Antonio López Vega: Gregorio Marañón. Radiografía de un Liberal

Arquivado em (Livros) por Pablo González Blasco em 05-02-2014

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Antonio López Vega: Gregorio Marañón. Radiografía de un Liberal. Taurus. Madrid 2011. 552 pgs.

     O livro esta escrito em espanhol, mas merece um comentário em português, por dois motivos. O primeiro é a amizade que me une ao autor –que me deu este exemplar onde estampou uma dedicatória apaixonada, sabendo do muito que eu me inspiro nos escritos e na vida do Dr. Marañón. Uma dívida com atraso, pois tenho o livro há mais de ano, e somente agora consegui serenidade para lê-lo com calma. O segundo motivo, que está intrinsicamente ligado ao primeiro, é promover a figura de Marañon –e do seu biógrafo, talvez a maior autoridade no tema, diretor da Fundação Ortega- Marañón em Madrid- entre o público brasileiro.

     Forçoso é reconhecer que há mais de vinte anos venho comentando –e traduzindo ao português- o pensamento de Gregorio Marañón, como recurso imprescindível na formação dos médicos, em particular, e do ser humano em geral. Em todos os meus livros, e em muitas das publicações, as citações de Marañón são frequentes; e também textuais, porque é difícil exprimir com menos ou melhores palavras os conceitos que o médico espanhol esculpia nos seus escritos. O desconhecimento da sua pessoa e obra é quase total no nosso meio acadêmico-cultural Brasileiro, e esta biografia, que parece ser definitiva, mereceria uma tradução e a consequente promoção no nosso pais. Vale anotar que das três viagens que Marañón realizou a América do Sul, o único pais que visitou em todas elas, foi o Brasil, e lhe produziu esse efeito encantador que seduz aos intelectuais que nos visitam. Lembrei das palavras de Paul Claudel, numa circunstância semelhante: “Qualquer um pode dizer o que bem entender do Brasil, mas não tem como negar que se trata de um desses países pungentes, que impregnam a alma e a deixam com um certo tom, um vezo, um tempero de que ela nunca mais conseguirá se ver livre”. Espero que estes comentário caiam na mão de algum editor que tenha a coragem de enfrentar esta empreitada. Posso lhe assegurar que não se arrependerá.

     A leitura desta biografia teve o sabor do tempero conhecido; isso sim, ordenado com arte e precisão, especialmente no relativo à profissão médica. “Essa visão antropocêntrica da medicina, onde tudo gira em volta do enfermo e da sua circunstância, é a que fez que Marañón passa-se à historia como o protótipo de medico humanista, precursor do que hoje se denomina medicina personalizada, que centra os diagnósticos e tratamentos nas peculiaridades biológicas, fisiológicos e metabólicas de cada paciente (…) Advogava por uma medicina que se ajustasse ao indivíduo, e não ao contrário. Era preciso colocar o foco da atenção médica no paciente ao invés de coloca-lo na doença”. (…) O Manual de diagnóstico etiológico, era a expressão da sua defesa de uma medicina integral: a evolução da medicina revela e acentua o paradoxo de que , conforme a especialização se torna mas necessária e eficaz, é também mais necessário que todo médico especialista tenha uma base de orientação sintética, geral, que alcance todos os galhos da nossa arte, mesmo os mais afastados de atividade habitual de cada um. (…) Em 1959, quando recebe o Doutorado Honoris Causa em Coimbra, insiste na necessidade de conciliar técnica com humanismo, pois “não são opostos, como muitos pensam, mas uma encruzilhada de forças distintas, inevitável e fecunda”. Este é o legado que ele queria deixa, como médico humanista: a imprescindível compreensão da medicina, de maneira individualizada e integral. São todos conceitos, ideias, fatos que fazem parte do meu quotidiano como médico e como professor de medicina. Relembrar estas realidades me fizeram pensar, com agradecimento, o muito que pessoalmente devo a Marañón.

     Mas na leitura houve também surpresas, aspectos que não conhecia de D. Gregorio, embora os imaginasse porque um homem é retratado nos seus escritos. E, em Marañón, as referências ao amor são contundentes, apaixonadas, românticas. O romantismo de Marañón, que no dizer dele “voltará quando a pressa e a técnica alcancem para o homem do futuro o que o Romantismo precisa para viver: tempo e solidão”, está muito bem desenhado na biografia. Por exemplo, nas cartas que escreve a Lola, sua futura esposa, o amor da sua vida: “Para conquistar qualquer mulher distinguida, me bastaria meu título de médico; para a rainha da Espanha, se fosse solteira, bastar-me-ia ser rei de qualquer lugar; mas para você quero ser muito mais do que tudo isso: quero ser bom e trabalhador. Isto sim estou certo de te poder oferecer. (…) Se a vida me leva a conquistar postos altos, eles serão também teus, já que eu sou e serei sempre teu. Mas não tenho ambição do cume, apenas da subida, que é o que dignifica. Se chego ao cume, ficarei contente; mas a minha alegria em oferecer-te essa gloria não será maior do que poder colocar, cada noite aos teus pés, o cansaço, honesto, da jornada que acaba. (…) Eu sempre tive a ambição de querer-te com dignidade, e a única dignidade da que se pode um homem envaidecer-se é a do trabalho. Se eu fosse sapateiro, faria o calçado com afinco, melhor do que os outros; sou médico, e por isso me esforço diariamente em fazer o meu melhor, também diante dos teus olhos”.

