O Concerto: Arte e Beleza que nos abrem à Esperança

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 28-09-2010

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     Voltei de uma viagem com o nome do filme na agenda. Não o conhecia e logo vi que não seria fácil de conseguir, pois não constava nos catálogos nacionais que costumo consultar. Mas, finalmente, me fiz com ele, coloquei-o no computador, e esperei a ocasião. Não apenas ter tempo, mas sim disposição. A minha não era das melhores.

     Um filme, igual que um livro, pode ser ótimo, mas tem o seu momento; enfrentá-lo quando falta sintonia, rende dividendos equivocados, julgamentos indevidos. E, o que é pior, perde-se uma ótima ocasião de estabelecer um diálogo com ele, de aprender e inspirar-se. A arte é isso: uma provocação ao diálogo interior, saber freqüentar nossa intimidade, tirar dali forças e sentido para viver a vida com categoria. A vida supera a arte, mas para viver bem, a beleza que nos chega pela arte é imprescindível.

     A ocasião surgiu no passado domingo. Estava saindo de casa para jogar tênis com um amigo, quando tocou o telefone. “Desculpe, tive um imprevisto, não vamos poder jogar”. E agora? Tudo o esquema arrumado para a manhã de Domingo. Há sempre a possibilidade de buscar outro parceiro, mas de última hora, as chances de sucesso são pequenas. Fui dar uma breve corrida –afinal estava com indumentária esportiva, e trocar-se sem fazer esporte tem sabor de fracasso- e voltei pouco depois. Nesse momento, lembrei do filme e, curiosamente, me senti inspirado. Deixei rodar o filme e, em poucos minutos, estava conquistado. A música me convidava ao diálogo.

     Lembrei do meu pai, que me fez estudar piano quando criança. Nunca toquei bem, porque para isso é necessário ter dom –que eu claramente não tenho- e dedicação devotada; a minha era por obrigação. Tive minhas discussões com ele em alguns momentos, porque as aulas de piano me impediam fazer outras atividades pelas que eu sentia maior inclinação. Um dia – a lembrança desenhou-se na minha memória enquanto desfilavam os fotogramas do filme- sentou do meu lado e me disse: “Algum dia, talvez passes por dificuldades como as que eu tenho agora. Já vês: sem trabalho fixo, fracassos profissionais, uma família para sustentar e uma profunda decepção com as pessoas, um sabor de traição daqueles que eu considerava do meu lado. Se algum dia te enfrentas com isso terás a música para te confortar, para sarar a tua alma machucada”. Meu pai –que gostava imenso de música- nunca teve instrução musical, e sentia falta nesses momentos. Eu nunca cheguei a tocar bem, mas a educação musical ficou. Como sempre, meu pai tinha razão. Confirmei, mais uma vez, que damos valor às coisas que aprendemos das pessoas que nos querem, depois de muito tempo, quando provavelmente não as temos mais do nosso lado.

     A música me resgatou na manhã de domingo. Não estava destroçado nem passando por situações similares às do meu pai, mas tinha lá comigo os meus problemas, as minhas decepções, um ceticismo em forma de falta de esperança. E o concerto, me cativou e me fez chorar enquanto ouvia o violino solando, arrancando das cordas uma melodia que penetra na alma. Porque o concerto retratado no filme é o Concerto para Violino de Tchaikovsky. O único que o compositor Russo escreveu para esse instrumento, como logo confirmei com um amigo músico a quem emprestei o filme. A emoção tomou conta dele também e, por sua vez, lhe faltou tempo para passá-lo a outros colegas músicos, imediatamente. Virei referência, sem querer, entre um grupo de artistas, por ter recomendado o filme. Não pretendia tamanho reconhecimento, mas confesso ter ficado feliz comprovando que aquilo que eu, um amador, tinha sentido -a arte me confortando, as notas do violino de Tchaikovsky derramando-se como bálsamo de esperança sobre a minha alma- tinha os mesmos efeitos em quem fez da música seu modo de vida.

