A Sabedoria da Maturidade: Quando os atores envelhecem

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 11-10-2007

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     Com os atores acontece o mesmo que com o vinho: ficam melhores com o passar do tempo. É bem possível que não sejam apenas eles, mas também nós, espectadores, os que mudamos o nosso olhar, aprendemos a gostar do gesto ponderado, da sabedoria que a maturidade destila. Borges dizia que mesmo cego, continuava a comprar livros, a rodear-se da amável presença dos volumes. E gostava, uma vez e outra, de voltar sobre os mesmos livros –que tinham de ler para ele- porque pareciam diferentes a cada leitura. Isso, dizia o escritor, porque não é livro, mas sim nós os que mudamos como o rio de Heráclito, onde não conseguimos tomar banho duas vezes na mesma água.

     Stallone volta a ser Rocky Balboa, agora um cinqüentão maduro, dono de um restaurante italiano, perdidamente apaixonado pela mulher a quem vai visitar no túmulo diariamente, e conversa com ela sentado na cadeira que deixa na árvore do cemitério. Um romântico que gosta de contemplar os bons momentos vividos, como quem degusta um vinho de qualidade. Ninguém pode me tirar o que vivi –parece dizer Rocky- sou dono da minha biografia, e do amor que eu tenho por ela. Não sentimentalismo, mas profundidade vital, a mesma que o professor V. Frankl recomendava aos que padeciam a incurável doença da viuvez: “ninguém pode tirar o que vocês viveram juntos”. Logoterapia da melhor espécie no olhar sereno de Rocky.

     Rocky quer voltar a lutar, nada sério, apenas algumas lutas locais, por que sente que “tem que terminar algo”. Os acadêmicos do Box não ajudam, tem medo da coragem de alguém que sente pulsar no seu íntimo o desejo de fazer o que os lutadores fazem: lutar. É a turma do “deixa disso”, os pro forma, os que envelhecem sem amadurecer porque enterram antes de tempo qualquer tipo de ideal e são incapazes de novos desafios. Aposentados da alma, que não fazem planos, esperam a morte.

     Doença esta –a aposentadoria precoce, vestida de falsa prudência- que atinge também os jovens, acomodados, bem planejados, com MBA e uniformizados com terno Armani. O filho de Rocky enfrenta o pai. “Não faças loucuras….”, diz, mas no fundo quer dizer. “Você vai me deixar em ridículo….Logo agora, que estou no meio de uma brilhante carreira”. E Rocky olha para ele, e responde sem negociações: “Você é meu filho, e sempre será. Tenho paixão por você. Mas em algum ponto, você perdeu o norte e acreditou que para triunfar na vida é preciso que a platéia te aplauda.” São os que vivem para os outros, os que precisam que os outros falem deles para demonstrar a própria existência. Parece que não são reais, se ninguém os considera. “Nada bate tão forte como a vida, meu filho. E o importante é saber levantar-se sempre, de cabeça erguida.” Dá meia volta, sorri, e deixa cair a recomendação final: “Não esqueça de visitar sua mãe”. Amar alguém –dizia Gabriel Marcel- é dizer ‘tu não morrerás jamais’. Sem amor apaixonado, que supera as barreiras do tempo, também não se conquista a dignidade, nem se luta por um ideal. Rocky tem tudo isto, e sabe que não precisa dever nada a ninguém para se doar o tempo todo. E surpreende a garota –que conheceu menina- com sua generosidade. E encontra o apóio singelo nela.

     O adversário de Rocky é um campeão sem interlocutor. Ninguém é páreo para ele, e por isso –porque lhe falta a adversidade- não amadurece. A sabedoria vem desta vez nos conselhos do seu treinador. “Tens de apanhar, tens de sofrer para conquistar o único respeito que vale a pena ter: o respeito próprio”. Um conselho que encaixa sob medida no campeão de Box, e no executivo engravatado.