     O trabalho era o meio pelo meio do qual Marañón –e os intelectuais da assim denominada geração do 14, onde é preciso incluir a Ortega y Gasset- concebiam a influência política. Mudar e melhorar Espanha através do prestígio profissional, do trabalho sério e dedicado. E embora fosse no seu domicílio onde, no 14 de Abril de 1931, deu-se à largada à II República Espanhola e se combinou o fim da monarquia e a saída do Rei Alfonso XIII do país, os promotores da República (Ortega, Marañón, Perez de Ayala, Antonio Machado) tinham claro o seu papel: uma república dos intelectuais, onde todos souberam renunciaram às ofertas que lhes fizeram de cargos políticos ou diplomáticos pois consideravam que seu dever era permanecer em Espanha e servir o pais com o seu trabalho intelectual.

     Como é sabido os caminhos da República não seguiram a trajetória prevista pelos seus promotores. Marañón y Ortega alertaram dos desvios provocados pela inoperância do Parlamento e pela radicalização dos partidos. Seis meses depois de proclamada a República, Ortega escreve na imprensa o conhecido artigo: “Un aldabonazo” (em tradução livre, um forte golpe chamando na porta), que concluía com a famosa frase: ““Não é isto, não é isto. A República é uma coisa. O radicalismo é outra. O tempo o mostrará”. Esse é o itinerário de uma decepção –em palavras textuais da biografia- que desemboca no capítulo “Desconcerto” : Marañón no exílio em Paris. Era a opção que lhes restava aos que, tendo promovido a República, não queriam colaborar com a desordem, ao tempo que deveriam se proteger dos que, iniciada a guerra contra o regime republicano, sempre os olhariam com desconfiança. O regresso se faria demorado, lento, inseguro. A ditadura que seguiu a guerra civil sempre contemplaria com prevenção os intelectuais que catalisaram a queda da monarquia.

     Um ponto destacado na biografia é o calibre liberal de Marañon, que viveria o liberalismo não como uma atitude política, mas como uma conduta; com o exercício de sentimentos como a compreensão, a generosidade, a tolerância. Sentimentos que nunca deixou de lado, mesmo em Paris, durante o exílio, onde atendeu a amparou a todos os que requereram sua ajuda, independente das ideias políticas de cada um dos que a ele acudiam.

     Relatam-se a gênese de muitos dos seus livros, os momentos e circunstâncias em que foram escritos. As biografias, os estudos, os ensaios que imortalizaram o pensador. Ai está a figura de D. Juan “incapaz de especificar seu amor, reparava na mulher como gênero, sem ir além de um conhecimento superficial dela, o que supunha uma tragédia pessoal, pois nunca conseguiria a intimidade total com o ser amado, expressão do amor interpessoal”.

     O ideário de Marañón é espalhado com destreza ao longo de mais de quinhentas páginas onde se recolhem temas variadíssimos, objeto do pensamento do médico. Ai consta a arte de ensinar, que aperfeiçoa o mestre: “Penso que ensinar aos demais é, na verdade, uma grande lição que nos damos a nós mesmos; e os espectadores são como um espelho, ativo, que devolve nossas ideias, afinadas, retificadas, ou confirmadas”. E a virtude da sobriedade: “Até que as circunstâncias nos envolvem não reparamos a capacidade da natureza humana para todo tipo de restrições. Na verdade, rodeamos nossa vida de coisas supérfluas para não aborrecer-nos e chegamos a acreditar que sem elas não se poderia viver, para justifica-las aos nossos olhos. Mas sem elas se vive bem, e até que muito bem”.

     Recolhem-se o que poderíamos denominar os pilares do relacionamento humano, da postura que se deve esperar de um intelectual, de um liberal, de um homem de bem, que aponta assim os seus sonhos: “Que os seres humanos se entendam, sejam quais forem suas ideias, ao invés de matar-se por elas; que os chefes dos povos governem com humanidade e não com tirania arbitrária; que em vez de discutir-se nas universidades silogismos absurdos, se estude a realidade viva; que a experiência suceda à especulação teórica; que se ame a natureza e se esteja em contato com ela; que o sofrimento dos outros o sentíssemos como sendo próprio”.

     Parabéns ao autor, meu amigo Antonio López Vega, por esta magnífica obra Ninguém melhor do que a ele podem se aplicar as palavras de Marañon: ”fazer história não é contar coisas, mas compreendê-las; e esta compreensão é as vezes difícil porque, como dizem os ciganos nas suas coplas, a paixão tira o conhecimento”. O autor nos permite compreender a estatura intelectual de Marañón, a sua relevância. Tenho a esperança de que estas linhas cheguem até algum editor brasileiro que possa oferecer ao nosso público esta biografia. É uma lacuna que temos de preencher.

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  • Arnulfo Irigoyen

    Estimados colegas:

    La estupenda reseña sobre el libro de Antonio López Vega en el que se aborda una arista más de la prolífica y extraordinaria obra de Marañón, me lleva a agradecer -al doctor Pablo González Blasco (PGB)- el ofrecernos esta útil y puntual reflexión sobre el humanismo, que a final de cuentas es el motivo, origen y razón de ser de la labor de todo médico.

    Una aclaración, PGB se pregunta ¿Por qué los españoles no leen a Marañón? Lo mismo yo haría con los brasileños, mexicanos, uruguayos, etc.

    Original y oportuna invitación para leer a un Titán del Humanismo.

    Arnulfo Irigoyen
    Profesor de Medicina Familiar. México. UNAM.

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