     Fui buscar as críticas publicadas sobre o filme. Encontrei algumas que não me convenceram. Idéias desencontradas que advertiam para o excesso melodramático, apontando que poderia ter sido um grande filme, mas ficou pele metade. Tudo indica que os críticos têm medo de se emocionar ou, talvez, de reconhecer que se emocionam. Sorri, discordei, e entendi que, mais uma vez, os técnicos do cinema julgam com um profissionalismo que à maioria dos mortais não nos diz absolutamente nada. Mais atrapalha do que ajuda. O que é que ficou pela metade, perguntei-me? Um filme que ameaça ser comédia, transforma-se em drama, e se torna inverossímil? Um exagero de reações, uma mania doentia por Tchaikovsky, no Maestro, no próprio filme? Poupei-me de continuar lendo os oráculos, e comprovei que em mim –e nos músicos que por acaso seguiram minha sugestão- nada tinha ficado pela metade. A recuperação que senti na manhã de Domingo foi substancial.

     Tinha recebido no dia anterior um email sobre matéria publicada numa conhecida revista de opinião. “Pensar demais é nocivo à saúde, pode levar à depressão”. Fiquei decepcionado, conhecendo as circunstâncias, e os motivos de semelhante mensagem. Talvez seja o único que se nos ocorre recomendar quando vemos sofrer a alguém sob os golpes que a vida proporciona: “não pense demais, não esquente a cabeça”. O atordoamento que me proporcionou esse pensamento veio engrossar o meu pessimismo. Não pela afirmação –afinal, cada um pode dizer o que bem lhe parece- mas pela procedência, e pela ocasião em que me foi remetida. Quando a gente gasta anos de trabalho educando pessoas, ensinando a refletir sobre a vida e os motivos que nos levam a viver, a opção de não pensar é algo que provoca indigestão. Provavelmente foi algo folclórico, sem maldade, mas senti o golpe fundo. Apenas para desenhar melhor o panorama cinzento do qual me arrancaram as notas do violino de Tchaikovsky.

     E lembrei-me de outro russo, Dostoievsky, que o Papa João Paulo II citava na sua famosa “Carta aos Artistas”, quando escrevia: Os homens de hoje e de amanhã têm necessidade deste entusiasmo, para enfrentar e vencer os desafios cruciais que se prefiguram no horizonte. Com tal entusiasmo, a humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que a beleza salvará o mundo.

     Depois do filme, tive coragem de voltar sobre a insensata advertência de não pensar demais. Mas, agora com ânimo novo, e com outras perspectivas. Sim, é verdade. Pensar demais, quando o pensamento não sai do círculo da própria limitação, não leva a nada, porque é afundar-se na própria miséria. Tudo se reduz a um patinar sem sair do lugar, tendo como único objetivo o próprio umbigo. É preciso romper essa barreira, e para tal a reflexão é imprescindível, pois é o modo de abrir-se à transcendência. Ai entra a arte, a música, a harmonia que anseia o Maestro quando dá entrada ao solo de violino no Concerto de Tchaikovsky.

     Diziam os clássicos da mitologia grega, que Zeus, sabendo que os homens tenderiam a esquecer o importante –o que é o homem, para que está neste mundo- criou as musas e as artes para lembrar-lhes o que realmente importa. A arte é um caminho para a esperança, para levantar o olhar e vislumbrar além do próprio nariz. O progresso e a vida corrida que levamos nos distraem do que verdadeiramente tem valor, nos seduzem com possibilidades que acabam se convertendo em poderosas correntes que nos impedem voar. E, uma vez escravos, melhor não pensar.

     Não temos tempo para filosofias –dizemos- nem para diletantismos artísticos. Estamos sempre muito ocupados, muito tristes, e agora a palavra de ordem é não pensar e tocar em frente. A corrida desenfreada se interrompe, vez por outra, com umas férias onde é melhor não pensar também, porque antes ou depois teremos de voltar ao nosso duro banco das galés. As férias, e a festa –o ócio que os clássicos recomendam- deixaram de ser o espaço para recuperar forças e centrar a perspectiva de uma vida que é preciso gastar com sabor de aventura, plena de felicidade. É apenas uma pausa triste do escravo, do gladiador, que será obrigado a voltar ao circo e ao sofrimento. Como a minguada refeição que passam ao presidiário por baixo da porta.