     O respeito próprio, a sabedoria de saber conhecer os limites, entender quando é preciso sair dos primeiros planos e do papel de protagonista, para formar outros e fazer escola. Agora é Kevin Costner, outro maduro, que é retirado da linha de frente e destinado para ser professor. Lá estão os mergulhadores de elite, os melhores dos melhores, que gastam a vida resgatando vítimas no mar gelado do Alaska. Numa madrugada, tira os jovens aprendizes da cama e mergulha com todos eles num tanque gelado, testando a resistência, mostrando-lhes como é estar sozinho no mar, sentindo paralisarem-se todos os músculos, esperando a morte por congelamento. Os acadêmicos protestam contra os métodos do veterano alegando que o programa de treinamento é suficientemente bom, que não é preciso inventar moda. “Existe um grande espaço entre o que vocês ensinam aqui e a vida real. Estou aqui para ver se consigo diminuir esse espaço”. Frase contundente, um verdadeiro recado para os acadêmicos que formam profissionais em estufas, em bolhas universitárias, e não os preparam para a vida. Uma fábrica de pós-graduados que são incapazes de sobreviver no ar rarefeito da selva diária; e passam a vida publicando trabalhos, e fazendo pesquisa com dinheiro público, sem comprometer-se em absoluto com a resposta de cidadania que se deveria esperar de um intelectual.

     Cresceu Kevin Costner, ficou bom, convincente. Adianta-se às crises do jovem em quem visualiza um verdadeiro líder, alguém em quem é preciso investir. E lhe ensina como lidar com os fracassos –necessários- que são o cinzel que esculpe o homem maduro. “Salve aqueles que puder salvar, e deixe ir os outros”. Passar a vida entre desculpas e complexos de culpa é postura cômoda que isenta de futuras responsabilidades. Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, como diz a música é próprio de quem vai conquistando a sabedoria e com ela o conhecimento dos próprios limites.

     Correm rumores dos recordes do veterano. Diz-se que salvou mais de 200. “Qual é o seu número?” – pergunta curioso o jovem que já o admira. “Vinte”. Como assim? Vinte apenas? “Vinte é o número dos que perdi”. Um líder maduro somente conta os que não consegue salvar, porque os resgatados são apenas cumprimento do dever, simples obrigação, nunca motivo de vaidade. Descobre no trabalho a reflexão que leva até sua vida pessoal. “Vi um homem que para sobreviver apoiava-se na mulher para flutuar, você sabe, simples instinto de sobrevivência.” É um belo pedido de desculpas para a sua esposa a quem não dá atenção. “Demorei algum tempo para ver que eu sou esse homem”.

     As lições que destila a sabedoria da maturidade se levantam diante de mim como um verdadeiro desafio. Como fazer chegar isso aos jovens, como ser um verdadeiro professor da vida? Paciência, saber escutar, e não deixar-se iludir por conhecimentos de plástico, técnicas aprendidas não nos livros, mas na web, com respostas fáceis, mas absolutamente carentes de conteúdo. A associação de idéias –e de cenas de filmes- rodeia a memória, cerca-a de exemplos. Agora é o psiquiatra que tenta amansar o gênio indomável. “Você pode me dizer tudo sobre Michelangelo, porque o leu nos livros. E declamar Shakespeare, para me falar da guerra. Mas nunca segurou a cabeça do seu amigo moribundo no colo, nem sentiu o cheiro da Capela Sixtina”.

     Ensinar sobre a vida, vivendo-a junto com eles. Essa é a função do professor, do formador, do líder. Depois de ver Rocky e o oficial Randall, não há desculpas de idade para desistir. Li alguns meses atrás um texto que apontava como os que já temos horas de vôo nesta vida podemos formar e servir os que nos rodeiam. O resumo é muito simples: mostrar, com um sorriso, que vale a pena viver a vida. Ser positivos. Um desafio necessário para os tempos que vivemos e que devemos temperar com a sabedoria da maturidade.

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