O Mestre dos Mares: a inevitável solidão do líder

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 13-03-2008

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mestre_maresTenho uma velha dívida com este filme. Assisti e gostei. Recomendei aos amigos, aos alunos e colegas. Mesmo aos pacientes que, sabedores do meu gosto cinematográfico solicitam, junto com prescrição de remédios, alguma medicação para o bom uso do tempo livre, para espraiar-se com fruto, para não perder o gosto por sonhar, que é uma das piores doenças que hoje nos cerca. Doença fatal que mata mesmo: liquida o indivíduo aos poucos, sugando-lhe a esperança, prostrando-o numa verdadeira caquexia de ideais. A minha dívida com Peter Weir –o diretor do filme- aumenta quando me lembro que utilizei diversas cenas de “Master and Commander” para ilustrar minhas aulas, para provocar descaradamente a reflexão. E também para produzir as crises que o pensar origina. Um velho amigo, colega no colégio e hoje diretor de cinema, me disse certa vez: “Tu montas o teu filme com as cenas dos outros; fazes uma colcha de retalhos com os fotogramas que alguém produziu para dar o teu recado”. Tinha toda a razão. Por isso a minha dívida aumenta. Bem é verdade que tenho algum crédito com Peter Weir, pela propaganda enorme que fiz do seu show de Truman, e da Sociedade dos Poetas Mortos. São versões diferentes de um tema apaixonante e duro ao mesmo tempo: a solidão do líder. O inovador, aquele que comanda a mudança para novos paradigmas, chega um momento em que se sente sozinho. Esse é o tema, embrulhado num filme de aventuras –com piratas, abordagem de navios, canhões e tempestades- situado no início do século XIX. 

Russell Crowe é o capitão Jack Aubrey, comandante do navio britânico Surprise, que persegue o Acheron, barco emblemático da frota Napoleônica. Paul Bettany é o Dr. Stephen Maturin, um médico culto, naturalista, que combina a perfeição a ciência e o humanismo. A mesma dupla de “Mente Brilhante” nos oferece aqui um magnífico mano a mano repleto de valores. Reflexões nos momentos difíceis, diálogos espirituosos, desavenças, crises, amizade verdadeira. E música: encantadores duetos ao anoitecer, na cabine do comandante que toca violino, e o contraponto do médico com seu violoncelo. Para liderar, e também para clinicar, é preciso freqüentar as artes, entender o ser humano na sua expressão mais genuína, permitir-se conviver com as próprias emoções. Afinal, liderança e medicina, são também artes que devem ser construídas. 

Um jovem oficial acaba de perder o braço num combate. É um nobre, mas não passa de um menino. Algo muito inglês, onde o sangue –o sangue azul, se entende- conta mais do que a experiência ou os méritos. E quando os méritos crescem, não há dúvida: rapidamente Sua Majestade faz do candidato um nobre, um Sir, para que não fiquem méritos soltos na plebe. O garoto recebe o Comandante, que vai visitá-lo no leito de convalescença. Aubrey presenteia o jovem oficial com uma biografia do Almirante Nelson, se interessa pela sua saúde, mas não menciona o braço amputado. Uma atitude chocante, dura, insensível talvez? Ou então é puro orgulho: afinal um braço a mais ou a menos deve ser café pequeno para um nobre inglês. O menino soube que o Comandante lutou com Nelson, e lhe pergunta como era o grande almirante. “Melhor você ler o livro”. E sai. Quando o rapaz folheia as primeiras páginas se depara com um retrato de Nelson, naturalmente sem um dos braços. Esse é o recado do líder: se o maior oficial da marinha britânica não tinha um braço, veja até onde você pode chegar. O que parecia insensibilidade transforma-se em ajuda verdadeira, brinda uma esperança consistente. 

O formador –pai, professor, chefe- que tem dor do subordinado, chora com ele, mas não lhe aponta soluções, prestamestre_mares2um péssimo serviço. A vida bate forte –como diz em outro filme recente um maduro Rocky Balboa- e toda a ciência consiste em saber levantar-se uma vez e outra. Aquilo de “coitado, não quero que passe pelo que eu passei”, tão comum e tão vulgar, nada tem de amor. É egoísmo covarde, medo de não poder suportar em conjunto, a dor alheia. A verdadeira compaixão – que significa “padecer- com -alguém”- consiste em ser solidário com a dor do outro. E a conseqüência lógica é consolar – quer dizer, estar junto para que outro não padeça em solidão. Consolar, cum solatio, estar juntos na solidão da dor. O capitão Aubrey vive a verdadeira compaixão com o oficial aleijado, e o consola com realismo: um braço a menos não conseguiu brecar a carreira brilhante do almirante Nelson. Já dizia Goethe: “Se tratamos os homens como eles são, os fazemos piores. Se os tratamos, porém, como deveriam ser, os ajudamos a crescer”. Um belo ponto de reflexão para os que têm vidas confiadas à sua missão de formadores. 

