Hereafter – Além da Vida: Ensaios de Transcendência de Clint Eastwood

Arquivado em (Filmes) por Pablo González Blasco em 29-04-2011

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Hereafter.  Diretor: Clint Eastwood.  Matt Damon, Cécile De France, Bryce Dallas Howard, Frankie McClaren, Jay Mohr, Richard Kind, Thierry Neuvic. 129 minutos.

     A pergunta era inevitável: “Você viu o último filme de Clint Eastwood?” Todo o mundo sabe que gosto de Clint, é um amor que vem crescendo nos últimos anos. “Sim, gostei.” E de bate pronto, sem dar chance ao diálogo, prossigo: “Ainda não sei por que, mas gostei.”. O meu interlocutor olha-me admirado e acrescenta: “Pensava que você não gostaria. Desta vez, é um pouco diferente, não?”

     Quando assisti Hereafter, e gostei, anotei a lição de casa: duas ou três cenas que me impactaram e descobrir porque tinha gostado do filme. Bastam alguns minutos, para reparar que um filme é superior, conduzido da mão de quem entende e ama o cinema. A estética te envolve, o clima te situa à vontade, sabes de imediato que ai vem um bom filme. O contrário também é verdade. Um filme ruim provoca enjoo nos primeiros cinco minutos. Mas os motivos de por que se gosta de um bom filme nem sempre são explícitos. Na verdade, a maioria do público nem se coloca a questão; gostou, e pronto. No meu caso, uma vez assumido este pacto de educar com o cinema, não há escapatória: sou obrigado e pensar. Reconheço que às vezes tenho saudades dos que vão ao cinema sem maior preocupação do que providenciar a pipoca. Talvez por isso eu ande um pouco preguiçoso ultimamente; a minha lista de pendências aumenta conforme os filmes se acumulam sobre a prateleira. Optar por ver um deles é, fatalmente, gerar trabalho. “Que exagerado – dizem alguns. Veja por diversão, relaxe”. E, sorrindo, comento com os meus botões: “Se me deixassem….”. Por que a pergunta sempre chega: “Olha, você viu aquele filme?”.  Ou ainda: “Assisti um filme no final de semana. Tenho que falar com você sobre isso”. É o imposto a pagar por atrever-se a dar opiniões e escrever por ai. Paciência.

     Tive, pois, de pensar no por que tinha gostado do filme e tive de pensar também no motivo daquele comentário. Buscando a resposta para o segundo, encontrei a razão para a primeira. Minha apologia do cinema de Clint Eastwood –tenho escrito bastante sobre ele neste espaço, basta conferir- pode ter rendido conclusões se não equivocadas, sim incompletas.  Será que todo filme dele tem de ter um recado explicito? Qual é a lição que ele quer passar desta vez? O que significa tudo isto? A culpa deve ser minha, pois tiro ponta aqui e acolá, interpreto as cenas, invoco pensamentos de filósofos em cima dos fotogramas, engato alguma consideração antropológica sobre o mundo ou a selva pós-moderna, e dá no que dá. Não tenho motivo para queixar-me quando sou interpelado. Dai que escrever estas linhas é, antes de tudo, uma advertência para mim mesmo, um corrigir o rumo e, naturalmente, solucionar as duas questões que me acarretaram este trabalho.

     O cinema diz muita coisa, sugere ainda muita mais, mas não é uma fábula. Pelo menos é o que eu penso. Por isso, quando me perguntam qual filme recomendo para uma situação particular –seja uma crise familiar, um treinamento sobre liderança corporativa, ou pedagogia das virtudes para adolescentes- minha invariável resposta é sempre a mesma: “Eu não recomendo filmes. Os filmes não são historinhas com moral final, como as fábulas de La Fontaine. Eu utilizo filmes para provocar a reflexão. Ou melhor, utilizo cenas de filmes”.

     Tem gente que não se dá por satisfeito, e continuam perguntando: “Mas quais as cenas que você usa? Você armazena cenas por temas?”. Aperto novamente o botão do play, gravação já gasta em resposta padrão, que amenizo com um sorriso animado: “Uso as cenas que me atingem, as que me afetam. Aliás, isso é a tão trazida e levada afetividade: o que te afeta”. O silêncio no interlocutor me permite continuar: “É como nos livros – nos tempos que as pessoas liam mais. A gente vai lendo, e de repente tropeça com uma descrição, um modo de dizer, uma consideração tão precisa que é difícil colocar esse conteúdo com palavras diferentes. Daí o normal é anotar, fazer uma ficha, arquivar porque algum dia poderá se utilizar esse texto para alavancar uma ideia que estamos explanando numa aula, ou em algum escrito”. Neste ponto, o interlocutor que nem sempre tem familiaridade com citações de livros, embora já visse alguém fazer, costuma dar-se por satisfeito. Ou ao menos, isso parece. Embora sempre haja os que insistem, especialmente se andam às voltas com algum trabalho acadêmico: “E as cenas, como você as comenta, qual é a metodologia?”. Novo play no gravador: “Você pode fazer isso por sua conta. Junte as cenas que te tocam, as que sintonizam com tua emoção. Ninguém pode fazer isso por você. Não me atrevo a lhe passar as cenas que tem significado para mim, porque pode ser que te deixem indiferente”. Este sim costuma ser o ponto mais distante até onde chegam estes diálogos.

