocam na boca de Bogart palavras que nunca chegou a pronunciar. Os clássicos têm isso; manipulação indiscriminada, direitos autorais vencidos. São como patrimônio da humanidade. “As times goes by” -o tema musical que ninguém toca como Sam- envolve em papel de presente o celuloide, tornando-o apetitoso. A voz arranhada de Sam golpeia as lembranças de Bogart que tem cheiro de Paris; os dedos arrancam das notas a melodia, e dos espectadores todo um universo de saudades na tentativa de congelar momentos passados de tempos melhores. Os tempos de cada um, as recordações boas que todos guardamos no coração.

Por isso, falar de Casablanca é sentir-se à vontade em tema que todos conhecem. Não há o perigo de “contar o filme” quando passeamos pelas cenas, recreando-nos mais uma vez, em tudo o que nos é grato. Quando se assiste a primeira vez, presta-se atenção no argumento. Na segunda, são os diálogos -riquíssimos, deliciosamente sutis- os que chamam a atenção. Na primeira passada fugiram à nossa observação, pois a agilidade das cenas é grande, e o conteúdo denso. Mas é depois, nas sucessivas apreciações, quando reparamos que cada cena, cada quadro, é simplesmente redondo, acabado. Passamos a ver o filme como um conjunto de miniaturas preciosas, onde vamos nos detendo, ganhando intimidade com ele, como um álbum de família. É o momento da sintonia, de entrar em ressonância com o filme, vivê-lo junto com as personagens numa aventura que é desabrochar de emoções ocultas.

Todos conhecem Casablanca, mas poucos sabem explicar o magnetismo que encerra. Lembro de um fato esclarecedor. Foi no início da década dos 80, quando o Vídeo Cassete aparecia no mercado brasileiro, e os cinéfilos corriam à procura dos clássicos, daqueles que não passavam na TV, ou pelo menos em horário compatível com o dos cidadãos comuns, que acordam cedo e trabalham ganhando o leite das crianças. Naquela época a pirataria de fitas de vídeo era a praxe, sem selos de qualidade e toda essa regulamentação que vivemos hoje.

Vamos ao fato. O local: um vídeo clube nos Jardins. Os protagonistas: um rapaz jovem, novo cliente, fascinado pelas descobertas dos clássicos da sétima arte e leigo no assunto; uma moça, gerente do clube; um outro cliente que, passivo, observa o diálogo entre os dois primeiros. “Formidável este Casablanca que você me recomendou” – diz o rapaz, enquanto devolve a fita. “Naturalmente -exclama a moça- trata-se de um clássico. Pena que tenha esse final. Deveriam ter dado um jeitinho…”. “É mesmo: se não fosse esse final…” – acrescenta o jovem. O terceiro personagem entra em cena: “Minha filha, não seja superficial. O filme é famoso pelo final que tem. Você não repara que um final diferente lhe tiraria toda a força? Murcharia tudo, querida!” Perplexidade. O que murchou foi a conversa, que se encerrou ali mesmo.

Assisti Casablanca muitas vezes. As suficientes para perder a conta e conhecer de cor a maioria dos diálogos. O desfecho final, na clássica cena do aeroporto, é magistral. O magnetismo de que falávamos cativou os cineastas e os amantes do cinema que gostam, vez por outra, de saborear cada um dos fotogramas, envolvidos na neblina do aeroporto. A sequência temperada com duas lágrimas escorrendo na sombra do chapéu de Ilsa, inclinado com charme.  E tudo isto, sem saberem explicar o porquê. São os valores que o filme destila os que lhe conferem toda a força e encanto. Como o vinho, melhor a cada ano que passa.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, Rick e Ilsa, acompanham o desenrolar do cinema neste século, atrás das cortinas do escritório de Rick. Um cinema que cada vez mais carece de valores, órfão de romantismo. Ou talvez, como na janela de “La Belle Aurore”, quando Paris é invadido, olham-nos com receio, surpreendidos destes novos invasores que chamam de cinema a qualquer metro de celuloide impresso. Algo grave está para acontecer, pensam. E como toda resposta: “Beije-me, beije-me como se fosse a última vez”. A taça de Champagne cai. A tinta do bilhete escorre com a chuva na estação de Paris. Definitivamente, é preciso rever Casablanca, de vez em sempre, para que o coração do cinema não perca o seu marca passo.