Há já alguns anos, um aluno que tinha feito um curso de liderança –tema que hoje está na moda- comentou-me que o maior ensinamento que tirou foi o de que um líder sempre atende ao telefone, está disponível. Pensei, na época, que aquilo era um exagero, talvez porque andava eu às voltas com muitos projetos, atarefado em demasia, e os telefonemas inoportunos são lombadas imprevistas que não te deixam circular com uma velocidade média razoável. O tempo confirmou que aquele aluno tinha razão. A disponibilidade é, sem dúvida, uma das virtudes imprescindíveis num líder. E aqueles que têm de se blindar o tempo todo atrás de um exército de secretárias, ramais e protocolos para se protegerem, é porque talvez a postura deles não é blindagem suficiente. O líder com presença, que tem consistência e conteúdo, mantém as distâncias de modo natural, sem barreiras artificiais. 

O Comandante Aubrey está disponível, e um oficial lhe procura para queixar-se. É um homem medíocre, que não se toma sua missão a sério. Não é respeitado pelos marinheiros que, sem terem estudos nem serem nobres –conhecemos a laia das tripulações de guerra nessas épocas- adivinham, com essa curiosa sabedoria do povo, o que cada um é por dentro. “Não me obedecem, cochicham quando passo perto, tenho que ser mais duro”. Aubrey adivinha que o problema é outro. Aquele oficial quer ser popular e ao mesmo tempo ter autoridade, mas como carece de virtudes, é uma missão impossível. Não é fazendo média como ele vai impor-se, mas mostrando exemplo e caráter; mostrando integridade. “Não pode ser amigo dos marinheiros, mas também não precisa ser um tirano. O que eles querem é força, liderança. Encontre isso dentro de você e conquistará o respeito”. Eis um belíssimo conselho para os que têm função de mando. No mundo Corporativo, na Universidade, na própria família, não é fazer média o que conquista, nem praticar uma autoridade despótica. É o exemplo, íntegro de quem não tem vida dupla e pode exigir dos outros porque sabe exigir-se de si mesmo antes, generosamente. O líder sempre atende ao telefone, e sempre vai à frente, porque dá exemplo de modo incansável, não tira férias, nunca, nessa função. Vai diante, e por isso está necessariamente sozinho. 

A tempestade castiga o barco, quebra mastros e velas, e um oficial cai no mar. Não há possibilidade de parar a embarcação, e o Comandante dá a ordem de jogar todos os destroços ao mar para que o homem que nada desesperadamente consiga talvez agarrar-se e chegar até o barco pelos próprios meios. O tempo passa, os restos arremessados no oceano atuam como âncora e o navio começa a se inclinar perigosamente. O pânico toma conta da tripulação que está nos porões. Jack Aubrey entende que a manobra é inútil para salvar o oficial, e coloca em risco todo o barco. O olhar sério para o ajudante dispara a ordem, e o machado cortará as amarras, liberando o navio, e acabando com a esperança de salvação do homem no mar. É o próprio Comandante quem dá o golpe final, assumindo toda a responsabilidade. A solidão do líder surge outra vez de modo inevitável. Nos dias seguintes, as reflexões do Comandante buscam o conselho do médico amigo que, mesmo lhe apoiando, não tem como dividir a responsabilidade nem a culpa, por outro lado inevitável. Aubrey sofre sozinho. 

A vida supera a arte, e estas histórias não acontecem apenas nos filmes. Há bastantes anos, um paciente de uma família muito querida, veio falecer durante uma cirurgia de coração. Era um homem relativamente jovem, diabético, com as artérias coronárias muito comprometidas. Não gostava de ir ao médico, mas sempre levava a esposa no meu consultório. Numa ocasião em que me encontrava fora do país, a esposa conseguiu convencê-lo a fazer um exame de coração, e o resultado foi tão assustador que não deixaram o paciente sair do hospital, e indicaram cirurgia. Ele negou-se alegando que o médico dele –quer dizer, eu- estava viajando, e sem a minha opinião nada faria. Foi para casa e quando regressei, uma semana depois, procurou-me. Estudei o caso a fundo, discuti com outros colegas e com os cirurgiões. Não havia como fugir da cirurgia; aquele homem corria sério risco de morrer de repente. Ele concordou em operar-se, confiante em minha opinião. Entrou na sala cirúrgica, e não saiu mais. As pontes de safena colocadas funcionaram bem, mas a circulação pequena estava muito prejudicada pela diabetes não controlada. Não conseguia sair da bomba de extracorpórea, e quando o fez, teve uma arritmia fatal e faleceu. Antes de isso acontecer, sai da sala de cirurgia, onde estava acompanhando o paciente, para falar com a família. No final, lá estava eu dando a notícia fatal. E, à noite, no velório, abraçado à viúva e aos filhos que tanto me prezam, fui obrigado a dizer: “Sei que isto não lhes consola. Mas eu teria indicado a cirurgia dele sem dúvida, uma vez e outra. O único que pode lhes confortar é saber que ele concordou com a minha opinião. Se tivesse operado na minha ausência e acontecido o pior, vocês se sentiriam culpados por não me ter esperado. Agora eu vou ter que carregar isto sozinho. Não é consolo, mas é a verdade”. Eles me abraçaram com força, sem palavras, como dizendo que me entendiam bem e que, de algum modo, queriam me confortar. 

