O Seqüestro do Metrô 1 2 3 – Liderança Interior: Os deveres que ninguém nos cobra

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 28-07-2010

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The Taking of Pelham 1 2 3. 2009 Diretor: Tony Scott. Denzel Washington, John Travolta, Victor Gojcaj, John Turturro, James Gandolfini. 121 min.

     Este filme me fez pensar. A esta altura, com muitas horas de cinema vividas, não perco mais tempo classificando os filmes em bons ou ruins. Afinal, teríamos que definir o que é bom, ou melhor, saber para o quê são bons. Há filmes que te fazem pensar e outros que passam –como diziam os clássicos espanhóis- sem pena nem glória. Acabam nos créditos, sem deixar nenhum eco pairando na nossa mente. Quando as mergulhadas no cinema estão, como no meu caso, assumidamente formatadas na procura de valores, classificar os filmes em função da reflexão que provocam, parece-me muito mais adequado. A vida busca na arte a expressão plástica de algo que agregue valor ao viver, modelos que nos empurrem a viver com melhor qualidade, mais intensamente. Mais humanamente, me atreveria a dizer.

     Nunca fui um admirador do Tony Scott, mas parece que Denzel Washington se dá bem com o diretor britânico, pois fizeram vários filmes juntos, sempre com muita ação, espionagem, suspense. Aventuras variadas que servem como passatempo, sem nenhuma outra pretensão. Esta é mais uma entrega da dupla, embora careça desses ingredientes. O argumento é simples: o seqüestro de um vagão de metrô, e a negociação para o resgate dos passageiros. A ação é mínima, o suspense é irrisório. Tudo corre por conta de um Travolta bandido ilustrado, e não há mocinho que lhe dê o troco. Mas tem pegada. Notei-o depois, quando as cenas voltavam à minha mente; mais do que as cenas, as atitudes do protagonista, que tem vocação de anti-herói, mas pega o touro pelos chifres. E o touro não é o bandido, mas o próprio dever que ele se impõe.

     Sim, o filme me fez pensar. Trouxe à baila um tema que sempre me ronda, mormente em momentos onde a mediocridade circundante reina solta. Não saberia dizer se vivemos tempos presididos pela mediocridade –política, acadêmica, institucional, pessoal enfim, pois as instituições são o reflexo das pessoas- mas o fato é que o assunto do dever que ninguém nos cobra, foi se configurando nitidamente na minha frente.

     Denzel Washington é um funcionário do Metro, controla os trens. Se não está em período de experiência, também não tem o emprego assegurado, porque algo no seu currículo está mal contado. Cumpre sua função, ganha o sustento familiar. De repente, surge o problema. Tenta ajudar –acontece no seu horário de trabalho- mas o chefe lhe dispensa. É fora da sua competência, um caso de polícia, trabalho de gente experiente. As circunstâncias o colocam novamente na frente da situação e ele, que não buscava nem problemas nem muito menos ser o centro das atenções, assume de corpo e alma. Não se exime –poderia fazê-lo, afinal o assunto não é com ele- mas dá o melhor de si. Cria, inventa, inova, arrisca. Torna-se, sem querer, imprescindível na operação de resgate. Agora não tem mais volta, e vai até o final, sem medir esforços nem riscos. O dever que ninguém lhe podia cobrar, ele se impõe a si mesmo. Sacrifica o prestígio, a situação confortável, a própria imagem para cumprir uma missão que foi buscar no fundo da sua alma. Uma história exemplar de superação pessoal. E o faz com naturalidade, sem dar-se importância, sem glória de herói, que sabe não se encaixa na sua vida pacata.

     “A Rebelião das Massas” é obra que não me canso de recomendar, na tentativa de advertir os meus jovens alunos do mal epidêmico da mediocridade. Nesse livro Ortega y Gasset descreve o homem seleto como aquele que sabe exigir-se mais do que os outros, e não apenas quem se crê superior aos demais. E chega a dividir o mundo em duas classes de criaturas: as que muito se exigem e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres, e outras que não se exigem nada especial, e vivem como o que já são, sem esforço de perfeição, como bóias à deriva na corrente da vida.

     Esta é a verdadeira liderança interior, a de quem sabe descobrir os deveres que, mesmo ninguém lhe cobrando –não seria justo fazê-lo- carregam-nos sobre si, e dão conta deles. São os que se complicam a vida, os que inventam deveres, também no sentido que Ortega dava a esta palavra, proveniente do original latino: invenire, descobrir. Sabem contemplar as circunstâncias em que a vida lhes situa, refletem, buscam no fundo da sua alma as possibilidades que lhes foram concedidas –os famosos talentos- e, generosamente unem aquelas com estes, criando o arco voltaico da resposta eficaz. Não se contentam com a justiça, trabalham a distância dela, consideram-na como um mínimo ao qual nunca se rebaixam, porque voam muito mais alto.