Ingrid Bergman, com 28 anos, sempre elegante, com postura e classe, sóbria nos modos, cheia de dramatismo quando necessário. Bogart vive o papel com credibilidade porque é ele mesmo, como sempre. Cínico, indiferente, com metódico desprezo por tudo e por todos. Cercado de um ar “não partidário”, como recurso para encobrir os sentimentos nobres de fundo. Comenta-se nos bastidores que o final de filme foi escolhido por ele: não surpreende. É bem o seu estilo, auto desprezo, querendo ser frio, mas não consegue ocultar que tem coração e grande.

Não poderiam ser outros os atores deste clássico embora -sempre conversa de bastidores- inicialmente, nomes diferentes pairavam entre os candidatos. Hoje seria difícil imaginar quem encaixaria melhor. Michael Curtiz, húngaro de nascimento, passaria a posteridade mesmo que tivesse dirigido apenas Casablanca. As personagens secundárias estão maravilhosamente cuidadas, e aqui vai mais um mérito para o diretor deste filme antológico. Os valores de fundo atuam como arcabouço para toda a tecelagem das cenas. São estes valores, os que o público, sem perceber, vai descobrindo cada vez que assiste, entrando em ressonância, identificando-se com eles.

Passeemos de novo pelas cenas. Estamos no quarto de Rick. Ilsa exige, revolver em mão, as carta de trânsito. “Dispare, me fará um favor”. É Rick falando. Ilsa titubeia, cede e cai nos braços de Rick. “Já não sei mais o que é direito. Você terá de pensar por nós dois. Por todos nós”. O público identifica-se com Ilsa que hesita. Está falando o sentimento.

Agora estamos no aeroporto. Rick pede ao inspetor Renault que preencha as cartas de trânsito. Ilsa vira-se surpresa: “Eu não entendo. Ontem à noite…” Rick fala com convicção: “Ontem à noite pensei muito e decidi que você vai com Lazlo nesse avião. Se fica talvez não se arrependa hoje, nem amanhã, mas algum dia acabaria fazendo-o e pelo  resto da sua vida”. É a lealdade, o sentido do dever, a nobreza do coração de Rick que deixa ir a mulher que admira, que respeita – sim, que ama!!- por sabê-la esposa de outro. Decisão impregnada de lealdade e bom senso que Bogart assina, sem dar-se importância, de modo característico: “Não quero parecer nobre; mas não é preciso muito para ver que os problemas de três pessoas não passam de um punhado de feijão neste mundo nosso”. Em tradução livre, é mais ou menos isso.

O sentimento se debate e o espectador com ele. Ilsa pede uma explicação que satisfaça o coração: “Mas…e nós?” E Rick: “Nos teremos sempre Paris”. Isto é, teremos sempre a lembrança do nosso ideal, de um amor nobre, claro, sem subterfúgios, livre de culpa. Ilsa vai-se consolada. E o espectador segura o coração -juiz cego- e assente para o que sabe ser correto.

É essa experiência de atravessar o dilema guiado apenas pelo coração, hesitando nos sentimentos de Ilsa até perder a noção da verdade -“não sei mais o que é direito; você terá de pensar por nós dois”- para depois ser confirmado na opção certa por Rick, uma vez e outra, o que me faz rever Casablanca sem enjoar. Rick, que pensou por eles dois, por nós todos, nos oferece a solução certa. O cínico, o indiferente, aquele que não sabíamos em que time jogava, mostra-nos que joga no nosso; ou melhor, que nós jogamos no dele, porque ele é indiscutivelmente o líder. Sentimos, com o inspetor Renault, que “é o começo de uma grande amizade”, com Rick, naturalmente.

