Tropa de Elite: um basta à mediocridade

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 10-12-2007

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tropa_eliteTropa de Elite (2007).Direção: José Padilha. Wagner Moura, André Ramiro. Caio Junqueira.

O filme estava na boca de todo o mundo. A bola da vez. Por isso, não hesitei em perguntar a um amigo, Coronel da Reserva da PM o que lhe tinha parecido. “Não vi” – respondeu. “Tenho certo pé atrás com esses filmes denuncia, que muitos utilizam para se promover. Mas uma coisa é certa: quem ama com paixão o que faz, esse chega longe”. Sorri enquanto assentia. “Sabe –disse-me- esse é o grande mal de hoje, da juventude até. As pessoas não têm nada na cabeça, não têm paixão, não amam o que fazem.” E para mostrar que tinha entendido o recado, atrevi-me a comentar: “É verdade, Coronel. Mesmo quem tem idéias apaixonadas, embora muito questionáveis, já é um começo. Veja, por exemplo, os homens de Al-Queda. Certamente não podemos aprovar o que fazem. Mas pelo menos tem algo dentro”. Foi ele quem sorriu nesse momento, levantou-se e me ofereceu um café que fez questão de servir pessoalmente.

Nos dias seguintes, andei dando voltas ao comentário do Coronel. E reparei que foi isso o que me cativou do filme: ver pessoas determinadas, comprometidas, que amam o que fazem. A ausência dessa atitude nos dias de hoje, torna o filme atraente, sugestivo, tem pegada. Não é a denuncia da corrupção, nem a crítica ao poder corporativo pervertido, nem a violência, nem informar do que já sabemos: que onde há pobreza, sempre há quem vive dos pobres, e deles tira o seu maior lucro. Essa é a temática onde o filme se ancora, mas o recado –talvez aquele que muitos não sabem exprimir, mas que lhes fez adorar a fita- é outro muito diferente. Uma chacoalhada tremenda na mediocridade. Mexe com os brios… daqueles que ainda conservam algum, porque temos de convir que brio, decisão, gana, é produto escasso no mercado de hoje. Fácil é deduzir, ao compasso dos fotogramas, que é justamente a mediocridade o caldo de cultura onde cresce a corrupção, a violência, a hipocrisia. A mediocridade dos que deveriam fazer algo e não fazem, a omissão crônica, o famoso “deixa como está para ver como é que fica” dos que tem voz e comando, facilita e promove as vilezas dos menos privilegiados. Culpar o crime é fácil e inútil. O que a nossa sociedade precisa hoje é de uma condena impiedosa da mediocridade.

Vem à mente – e nada faço por evitar a associação de idéias, por sinal excelente- as palavras que o filósofo espanhol, Ortega y Gasset, escreve na sua obra “A rebelião das massas”, talvez uma das melhores críticas à mediocridade já elaboradas. “A humanidade – diz o filósofo- divide-se em duas classes de criaturas: as que se exigem muito e acumulam sobre si deveres e dificuldades, e as que não se exigem nada de especial, mas vivem sem nenhum empenho de perfeição, incapazes de realizar nenhum esforço a não ser o que já vem imposto pela necessidade”. E acrescenta de modo contundente: “Nada espero do homem satisfeito que não sente falta de algo além de ele próprio. O homem seleto não é o que pensa ser superior aos outros, mas aquele que se exige mais do que os outros”.

Uma exigência que leva um grupo de homens, heróis ocultos, a dar o melhor de si, a não vender-se por preço nenhum, a manter os ideais mesmo que as estruturas e o sistema, podre até a medula, se desmorone a sua volta. Os verdadeiros heróis –os do cotidiano- estão do nosso lado, na rua, cumprindo o seu dever, exigindo-se aquilo que nenhum chefe, nem sistema pode lhes cobrar: a dignidade, e o respeito próprio.

O modelo de liderança do homem comprometido arrasta com o exemplo, cativa e desperta aqueles que não querem viver na mediocridade. O modelo se reproduz, quando há compromisso, mesmo que a metodologia de ensino deixe a desejar, pois afinal o que educa é mesmo o exemplo. Na aula sobre estratégia o aspirante 05 cochila. Afinal é um sistema enfadonho para quem passou horas treinando na lama e está esgotado. O capitão Nascimento entrega uma granada ao dorminhoco e lhe adverte: “Se o senhor dormir, vai se explodir, explodir todo o grupo, explodir os oficiais e me explodir. Estamos confiando na sua capacidade”. E continua a lição. 