     Ao longo da semana todas estas considerações foram desfilando pela minha mente, e atrelando-se espontaneamente às cenas do filme. Os músicos que o são de verdade –mesmo que ocupados, por questões políticas, em outros afazeres- sabem recuperar o sentido da arte, porque nunca o perderam. E sabem encarar as peripécias da vida com humor. Não aposentaram a reflexão, mas a retomam desde outro patamar. E, sob o comando de uma batuta decidida, a música flui dos instrumentos, sobrepõe-se às próprias limitações, brilha a luz da esperança, e renasce a convicção de que vale a pena viver esta vida de cabeça erguida, pensando sim, e agradecendo.

     “A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro.” É de novo a Carta aos Artistas convidando-nos a desterrar o medo de viver, de refletir, de tomar decisões, de ser felizes. Um chamado a sonhar sem receio, sem deixar-se contagiar dos ceticismos que invadem nosso quotidiano.

     E nestas sábias palavras, vem engatar-se outra cena poderosa. Andrei Filipov, o Maestro descreve para a jovem solista o cenário da sua última atuação, 30 anos atrás, truncada pelo sistema soviético. A moça se entusiasma, quer decolar, mas de repente sente medo. Um medo a ser feliz, a pensar talvez? E dá marcha à ré: “Procure um psicólogo, Andrei. Não se pode viver do passado, consumindo-se em lembranças”. O Maestro não responde, olha dolorido para aquela juventude assustada, e parece dizer com os olhos: “Você, que não sabe a sua procedência, que desconhece o seu próprio passado, está me pedindo que abdique das minhas raízes, das memórias que são a minha identidade?”. Uma cena envolvida, como sempre, nos compassos do concerto de violino, e que terá seu ápice nos momentos finais do filme, em lágrimas redentoras.

     “O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração”. São os parágrafos finais da Carta aos Artistas. Beleza e verdade que entram na nossa alma, com as notas do violino, e nos resgatam da nossa própria miséria, porque nos abrem à transcendência.

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O Concerto: Arte e Beleza que nos abrem à Esperança, 5.0 out of 5 based on 2 ratings
  • Dante

    Pablito, é isso ai! Parabéns pela crítica. Não se esqueça de que espero seu retorno para criarmos a rede de humanidades para a humanização em saúde. Grandes abraços, Dante.

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  • Marcelolevites

    O grande dilema é buscar os motivos que nos faz seguir em frente. A arte, em especial, a música, nos ajuda a refletir e entender a vida.
    Mas com certeza a beleza é a chave do mistério!
    Professor, adorei a crítica!
    Marcelo

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  • Maria do Carno MF.Madeira

    Dr. Pablo: Obrigada, por repartir seus conhecimentos, pensamentos e grande sabedoria.
    Maria do Carmo.

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  • Marcelolevites

    Sobre o Filme : ” O Concerto”.

    A melhor parte do filme é quando o maetro Filipov convençe o manager a permanecer junto com a orquesta e não troca-los pelas reunião do partido comunista.
    Apesar de todas as dificuldades como as diferenças entre as pessoas e suas percepções distintas é possível trazer a harmonia de tocar juntos em harmonia. Um concerto, quando bem executada, é uma comunhão de idéia e almas. Como diz o maetro Filipov, : ” Aqui o comunismo utópico é possível”.
    O filme, apesar de apresentar de maneira calicaturada os personagens, tem uma mensagem clara: Só é possível chegar a perfeição trabalhando com uma equipe, um time, uma orquestra.
    Só assim o concerto de Tchaikovski atinge o coração das pessoas!

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  • alberto

    Muito interessante. Tinha lido esse post ha varios meses e estava ansioso por ver o filme. Acabei de ve-lo, e gostei bastante. Valeu pelos guidelines, me ajudou a aproveitar melhor o filme.

    Alias, Pablo, (quando e se sair no Brasil) assista ao filme japones “Ototo” (http://cinemadetalhado.blogspot.com/2011/07/critica-ototo-ototo-japao-2010.html). Gostei bastante. Eh uma historia bem simples, mas com uma mensagem muito bonita. Nao concordo com a critica desse link (soh o postei para que voce veja a historia), nao acho que seja “carregada de sentimentalismo” e me parece um bom retrato  de uma relacao muito saudavel entre irmaos. Se nota claramente um fundinho cristao na mensagem do filme (que tambem aparece durante o proprio filme). E sem contar o fato de que mostra um Japao como poucos estrangeiros imaginam, bastante simples (beirando uma favela) e humano, e talvez justamente por isso tenha seu atrativo.

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