A cena do aeroporto, que passei inúmeras vezes nas minhas aulas e conferências para ilustrar a necessidade da reflexão -alguém tem que pensar, e nos ajudar a pensar- teve muitos desdobramentos. Lembro de uma aluna, há muitos anos, que me disse: “O difícil, professor, é subir no avião. Ninguém pode subir por nós. E muitas vezes, sabemos que é o certo, mas custa, custa demais”. Quando apresentei a tese doutoral -sobre cinema e educação médica, que continha na capa uma foto de Casablanca- lembro que essa mesma aluna, me deu de presente um pequeno pôster com a cena do aeroporto. Não sei o que foi feito da aluna, perdi a pista, mas o pôster está lá na parede do nosso terraço.

Quem sabe revendo sempre Casablanca, os homens -os que fazem e os que assistem cinema- aprendam a degustar os valores impressos no filme. Repararíamos -entre muitos outros recados- que deixar-se levar apenas pelo sentimento é solução pouco madura, injusta com os semelhantes. Que o final feliz, o da vida de cada um, entranha decisões custosas que, como no filme, se lembram com carinho especial. E que deixar-se levar pelo que apetece, colocar a lealdade e o compromisso no arquivo morto, é saída fácil. Podemos até gostar “hoje, amanhã, mas algum dia…”

Se apesar de tudo, os homens do cinema são impermeáveis aos ideais nobres -razoes deste teor não convencem quem procura apenas lucro- revendo Casablanca aprenderão, no mínimo, a produzir um cinema de classe. Esse cinema que o público precisa, que o engrandece arrancando-o da mediocridade. Um cinema dedicado a ele, ao público, como somente Ilsa e Rick sabiam fazê-lo. Here’s looking at you kid, quer dizer, “pensando sempre em você”.

 

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(Español) Gabriela Mistral. “Pasión por enseñar”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 21-05-2018

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José Ortega y Gasset: “Meditaciones del Quijote”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 14-05-2018

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José Ortega y Gasset: “Meditaciones del Quijote”. Revista de Occidente. Alianza Editorial. Madrid. 1981. 165 pgs.

Um tremendo gosto de reler este livro de Ortega com o qual tinha estabelecido um diálogo -há marcas no livro que o provam- talvez há mais de 30 anos. Agora, aproveitando uma viagem de avião, encontro as marcas; e as lembranças acodem a memória, assim como a clareza dos conceitos que, confesso, andei utilizando com bastante frequência, sem nunca omitir a fonte de inspiração. É notória a minha admiração pelo pensamento do filósofo. Rabisco aqui estas linhas, em livre tradução do original em espanhol, e vejo na internet que a obra está traduzida ao português, embora desconheço a qualidade da tradução.

Os ensaios -ou meditações do Quixote- são fruto do que o autor denomina amor intelectual. E com a figura Cervantina como pano de fundo, Ortega lança um grito para acordar Espanha e os espanhóis, talvez muito conformados com uma situação medíocre. O filósofo insistia em cutucar continuamente pois, no entender dele, era outra a posição que Espanha deveria assumir no cenário intelectual. E para tal, a tomada de consciência -dos erros, e das possibilidades- tornava-se necessária. Não era -nunca foi- suficiente dormir em cima dos louros de passadas conquistas, e lamentar os erros sem extrair deles o frutuoso aprendizado.

Anota Ortega: “É preciso que libertar-se da superstição do passado, e não se deixar seduzir como se Espanha estivesse atrelada ao seu pretérito. São precisas novas experiências, e uma destas experiências essenciais é Cervantes. Uma plenitude espanhola. Se soubéssemos em que consiste o estilo de Cervantes a maneira cervantina de se aproximar das coisas, alcançaríamos grandes conquistas: poesia, solidariedade, filosofia moral, ciência e política reinam nesse estilo. Se soubéssemos prolonga-lo sobre os outros problemas coletivos despertaríamos para uma nova vida”

