Entre Irmãos: A família que nos cuida e nos cura.

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 08-04-2010

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Brothers . Diretor: Jim Sheridan. Jake Gyllenhaal , Natalie Portman , Tobey Maguire ,  Sam Shepard. 105 min. 2009.

A família é um tema recorrente –na verdade, uma paixão- nos filmes de Jim Sheridan. Nota-se que mamou os valores familiares da Irlanda profunda, sua segunda paixão. De um modo ou outro, o diretor irlandês plasma seus amores entre os fotogramas dos filmes que dirige. Vale lembrar “O Meu Pé esquerdo”, um tributo magnífico à mãe irlandesa, um monumento de mulher. E, anos depois, “Em Nome do Pai”, o elogio rasgado de um pai que, por trás de uma aparente pusilanimidade, demonstra a honestidade e a fortaleza de um colosso. Sheridan fez um encantador ensaio do amor entre irmãos –ainda crianças- no pouco conhecido “Terra dos Sonhos” (In America). Agora chega “Entre irmãos”, outro mergulho familiar de categoria. Chega e vai embora, porque o tempo em cartaz foi mínimo. Enquanto escrevo estas linhas, acabo de falar com a Locadora onde alugo os filmes e me dizem que não chegou; e mais, que nunca ouviram falar dele. Parece que os filmes de Sheridan não tem cartaz, ou lhes falta marketing. Uma pena: com tanta bobagem como circula hoje em dia, seria uma opção consistente, um oasis no deserto das perdas de tempo e dos absurdos.

O argumento é simples, e não é o caso de detalhá-lo aqui. De um lado, o irmão exemplar, casado com uma mulher maravilhosa, pai de duas meninas encantadoras, militar responsável que defende seu país. Do outro, o irmão torto, beberrão e briguento, que vai sobrevivendo entre a cadeia e o desemprego, e embaraça a família de continuo. A vida da voltas, a virtude não é conquista perene –o vício, para esperança de todos, também não o é- e dessas mudanças e reviravoltas se aproveita Sheridan para dar o seu recado. Contundente, profundo, faz pensar. E fará com que muitos agradeçam, e outros se lamentem –por sentirem falta nas suas vidas- da força que nos chega da família. É da família de onde provém a seiva nutritiva, o alimento que nos sustenta.

É na família onde somos compreendidos, onde tudo tem desculpa e perdão, onde se recupera o alento para tentar melhorar. Na família há tempo para escutar, ocasião para despir nossa intimidade sem medo de ser magoado. Lá encontramos o sparring em quem podemos descarregar nossas raivas, e sabemos que agüentará. Não importa o tamanho nem a quantidade das nossas misérias, pois sabemos nos entenderão, buscarão soluções do nosso lado, injetarão ânimo e vontade de recuperação. E tudo isso porque na família impera a doação: dar sem nada esperar em troca, sem passivos contáveis. Na família aboliram-se os egoísmos, para fazer questão de pensar no bem dos outros. Não se fala de direitos, apenas se pensa em deveres, nos deveres que o carinho faz descobrir sem impô-los. Não se pensa em usufruir, mas apenas em servir.

Não importa quão grande sejam as dificuldades –mesmo tragédias- que a vida nos depare, se esses valores estão presentes. Esse é o recado forte que o diretor irlandês traz a tona. Quando a violência e o desespero fazem pensar que é necessário apelar para a autoridade de modo a contornar a situação crítica, as convicções de Sheridan se encarnam nos gritos do irmão torto: “Isto é uma questão de família- Family Matter”. As desavenças familiares nunca são um caso de polícia; são assuntos de família, expediente interno que deve se tratar intramuros. A roupa suja lava-se em casa. Sempre. Este é o argumento incontornável para deixar de fora os intrusos: “Você e meu irmão! Você é a minha família”. Gosto da expressão original em inglês, onde fica mais claro que você, meu irmão, não é apenas parte da minha família. Você é a minha família! You are my family! Você é a essência da minha família, não um apêndice do qual possa prescindir. Preciso de você, porque você é a unidade também. E nessa solidariedade, encontraremos um motivo sólido para viver. Um sentido para a vida, a tua, a minha, a da família.  A cena é tensa, rápida, repleta de suspense. O coração na mão. Mas a mensagem é uma carga de profundidade.

Não importa quem somos ou o que fazemos. Nada valem os títulos nem credenciais. Na família somos nós mesmos, sem maquiagem. Como dizia um velho amigo: Não adianta representar um papel diante de quem te viu de pijama!  Por isso na família é possível curar as mentiras que nos machucam, as insinceridades nas quais se vive mergulhado neste mundo de faz de conta. A falsidade é como faca de dois gumes, e o lado que nos atinge acaba fazendo um estrago maior. Quando não reconhecemos os nossos erros vemos o mundo distorcido, através da lente da nossa própria mentira. Tudo nos parece suspeito, com segundas intenções; projetamos nos demais a sombra da nossa própria indigência. Falta-nos coragem –clareza de inteções- para admitir nossas claudicações; os desajustes, instáveis como o vazio, atraem um corpo que lhes consolide. A culpa, fatalmente, incide sobre os que estão à nossa volta: pessoas, instituições, sistemas, este mundo às avessas. Somente na família, é possível desfrutar um clima que desmascare este triste engano. Com suavidade, apalpando a confiança, sabendo que seremos compreendidos, perdoados, animados a viver de novo com sinceridade, sem disfarces.