     Não fazer mal a ninguém, ou até fazer algum bem esporádico, não é critério de liderança nem de seleção. A questão é fazer todo o bem que é possível; e isso é algo que ninguém pode nos cobrar, porque desconhece até onde podemos chegar. Extrair do ser humano as melhores possibilidades –dar o melhor de si, fazer todo o bem que se é capaz- é desafio continuo para os que estamos envolvidos na formação de pessoas. Uma empreitada que os cursos de ética convencional não são capazes de resolver, visto que regulam pelo mínimo aceitável. Já os códigos de classe são ainda piores, pois apontam apenas o que é passível de punição. A ética personalista –ética das virtudes que cada um conquista e coloca em jogo- é a perspectiva capaz de promover a excelência na atuação, para fazer o seu melhor, sem contentar-se em cumprir tabela, almejando o dever que não vem sugerido nem será cobrado, porque nasce do nosso interior.

     Onde os cursos tradicionais de ética – às vezes, mais do que cursos uma espécie de feira-mutirão em confortável hotel fazenda- se mostram ineficazes, o Cinema rende resultados interessantes. As cenas impressas no celulóide impactam o interessado, provocam reflexão e despertam ideais ocultos, berço das virtudes.

     Venho trabalhando o assunto desde há tempo, quando uma cena de outro filme me impactou de modo definitivo situando-o no meu elenco de prioridades,. Estamos no final da “A Lista de Schindler”. O protagonista contempla tudo o que fez, a quantidade de gente que salvou, recebe os elogios do líder judeu, mas algo não funciona. “Poderia ter salvado mais. Poderia ter vendido este carro, não gastar tanto dinheiro”. O choro compulsivo toma conta de Oskar Schindler, e de nada valem os consolos que lhe prodigam aqueles que estão vivos graças à sua iniciativa. É a carga, tremenda, da omissão. Do que poderia ter feito –somente ele sabe- e não fez. Um sofrimento que terá de carregar sempre. Fui buscar nos meus arquivos uma crítica que escrevi há alguns anos sobre esse filme. Encontro este parágrafo: “Um líder não pode ter outro parâmetro de avaliação a não ser a própria consciência. Não basta comparar-se com a média, ver o que os outros fazem, contentar-se com o confete que te jogam. Somente no íntimo – ele e Deus – o líder sabe quanto fez e quanto poderia ter feito a mais. Essa é a sua grandeza, e a sua cruz. O peso da responsabilidade, a solidariedade que deve demonstrar com a liderança”. Como se vê, o tema me acompanha de longe.

     Numa canção talvez um pouco cafona, mas com substância, Julio Iglesias cantava a insensatez do homem que tinha se esquecido de viver. “Me olvidé de vivir“, dizia, por muito correr na vida, por não parar e refletir, ponderando o que realmente valia a pena. Passou a vida, perdi o bonde. Mais ou menos era isso. A vida se perde quando se abre mão da reflexão que ajuda a tomar as decisões certas, o caminho que deve se escolher.

     A música lamenta o que vemos todos os dias, e que muitos séculos antes Santo Agostinho já tinha advertido: Bene curris, sed extra viam! Corres bem, mas fora do caminho. Temos tanto que fazer, que não encontramos o momento de parar e decidir o quê devemos fazer, por quê temos de fazê-lo, e o que se pretende com essa ação. Muita correria sem saber, exatamente, o destino. A pressa é tanta que falta tempo de parar no posto de gasolina e abastecer. O resultado é previsível e, de fato, acontece. Lembro de um paciente com quem comentei isto em certa ocasião e me disse: “É isso mesmo, doutor. Eu já fiquei quatro vezes na estrada, vindo do Alpha Ville, porque estava com pressa de chegar a São Paulo”.  O comentário deste empresário me fez pensar que nem com os erros aprendemos: insistimos, esquecemos –não só de viver, mas também dos fracassos- e tentamos de novo, da maneira equivocada.

     A correria faz esquecer-se de viver. É um modo de perder a vida. Mas existe outro modo de perdê-la, mais subtil, que não faz barulho e que o filme sugere. São os que querem tudo encaixando nos seus esquemas. Está tudo pensado, planejado, delineado. Uma fantástica blindagem contra complicações e imprevistos que venham ameaçar uma vida pacata, tranqüila, conforme o gabarito. No risk, como se lê nas lojas de carros importados e blindados. Sim, a vida se perde também por excesso de previsão, por planejamentos quase doentios – lá entra família, trabalho, férias, viagens, algum que outro extraordinário, tudo com muita medida, amarrado, esquematizado, orçado. Tudo muito próprio da nossa época de condomínios fechados de alta segurança, onde caberia acrescentar às inúmeras portas de entrada, um fosso de jacarés. E, nesse cenário, chega o ladrão, de terno e gravata e limpa o prédio.