Mas os conselhos não servem apenas para os espanhóis das primeiras décadas do século XX. São recomendações universais, como este desafio de tomar o leme da própria vida: “Bem poderão os encantadores tirar-me a ventura (a sorte) mas o esforço e o ânimo são impossíveis diz D. Quixote. Se resistimos a que a herança e o meio nos imponham ações determinadas, é porque procuramos assentar em nós mesmos -somente em nós- a origem de nossos atos. Quando o herói quer, não são os antepassados ou os costumes do presente os que querem, mas ele mesmo. A heroicidade consiste justamente neste querer ser ele mesmo quem tem de ser” Leia o restante deste artigo »

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Thornton Wilder: “A Ponte de S. Luís Rei”

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 04-05-2018

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Thornton Wilder: “A Ponte de S. Luís Rei”. Companhia Editora Nacional. 2002. São Paulo. 95 pgs. (tradução de Monteiro Lobato).

A tertúlia literária mensal leva-nos hoje até uma das obras mais conhecidas do escritor americano, que lhe valeu o Prêmio Pullitzer de ficção. Uma obra curta, com uma tradução magistral por conta do nosso Monteiro Lobato que, certamente, faz toda a diferença. A advertência não é supérflua, pois não são poucas as obras que nos chegam destroçadas por terem sido submetidas a traduções lamentáveis.

Logo de início as opiniões dos ilustres leitores me colocaram em situação de alerta. Houve quem disse que estava esperando o desenrolar da história, o que nunca acontece. Cadê o Frey Junípero que investiga o porquê do desabamento da ponte, arrastando para o abismo, aquelas cinco pessoas? Chegou a alguma conclusão? Porque também sai de cena, sem deixar-nos saber a solução. Alguém, do outro lado da sala, acrescentou: mas existe solução para estas coisas? Por que a gente se pergunta pelos motivos somente quando acontecem desastres e não no dia a dia, onde parece que vamos tocando a vida no piloto automático?

Alguém falou de personagens complicados, onerados com o seu próprio modo de ser. A Marquesa de Montemayor em permanente conflito com a filha: “Mãe e filha torturaram-se mutuamente a ponto de fazer aquele encontro mutuamente insuportável”. E, na ausência surge o melhor, a correspondência materna que é o prato forte do relacionamento destas duas mulheres curiosas: “Foi então que teve início a correspondência epistolar famosa, precioso derivativo emocional de duas personalidades que não podiam viver juntas. A marquesa também teria se admirado de saber que suas cartas eram realmente boas como literatura, porque os grandes autores vivem tanto dentro da obra que elas não passam de emanações naturais e espontâneas dos respectivos temperamentos”

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15h17: Trem para Paris: Heroísmo embrulhado na normalidade, realismo além dos protocolos.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 16-04-2018

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The 15:17 to Paris. Diretor: Clint Eastwood. Alek SkarlatosAnthony SadlerSpencer Stone. USA 2018. 94 min.

 

Quando li que Clint Eastwood estava fazendo um novo filme -antes de cumprir os 88, neste ano- não me surpreendeu. Ele só vai parar quando o enterrem. O amor ao cinema, a superação progressiva em qualidade, e o gosto pelas histórias que merecem ser desvendadas, fazem de Clint um trabalhador incansável. E de mim, confesso sem nenhuma vergonha, um fá incondicional do diretor Californiano.

Amor ao cinema, onde o gosto se vai refinando, e o fundo de valores substitui a ritmo fisiológico a toada dos primórdios que nos trazia o durão dos westerns spaghetti e o bronco Dirty Harry, o perseguidor implacável. Sim, tudo ao seu tempo, melhorando como o bom vinho, passando da pura ação para a direção, delineando os projetos.

Uma coleção de filmes e cenas associam-se na minha mente com os projetos de Clint que, por algum motivo, os considero de algum modo como meus. Aquela decolagem surpreendente com Os Imperdoáveis, os momentos inesquecíveis da dúvida romântica em As Pontes de Madison (quase um Casablanca moderno), as angústias éticas em Menina de Ouro, e as lições de liderança em Invictus, Cartas de Iwo Jima, A Troca. Nem sempre atuando, porque conhece os seus limites e, como diz Woody Allen, há papeis que eu ainda gostaria de fazer, mas a idade não permite. Mesmo assim, Eastwood encontra papeis que se encaixam no perfil octogenário -aliás, que somente se podem representar com essa idade- como Gran Torino e As Curvas da Vida.