Lembrei nesse ponto de um filme que vi e comentei há alguns anos. “Coragem sob Fogo”, onde as trapalhadas da guerra –e da consciência- eram apresentadas magnificamente por Denzel Washington, sob a direção de Edward Zwick, sempre comprometida com a consciência de missão. Naquela ocasião, me permiti algum devaneio sobre a verdade e recordo ter invocado filósofos e escritores. Gilson, por exemplo, que afirmava ser a busca da verdade, sobretudo, um problema ético mais do que intelectual, porque os homens são muito propensos a procurar a verdade, mas pouco inclinados a aceitá-la. Achar a verdade não é difícil, o difícil é não fugir dela uma vez que se encontrou.  E também Maritain, quando fala das meias verdades, ou verdades diminuídas, das quais se alimentam as almas por ser a verdade plena forte demais, quase indigesta. Mas a minha invocação predileta correu por conta de Susanna Tamaro, que junta com sabedoria os conselhos de uma avó à neta rebelde, no seu Vá onde seu coração mandar. Diz a escritora italiana: “Não podemos fugir das mentiras, das falsidades. Ou melhor, podemos fugir durante algum tempo, mas, quando você menos espera, lá vêm elas à tona, já não são mais tão submissas como na hora em que as dissemos, aparentemente inofensivas, nada disso; durante o momentâneo afastamento, transformaram-se em monstros medonhos, em horrorosos ogros. Mal chegamos a nos dar conta e, na mesma hora, já estamos sendo vencidos, devoram-nos e a tudo que está em volta com uma voracidade espantosa”.

A família anda maltratada nos dias de hoje. E assim andamos todos, órfãos desse manancial de seiva que nos nutre. Há quem proponha repensar o conceito de família, por em pratos limpos o que é família, para que ninguém se sinta excluído. De fato, a perspectiva de ser um “sem família” apavora qualquer um; mas, não sendo fácil construir uma família com os predicados que acima articulamos, a solução é tornar o conceito mais amplo, flexível, confortavelmente globalizado, para que ninguém se sinta abandonado na sarjeta. A polêmica é ampla, e não é o momento de envolver-se nela. A briga nominalista pela idéia de família não é privilégio deste pós-modernismo que vivemos. Na verdade, o termo vinha sendo desgastado, talvez aproveitado, pelos magos do marketing quando ofereciam a esperança de encontrar uma família como anzol da publicidade. Escreve um pensador: “Respeito, comunidade, afeto, compreensão, preocupação, lealdade, liberdade, alegria, amor e até um par de sorrisos se oferecem agora como aquilo que vamos encontrar, por exemplo, numa cerveja, num perfume, num restaurante ou num banco; os propagandistas sabem que, infelizmente, cada vez são menos os que encontram isso na própria casa, se é que tem uma. Apesar dos esforços por encontrá-la, ainda não se descobriu uma alternativa para a família. A família é, como o amor, imortal”.

Esclarecendo que nada tenho contra as inovações nem quero marginalizar ninguém, bom será que cada um veja se o conceito de família que almeja será de fato ambiente de crescimento, de conforto, atmosfera onde seja possível se recompor das falsidades e curar as chagas das nossas misérias. Se será, verdadeiramente, um lugar onde possamos nos achegar cansados, abrir o coração sem pudor, pedir ajuda – e oferecê-la sem trégua-, e sairmos melhor do que entramos. Posto isto, o resto é por conta de cada um. Convocar variedades humanas, animais de estimação ou mesmo um zoológico no projeto familiar é prerrogativa da liberdade humana; os resultados dirão o quanto é flexível o conceito e, sobretudo, se é sustentável, por utilizar uma expressão moderníssima. O tempo mostrará se as variações familiares são alavanca para nos tornar melhores e empurrar-nos a viver a vida com alegria, ou um conchavo de egoísmos –cada um cuidando da sua vida- uma farsa efêmera, circo carnavalesco que inexoravelmente se aboca à quarta feira do desengano.

Há muitos anos –e com isto acabo as reflexões que são, por natureza, infindáveis- o meu pai ficou desempregado, com cinco filhos para sustentar. Não me lembro de tê-lo visto reclamar, nem queixar-se. Soube depois –ele mesmo me contou- que foi nesse momento quando “nasceu” o papel timbrado familiar. Conservo uma folha até hoje, como verdadeira relíquia de otimismo. Encomendou-a numa gráfica –não havia computadores na época- e mandou colocar no canto superior esquerdo o sobrenome da família, endereço e telefone; no direito lia-se o nome dele, o da minha mãe logo em baixo, e na linha imediatamente inferior o nome dos cinco filhos. O dono da gráfica lhe perguntou: “Mas, isto o que é exatamente?”. Meu pai sorriu e respondeu: “Esta é a única empresa que montei que deu certo”.

Estas linhas são um merecido tributo a ele, ao seu otimismo, e à “empresa” que, felizmente, continua dando certo.

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  • Anônimo

    Belas citações caríssimo Pablo. Fostes muito feliz ao relacionar o poder de cura familiar com o estrategismo cinematográfico que Sheridan tem para tocar os amantes de sua arte.
    Mais uma vez, brilhante análise.
    Grande abraço,

    Pedro Nor

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  • Ismael Ramírez Villaseñor

    Como bien ha explicado Pablo, los humanos necesitamos de otros humanos capaces de perdonarnos siempre, de escucharnos, necesitamos alguien a quien corresponder igual; ademas de llorar, recordar, sufrir y reír juntos. Estas relaciones son mas poderosas que los medicamentos, y mas duraderas que los gobiernos. El nombre que reciban tiene menos importancia, ahora les conocemos como -familia-. Pero, cuando las relaciones familiares son dañinas, el daño es inmenso. Las sociedades sabias se organizan para que sus familias sean nutritivas con sus hijos.
    Un saludo y enorme abrazo para Pablo González Blasco desde Guadalajara, México.
    Ismael Ramírez V.

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