Um velho amigo, também professor de medicina, costumava contar a história da omelete de presunto para apontar o compromisso que exige a educação. “Na omelete de presunto, a participação da galinha e do porco são diferentes, embora ambos participem. A galinha colabora com o ovo, mas o porco se compromete com o presunto”. Temos, de fato, muita galinha que colabora, e pouco suíno que se compromete na hora de educar. Irritam-nos as injustiças, nos enerva a ignorância e o descaso… sempre que isso não nos faça levantar da nossa confortável poltrona. Revoluções, sim, mas de preferência pela Internet, sem ter de sair de casa, no aconchego que proporcionam o pijama e os chinelos para pensar, com muita consciência social, nas soluções que o mundo precisa. Mediocridade nauseante, até o limite. 

A crítica ao turismo social dos jovens universitários é, a meu ver, uma das maiores conquistas do filme. Um conjunto de estudantes que ainda não souberam que caiu o muro de Berlim, deslumbrados por algum filósofo démodé, sentem o impulso de fazer algo pelos outros –pelos pobres- e montam uma ONG. O que no filme aparece de modo quase grotesco, não deixa de ser uma realidade na formação universitária de hoje. Sente-se o apelo social, e decide-se “ver pobres”, como se poderia optar por “ver macacos” no zoológico. Uma vez feita à boa ação –algumas horas por semana- volta-se à rotina de sempre, a mediocridade, à droga, a inconsciência. Uma vida esquizofrênica, de fazer de conta, onde as baladas, bebedeiras e aberrações de toda espécie, pretendem conviver com algumas horas de “impacto social”. 

Comenta outro pensador que o grande inimigo da sociedade pós moderna em que vivemos não é o segredo, nem a intriga, mas a banalidade. E acrescenta que deveria inquietar-nos não o que está oculto, mas o extremamente visível. Aquilo que todos fazem, e nem se perguntam por que o fazem, e as conseqüências que essas ações deveriam ter na sua vida. As variações sobre o tema são amplas, de acordo com as possibilidades humanas. Alguns como os do filme montam ONGs enquanto outros têm de se contentar com dar esmola em farol. Mas a poltrona, o pijama, os chinelos e, quem sabe, a balada com baseado estão garantidos. 

É a criatura seleta –diz novamente Ortega nessa rebelião das massas de que tanto precisamos hoje- e não o homem massificado quem vive para servir. A vida não tem sabor para ele se não serve. A nobreza está atenta aos deveres, não aos direitos. Daí a expressão clássica, noblesse oblige. Aquilo que ninguém nos cobra –nem sistema, nem superior- mas nos cobramos nós mesmos, é conseqüência da nossa dignidade, um imperativo da consciência. É a nobreza da alma a que obriga o homem a ser comprometido, coerente, e apresentar guerra declarada à mediocridade. 

Não creio que estas considerações expliquem o sucesso do filme. Penso que muitos espectadores devem ter ficado na ação periférica, na denuncia. Mas afinal cinema é arte e cada um aproveita dele o que lhe convém. Eu entro no time do meu amigo, o Coronel, e vibro com os que ainda são capazes de se apaixonar pela vida, pelo seu trabalho. Um grupo de pessoas, seletas, não porque são melhores, mas porque fazem questão de se exigir mais. Um grupo de pessoas que são capazes de, aos poucos, mudar a sociedade, fazendo um mundo melhor. Sem barulho, discretamente, heróis ocultos, determinados. Um grupo que abre os braços para todos os que querem somar-se a esta empreitada, mas que exigem dedicação e dignidade até o último fio de cabelo. Um grupo onde aquele que quer entrar como turista, sem abandonar a poltrona e os chinelos, ouvirá no exemplo dos colegas, a voz que a sua anestesiada consciência é incapaz de lhe dirigir: “Pede para sair, você é um moleque e não merece vestir este uniforme”. Um grupo que é, deve ser, a elite do compromisso, a nobreza que devemos exigir do ser humano. Um grupo assim seria capaz de – em operação “pega geral”- dar um basta à mediocridade que nos envolve.

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