     “A vida é o que te acontece enquanto estás ocupado fazendo planos”. Essa é outra canção, de John Lennon. A vida é como o ladrão no prédio de luxo: entra quando menos se espera; aliás, não se espera, e por isso entra. Querer fechar a vida dentro dos próprios esquemas acaba por reduzi-la à dimensão da própria insignificância. Faltar-lhe-á o ar renovador que vem dos outros, do sabor de aventura, de sentir-se útil. Já dizia Kierkegard que a porta da felicidade se abre para fora, e quando tentamos abri-la para dentro, para nós mesmos, para cuidar do próprio umbigo (com perdão do filósofo), acabamos por fechá-la ainda mais.

     Gregorio Marañón, médico humanista, escreveu num dos seus ensaios que o dever que se nos exige deve ser um pretexto para inventar outros deveres. Inventar, já o vimos, é descobrir, tirar de fundo da nossa consciência a resposta a um dever que nos chama, que chega fora dos esquemas previstos, que nos complica a vida, mas que fará com que a vivamos em plenitude. Esquecemos de viver quando vamos tocando a vida, sem refletir, sem anotar na alma as ponderações; mas também nos esquecemos de viver, quando fazemos da nossa vida uma simples confecção de um diário detalhado, colorido, uma base de dados de um viver carente de sabor, insulso.

     Há uma cena, quase no final do filme, que me tocou pela delicadeza. Denzel telefona para a mulher e conta a empreitada onde está se metendo. Sabe que sua vida corre perigo, e busca um modo de se despedir. A mulher entende que o marido se defronta com um dever que inventou, que foi buscar além das suas obrigações. Poderia dissuadi-lo, dizer que ele nada tinha a ver com tudo isso. Mas respeita a consciência do homem que ama e lhe apóia com elegância: “Acabou o leite. Quando voltes, traz leite para casa”. Ele pensa que a mulher não captou o tamanho do problema, tenta falar, mas ela não deixa: “Nem se te ocorra voltar sem trazer o leite”.

     Viver a vida com sabor de aventura, inventar deveres, implica fazer partícipes desse modus vivendi os que temos à nossa volta: família, amigos, colegas. É preciso colocá-los, mediante nossa atitude e dedicação, no mesmo barco, para evitar a tentação de usá-los como álibi que nos dispense dos deveres a que somos chamados. “Eu, por mim, faria… mas, você sabe, nas minhas circunstâncias”. Contam que Alexandre Dumas filho foi interpelado em certa ocasião por uma dama, a propósito dos costumes nada edificantes do pai, também escritor famoso. “Deve ser difícil para o senhor ter tido um pai com costumes tão desregrados!”. O escritor não se deixou intimidar e respondeu de bate pronto: “De modo algum, minha senhora. Se ele não me serviu de exemplo, serve-me de desculpa”.

     Desculpar-se de inventar deveres por motivos do entorno, é fruto de não saber envolver as circunstâncias nos próprios sonhos e aventuras. Alguém, conhecendo o meu gosto por Ortega poderia esgrimir-me aquilo de: “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. É verdade, mas isso não significa que sejamos passivos às circunstâncias, porque é possível mudá-las. Eis uma réplica, para quem tenha dúvida: “É um erro pensar que a vida é uma operação receptiva, transitar por entre as coisas, sofrer e gozar o que nos chega de fora. A vida não é recepção do que acontece fora, mas ao contrário consiste em pura atuação. Viver é intervir, um processo de dentro para fora, no qual invadimos o contorno com atos, ações, costumes maneiras, conferindo-lhes o estilo que se encontra na nossa sensibilidade”.  A réplica não é minha; é de Ortega, naturalmente.

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  • Bcamanho

    En hora buena Pablo. Más una obra maestra de sus textos que son “más que criticas” y que nos hacen acordar de valores realmente importantes en nuestras vidas. Un abrazo! Bruno Camanho.

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  • Roberto

    Caro Pablo, você de fato se superou nessa crônica. Extraiu do filme considerações de tomo, ponderações que nos fazem pensar: estou fazendo tudo o que posso? não posso dar mais?

    Roberto M Cardillo

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  • Carlos Lobo

    Muito boa crônica Mr. Pablo. Parabéns!

    Considere a possibilidade de ver o original deste filme rodado décadas atrás, com elenco fantástico.

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