Enquanto rascunho estas linhas vou apalpando o meu débito para com Clint, de quem emprestei cenas, dizeres e lições nas minhas aulas e conferências. Assim como me acontece com Spielberg, a quem já rendi tributo público em algumas atividades acadêmicas, reconhecendo em seu cinema uma trajetória de aprendizado em profissionalismo, em cumprimento do dever. Terei de pensar qual é o título que -por questão de justiça- colocarei quando decida juntar alguns dos muitos aprendizados que tive com Clint em um cenário acadêmico. Provavelmente será algo próximo de lições de liderança e superação. Mas esse é outro tema, que requer tempo e, principalmente, decisão. Não vou dizer que não tenho tempo -o que aparentemente é verdade- quando este homem continua fazendo filmes de impacto com 88 anos.

Maturidade, liderança serena, e nos últimos filmes, desvendar histórias. Lembro de ter lido -e comentado- que quando Eastwood ficou sabendo da façanha de  Sully, o piloto que conseguiu pousar o avião no rio Hudson, não lhe deu maior importância. Imagino que ele, como um americano pleno até o último fio de cabelo, pensou que essa era a obrigação dele. Foi somente depois, quando Sully tem de responder um processo por não ter seguido os protocolos de emergência previstos, que Clint decide fazer o filme, desvendar a história. É como um advogado das causas heroicas que o mundo estúpido, anestesiado com processos e protocolos, se empenha em não reconhecer.

O trem das 15:17 para Paris, é outra variante do mesmo tema. Três amigos de Sacramento (Califórnia), evitam um massacre que poderia ter sido enorme por conta de um ativista islâmico, durante uma viagem de trem, de Amsterdam a Paris. O feito em si, não é nada espetacular, e as cenas do filme dentro do trem não são nenhum exemplo de heroísmo nem de suspense. Tudo muito habitual, com gente normal que procura ajudar. A pegada do filme é justamente essa: os heróis são gente comum, ou até abaixo do normal. Eastwood nos descreve com detalhes os bastidores da história:  a amizade destas três personagens, os problemas que enfrentavam na escola por serem crianças que não se adaptavam, com déficit de atenção, criados apenas pelas mães, enfim, o que as avaliações de praxe faziam supor tratar-se de gente problemática, desencaixada. Isso é o coração do filme, o miolo; a viagem e o ato heroico, são apenas uma consequência, com poucos minutos de filmagem, refletindo o que foi na realidade: uma atitude rápida, conduzida sem nenhuma perícia especial -sem ações espetaculares nem agentes treinados. Mas eficaz, com resultados, que é o relevante. Leia o restante deste artigo »

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Hannah Arendt: “A Condição Humana”.

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 09-04-2018

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Hannah Arendt: “A Condição Humana”. Forense Universitária. Rio de Janeiro. 2017. 400pgs.

 Ganhei este livro de um amigo que, certamente, já me ouviu falar de Hannah Arendt e conhece a minha sintonia com o pensamento da autora alemã. A Condição Humana não é um livro de fácil leitura, e reconheço que me permiti a liberdade de ler -por vezes quase de o folhear- de modo desordenado. Um mergulho enorme na cultura clássica, desde os gregos e romanos, até a atualidade, para basear seu pensamento. Erudição talvez necessária, mas que nos escapa aos mortais correntes, resultando uma fundamentação quase monolítica.

O livro propõe-se apresentar uma reflexão sobre a condição humana. Anota a autora na introdução: “Se comprovamos o divórcio entre o conhecimento (no sentido de conhecimento técnico) e o pensamento, passaríamos a ser escravos indefesos desse mesmo conhecimento, e até das máquinas que criamos. O que proponho nestas páginas e uma reconsideração da condição humana. A ausência de pensamento é uma das características mais notáveis do nosso tempo. Proponho algo muito simples: pensar o que estamos fazendo”. Leia o restante deste artigo »

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