mestre_mares3O navio francês não aparece, e a calmaria sugere uma pausa na navegação. O Dr. Maturin vê a possibilidade de estudar algumas espécies de aves e animais que há em terra, num local distante e pouco conhecido. Solicita desembarcar, cruzar a ilha a pé, e ser recolhido no outro extremo. Parece um plano razoável, visto que o confronto bélico não parece imediato. O Comandante se opõe. “Isto não é um navio particular. Não temos tempo para os seus passatempos”. O médico irrita-se com o que considera teimosia do líder que não parece contemplar os projetos dos outros, e pensa obsessivamente na sua missão. Mais uma vez o líder sofre sozinho. Não é fácil se opor –quando assim o dita a consciência da própria responsabilidade- ao melhor amigo, ao mesmo que procuramos para nos confortar quando nossas fraquezas nos prostram. Mas a integridade exige muitas vezes aceitar não ser compreendido por todos, e às vezes, nem pelos mais próximos. Afinal, um homem tem que responder diante da sua consciência e não há desculpas para omitir-se. O fato de cada vez serem menos os que atuam assim, e o comum –que nunca é o normal, mas apenas o freqüente- seja fazer média com todos, não nos dispensa da atuação honesta. Stephen Covey, na sua obra “Liderança baseada em princípios” diz claramente que quando alguém quer se acertar com todos, quer ser agradável a todos, e ser um pouco com cada um, acaba não sendo nada com ninguém. O líder, inevitavelmente, convive com a solidão. 

Agora é o médico que, por um acidente, resulta ferido com um tiro no abdome. Aubrey solicita a ajuda de um marinheiro, pois não tem nada melhor. “Você consegue fazer isso?” – pergunta o Comandante. O enfermeiro improvisado afirma ter que estudar os livros do doutor primeiro, orientar-se pelos desenhos, para tentar extrair a bala. “Em terra firme, seria menos complicado”. Á preocupação do Comandante soma-se, mais uma vez, a necessidade de decidir sozinho. A vida do amigo está em jogo, e a missão não pode ser interrompida. A reflexão na cabine de comando, onde o violoncelo do médico repousa sobre uma cadeira, dá lugar à seguinte cena com a tripulação desembarcando. O Dr. Maturin, carregado numa maca, acorda da prostração que a ferida lhe produz. Olha para Aubrey que caminha do seu lado. “Não vai dizer que parou o barco por minha causa”. E o Comandante, sorrindo, tira importância ao fato: “Que nada; estava a fim de esticar as pernas”. O líder sabe combinar em harmonia a conquista dos objetivos da empresa, com o cuidado das pessoas que lhe são confiadas. E tem a sabedoria de decidir –em cada momento, porque as necessidades cambiam, são dinâmicas- de que lado deve se inclinar, quando deve puxar, e onde deve afrouxar a corda. Mas a decisão, quase sempre, cabe-lhe em solidão. 

O que fazer para ganhar essa sabedoria, invejável, do líder que é obrigado a decidir sozinho? Muito se tem escrito sobre o tema, e não é o propósito aqui esgotar o assunto nem apontar soluções mágicas. Mas uma coisa é clara: não tem medo da solidão, aquele que a freqüenta habitualmente. Quem reflete a cada passo, quem pondera diariamente seus atos nas coisas de ordinária administração, estará mais apto para decidir nos momentos difíceis. É nesse recanto da solidão da sua consciência –onde sabe pesar o conselho dos outros e também a inspiração que solicita a Deus- onde se constrói a personalidade de um líder. Num belo ensaio sobre os povos jovens da América, Ortega y Gasset, sugere isto de modo gráfico. As formas da personalidade –diz o filósofo- são como uma esfera. A camada exterior é algo herdado dos costumes, da educação. Serve para o dia a dia. Mas cabe a cada homem ir engrossando essa esfera com a sua reflexão e com a honestidade das suas decisões para que a esfera não fique oca. Quem carece dessa densidade, somente saberá acertar nos dilemas comuns, mas sentir-se-á completamente impotente quando dele se exija uma solução criativa, original, heróica. 

Os líderes –como os heróis- não nascem. Eles se constroem, no fogo lento da reflexão, no gosto pela solidão que sabem freqüentar sem medo porque ganharam intimidade com ela. Um líder não usa o piloto automático, nem se esconde no barulho ativista do homem ultra ocupado. Faz as coisas com serenidade e sabe que as coisas urgentes podem esperar. As que são muito urgentes, essas, ele as faz esperar de propósito. 

“O Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo” (Master and Commander,. The Far side of the World) Diretor: Peter Weir. Com : Russell Crowe, Paul Bettany, James D´Arcy. 138 min.

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  • Eduardo

    muito bom

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