     Por que gostei de Hearafter? Não creio que haja muito recado para dar, ou significados profundos. Mais me parece uma preocupação real de Clint Eastwood. Nada de estranho que um homem que já passou dos 80 anos se interrogue pela vida futura, pelo que vem depois. Tem todo o direito. Seria esquisito se não fosse assim. Nem sempre são significados o que um diretor veterano coloca na tela; podem ser suas próprias questões, o que lhe ocupa a cabeça, as dúvidas vitais. A fronteira tênue entre esta vida e o além, saber que todo dia se morre um pouco e que a vida –a presente e a futura- não tem solução de continuidade porque nossa alma tem passaporte de dupla nacionalidade, terrena e futura, é temática pertinente. E não somente aos 80, mas muito antes. Sempre.

     Eu, que tenho bastante menos anos do que o Clint, quando diariamente ando por São Paulo, ou frequento locais que conheço há muitos anos, o primeiro que vem à mente são as pessoas, os momentos em que lá estive com esta ou aquela pessoa. E no sofrido trânsito paulistano, ao passar por um bairro, atravessar uma rua, é comum lembrar um amigo, de um paciente, de um conhecido que lá morava, e já carimbou o seu passaporte para o além. E me sinto unido a eles, converso com eles, rezo por eles, e lhes peço ajuda. A transcendência é conatural ao ser humano. Também aos diretores de cinema.

     Jorge Manrique, poeta espanhol do século XV, consagrou seu nome com os cantos que compôs quando morreu o pai dele. “Nossas vidas são como rios, que vão parar no mar”. Descobri um livro de poesias deste autor, onde além dessas elegias em coplas, também fala do amor. Em livre tradução diz mais ou menos assim: “É o amor força tão forte, que força toda razão, uma força de tal calibre, que nos absorver por completo (…) E a fazemos mais forte, querendo-nos defender dela. O amor é prazer onde há dores, dor que contém alegria, pesar que carrega doçuras, esforço que tem temor, temor onde surge a ousadia”. E, por associação de ideias, surgem as palavras do Cantar da Bíblia que diz ser o amor forte como a morte. Um amor permanente, ousado, que perdura, onde a morte é apenas um detalhe cronológico que em nada afeta a qualidade desse amor. Algo de tudo isso consegui visualizar em Hereafter, e gosto de pensar tem algo a ver com o que se passa pela cabeça do Clint.

     Mas Eastwood é um ótimo contador de historias, e essas questões têm de ser encaixadas numa trama que lhes dê unidade. Conta-nos, pois, uma história com um glamour todo especial, situando o filme em San Francisco – sua cidade natal, que ama de paixão-, Paris, e Londres, com direito à Torre Eiffel e Charing Cross Road, para que ninguém sinta falta do mais genuíno. Não deixa por menos. E, de aperitivo, um Tsunami filmado com técnica maravilhosa –vale conferir o making off– para dar a largada. E, para quem se aventurar com o making off, não perca o modo suave e positivo de como Clint dirige uma criança no set. Um avô apresentando-lhe os tesouros da sétima arte.

     E o diretor se interroga não tanto sobre a vida futura, mas sobre o limite, sobre a vida que se acaba. Nada de estranho num homem dessa idade. Já o dissemos: tem todo o direito a fazê-lo. Como também tem as suficientes horas de voo para mostrar que os dons que temos, nem sempre são tais, e se assemelham a maldições, lastros em forma de habilidades que nos fragilizam se mal utilizados. Daí recusar a autopromoção em cima destes carismas, e consentir utilizá-los para o benefício alheio, quando o coração se oprime vendo uma criança em baixo da chuva, ao relente, e a compaixão fala mais alto. E, de quebra, sugestões sobre as opções que é preciso fazer na vida; como abandonar um emprego confortável para investigar os motivos maiores, o que nos faz viver, e nos faz morrer, com serenidade. Por que não?

     E no meio da historia, os caprichos e a maestria de Clint, em cenas bordadas. As aulas de culinária italiana, onde o tomate da Toscana e a Opera entram como ingredientes essências. As duplas testam o paladar, numa dança que não é valsa, mas árias desgarradas de canto lírico, produzindo um efeito de romantismo salpicado de sensualidade, que prende e quase incomoda. Não pude menos do que lembrar aquela cena de “A filha de Ryan”, onde outro grande mestre, David Lean, consegue criar um clima análogo, mais molesto ainda, à base do relincho do cavalo do militar e da resposta meiga da égua de Rosie Ryan. Nestes tempos onde tudo é explícito, é preciso dominar muito bem a arte fílmica, para sem nada mostrar, nem mesmo sugerir, mexer com as paixões do espectador, à base de orégano, feijão preto e árias de Puccini. Um capricho desculpável de um octogenário cinéfilo apaixonado. Que longe ficam Dirty Harry, Magnum 44 e o western spaghetti!

     Posto tudo isto, ainda haverá quem considere Hereafter como um filme místico do diretor californiano. “O homem está no final e se prende em espiritualismos com efeitos especiais” Um comentário mais do que provável. Cada um tem sua opinião, e por isso aqui vai a minha. Não vejo aqui um filme místico, e sim um ensaio sobre a transcendência. Essa transcendência que é forte como a morte, porque tem o amor que é garantia de continuidade. “Amar a alguém é dizer: tu não morrerás nunca”- escreve Gabriel Marcel. Desconheço se Clint andou lendo o filósofo francês, mas não me estranharia o mais mínimo.

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